Um beatle enfrenta o poder do Império

Cartaz do documentário

“Os EUA X John Lennon” mostra o lado político e militante do cantor inglêsNo início de abril chegou tardiamente às telonas do país o documentário “Os EUA X John Lennon”, produzido em 2006 e exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo no ano seguinte.

O filme mostra uma faceta bem menos conhecida do então ex-líder dos Beatles: seu ativismo político na luta contra a guerra do Vietnã e em defesa dos direitos civis. Como o nome do longa sugere, o cantor desatou e teve de enfrentar a dura reação do governo norte-americano.

Mundo em efervescência
O documentário foca o período que vai de 1966 a 1976. Enquanto na Europa explodia o Maio francês, os EUA assistiam a emergência dos movimentos de luta pelos direitos civis. A guerra do Vietnã, que nunca fora popular, provocava um amplo movimento de rechaço principalmente entre a juventude norte-americana.

E em meio a tudo isso, John Lennon, que abandonava a banda que o fizera famoso, não teve dúvidas. Junto com Yoko Ono, o inglês filho da classe operária como sempre fazia questão de ressaltar, se mudou para o epicentro daquele turbilhão que passava pelas ruas dos EUA: Nova Iorque. Abraçava, assim, o ativismo político.

Enquanto seus antigos companheiros aproveitavam a fortuna que haviam acumulado nos anos de estrelato, Lennon se politizava cada vez mais. Aproximou-se de ativistas políticos como Bobby Seale, líder dos Panteras Negras. Integrou-se numa campanha pela libertação do ativista John Sinclair, preso ao oferecer dois baseados a policiais disfarçados.

O longa mostra como o beatle, extremamente consciente de sua influência e da força de sua imagem, a utilizou na luta contra a guerra e na campanha pelas liberdades democráticas no país. Arrebanhando uma legião de seguidores e oferecendo uma trilha sonora para as mobilizações, Lennon logo provocou a reação do conservador governo Nixon.

Perseguição
Com depoimentos de Yoko e intelectuais como Tariq Ali, Noam Chomski, Gore Vidal, entre outros, incluindo um ex-agente do FBI, o filme reconstrói o episódio em que Lennon enfrentou a ira do governo da maior potência do planeta.

Nixon ficava cada vez mais preocupado com a aproximação de Lennon com ativistas, e o seu crescente engajamento. “Ele por si só não era um problema, mas ao apoiar gente que queríamos colocar na cadeia, ele passou a representar um problema”, sintetiza o ex-agente do órgão de informação.

O governo logo colocou espiões do FBI no encalço do artista, tentando intimidá-lo de forma ostensiva. Assim, o governo norte-americano expunha a hipocrisia de sua tão propalada “democracia”, a mesma que diziam estar defendendo ao apoiar militarmente a monarquia ditatorial do Vietnã do Sul.

Após fazer uma devassa na vida do cantor, o governo descobriu que Lennon havia sido detido anos antes na Inglaterra por posse de drogas. Foi o pretexto para que o governo Nixon desatasse uma tentativa de deportar o casal problemático, numa batalha jurídica que se arrastou por anos.

Intercalando depoimentos atuais com imagens e entrevistas da época, o documentário mostra que a luta política de Lennon ia bem além do pacifismo hippie. Interessante notar, por exemplo, como o beatle se referia aos militantes no período como “revolucionários”.

“Os EUA X John Lennon” mostra não só a hipocrisia do governo e as intervenções militares que promovia em várias partes do mundo, e aqui a comparação com o governo Bush e até mesmo Obama são inevitáveis, mas discute também a potencialidade da arte unida à força de uma ideia, perigo que os EUA sabiam muito bem o que representava.

Ficha Técnica
Diretor: David Leaf, John Scheinfeld
Elenco: Depoimentos de: Walter Cronkite, Mario Cuomo, Angela Davis, G. Gordon Liddy, George McGovern, Yoko Ono, Geraldo Rivera
Produção: Brad Abramson, Kevin L. Beggs
Roteiro: David Leaf, John Scheinfeld
Fotografia: James Mathers
Duração: 99min
Ano: 2006
País: EUA