Um assalto dentro da lei

“Difícil distinguir um assalto a banco da fundação de um banco”. Essa frase atribuída a Karl Marx nunca foi tão precisa. Se pudesse ver os lucros dos bancos brasileiros durante o governo Lula, o velho revolucionário alemão seria certamente tomado de súbito pavor. Nas últimas semanas, as principais instituições financeiras do país divulgaram seus lucros exorbitantes. Mais uma vez quebraram recordes que nenhum medalhista olímpico jamais sonhou.

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo do dia 12 de março, a soma dos lucros das 104 instituições financeiras que operam no Brasil fechou 2006 em R$ 33,4 bilhões. Esse valor corresponde a um retorno de 22,9% sobre todo o patrimônio dos bancos. Só para efeito de comparação, a rentabilidade média dos bancos que operam nos Estados Unidos é de 15%.

Em 2005, os lucros do setor ficaram em R$ 28,3 bilhões, um retorno de 22,6%. Um dos principais fatores que provocaram tal aumento exorbitante nos lucros dos banqueiros foi o aumento das tarifas aos clientes.

Enquanto em 1996 as taxas fizeram os bancos lucrarem R$ 12,1 bilhões, em 2006, os banqueiros ganharam nada menos que R$ 47,5 bilhões extorquindo a população, um aumento de 293%. Enquanto isso, o aumento com a folha de pagamento dos funcionários sofreu um reajuste de apenas 55%, sendo que a inflação do período foi de 92,7%. Ou seja, enquanto aumentam de forma abusiva as taxas e tarifas, os bancários amargam arrocho e são superexplorados.

Rindo à toa
De acordo com os dados, o Bradesco, maior banco privado do país, obteve um lucro de R$5,054 bilhões no ano passado. Levando-se em consideração eventos extraordinários, como o pagamento de ágio na aquisição de outras instituições, o resultado foi 8,3% menos que o lucro líquido de 2005 (de R$5,51 bilhões). No entanto, descartados esses efeitos, o lucro soma R$ 6,36 bilhões, ou 15,42% a mais do que em 2005.
Já o Itaú teve lucro líquido de R$4,31 bilhões, resultado 18% menor que o obtido em 2005. Prejuízo? Nada disso. O banco apenas incluiu na conta a compra do BankBoston. Excluindo os efeitos da aquisição, o resultado do segundo maior banco privado do país foi positivo em R$6,48 bilhões (23,4% a mais do que em 2006).

Outro banco que está sorrindo à toa é o ABN Amro Real, que fechou 2006 com um lucro líquido de R$2,05 bilhões, 43% maior do que em 2005.

Assalto aos céus!
É correto atribuir a esses lucros estupendos à política econômica do governo Lula, já que impõe as maiores taxas de juros do mundo. Entretanto, há um componente novo no balanço dos lucros. Trata-se do aumento pela procura de créditos. “Nossas receitas de prestação de serviços foram positivamente afetadas pelo crescente volume das operações de crédito”, divulgou em nota o Itaú.

O crescimento na carteira de empréstimos para pessoas físicas, especialmente do chamado crédito consignado, é um traço comum entre os banqueiros para explicar o espantoso aumento dos lucros.

O crédito consignado é uma nova modalidade de empréstimo, criada em 2003 pelo governo Lula, sob a desculpa de facilitar acesso dos pobres aos empréstimos bancários. O crédito é concedido especialmente a pessoas de baixa renda, como aposentados, funcionários públicos e trabalhadores da iniciativa privada que têm descontados nos salários os empréstimos contraídos nos bancos.

De lá para cá, esse tipo de serviço tornou-se o produto financeiro de maior sucesso. Só em 2004 – um ano após a criação – seu crescimento foi de 120%, muito maior do que qualquer outro tipo de produto como o cheque especial ou cartão de crédito. As taxas de juros anuais são em média de 30% e a rentabilidade é certa para os banqueiros, uma vez que o risco de inadimplência é praticamente zero, já que as parcelas do empréstimo são descontadas diretamente da folha de pagamento. Em outras palavras, o crédito consignado é uma forma de transferência da renda dos pobres para o cofre dos bancos.

No Bradesco, os empréstimos a clientes pessoa física tiveram expansão de 19,2% em 2006. Consciente de que o negócio é uma verdadeira mina de ouro, o banco comprou no início do ano, por cerca de R$ 800 milhões – uma pechincha – o BMC, que é o segundo maior banco no segmento de crédito consignado para aposentados e pensionistas do INSS. Em 2006, o BMC viu sua carteira crescer 69%, ou R$427 milhões. Atualmente, a carteira de crédito do BMC soma R$2 bilhões, sendo que 58% correspondem a empréstimos com desconto em folha de pagamento.

Vale lembrar que o BMC foi a galinha dos ovos de ouro no esquema do “valerioduto” que financiou as campanhas do PT. Agora, o Bradesco pretende dobrar para R$3 bilhões sua carteira nesse segmento.

O Itaú também deseja aumentar sua participação no crédito consignado. Em 2006, a parcela do Itaú dedicada a esse serviço era de aproximadamente R$ 2 bilhões. Esse ano, a estimativa é de uma expansão de 20% no volume concedido pelo banco.

Armadilha
Para os trabalhadores, o crédito consignado funciona de forma semelhante ao sistema de extorsão existente em regiões de fronteira agrícola do país, onde é comum a prática de trabalho semi-escravo. Nelas, trabalhadores rurais são atraídos por propostas de trabalho digno, mas acabam caindo numa armadilha. O salário que recebem sofre descontos em alimentação, vestuário, moradia etc, constituindo um círculo vicioso em que o empregado sempre fica devendo ao patrão. Com isso, vários trabalhadores não recebem nada, pois têm suas “dívidas” permanentemente descontadas nos seus salários.

O exemplo está longe de ser um exagero, especialmente se analisarmos o caso dos aposentados, principais vítimas do crédito consignado. Aposentados e pensionistas do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) já tomaram R$20,2 bilhões em empréstimos consignados (com desconto direto no benefício).

Os aposentados, que já acumulam perdas salariais há muitos anos, ao contraírem empréstimos, recebem no pagamento seguinte um valor diminuído em razão do desconto da parcela. “Além de não receber reajustes durante muito tempo e ter contraído dívidas, passa a receber menos do que recebia antes do empréstimo e continua com as dívidas, porque, uma vez pego nas malhas dos agiotas institucionalizados, a pessoa dificilmente consegue se livrar deles”, explica Clemilce Carvalho, da Associação dos Auditores Fiscais da Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro (Afiperj).

Nunca os banqueiros lucraram tanto no Brasil como no governo Lula. O vergonhoso lucro dos bancos contrasta com imensa miséria da maioria da população. A política econômica do governo Lula é de um Robin Hood às avessas. Retira dos pobres para dar aos ricos. Alguma dúvida sobre a razão dos bancos fornecerem milionários financiamentos à campanha de reeleição de Lula?

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