Trump e o nacionalismo imperialista

Este artigo foi escrito para contestar o fato de que a maioria da imprensa atribui a vitória de Trump aos efeitos colaterais da globalização. Esse raciocínio pretensamente progressista, que versa sobre o aprofundamento das desigualdades, é profundamente reacionário, pois acaba assumindo parte do discurso reacionário e nacional-imperialista de Trump.

Escondidos por trás de frases vazias que nada explicam, a maioria dos analistas descobrem agora os “deserdados da globalização”, os mesmos que, em outros tempos, defenderam que o mundo se tornaria plano e que todos ganhariam com a globalização. Ocorre que por trás do termo globalização se esconde a dominação imperialista, sua divisão mundial do trabalho e a opressão impiedosa sobre os povos e trabalhadores de todo planeta. O livre comércio foi a condição para que todas as frações da classe dominante norte-americana experimentassem anos de lucros baseado na superexploração da classe operária em nível mundial.

O que não se diz, porém, é que as consequências do livre comércio variam de acordo com os países e as classes em seu interior. O resultado do livre comércio não é o mesmo em países tão diferentes como Estados Unidos e México. Nossa impressão é que por trás do show e das promessas está o fato de que a economia capitalista mundial não consegue abrir o caminho a um novo ciclo de investimentos. Esse é o eixo sobre o qual gira a política e as ideologias – ou bodes expiatórios.

Não nos parece que o livre comércio seja o principal alvo da futura administração Trump. Tampouco esse é o fato real e o motivo das fricções entre as frações burguesas nos Estados Unidos. Menos do que o livre comércio, nossa hipótese se orienta para o sentido dos atuais tratados em negociação e os interesses do capital imperialista, que versam muito pouco sobre livre comércio, e todos eles estão em crise por distintos motivos.

No entanto, e ainda que “o impossível pode ser tornar provável e de uma hora para outra virar realidade”, não é o mais provável que os interesses dos oligopólios norte-americanos sejam questionados pela futura administração da Casa Branca. O que nos leva a discutir sobre a que setores de classe dominante responderá a futura administração da Casa Branca.

Este artigo, construído sobre a marcha dos acontecimentos, não tem outra intenção que não seja formular hipóteses que podem e devem ser tranquilamente descartadas posteriormente. O sentido mais geral do que desenvolvemos está guiado pela convicção de que o nacional-imperialismo de Trump, o racismo, a xenofobia e o machismo, a cara mais abominável de um imperialismo cujas atrocidades foram justificadas pela defesa dos direitos humanos e da democracia prepara uma ofensiva profunda, cuja razão final é tirar a economia capitalista mundial do atoleiro.

I
O nacional-imperialismo (comumente chamado de populismo de direita) ganhou notoriedade na Europa. A expressão política mais conhecida é o partido de Marie Le Pen, Frente Nacional, na França, que vem ganhando cada vez mais espaço político exaltando o nacionalismo imperialista, vangloriando o ex-império colonial francês na África, diga-se de passagem, derrotado pela revolução colonial e daí o seu o ódio aos imigrantes. Expressão da falência do projeto do capital financeiro da unidade da Europa sob o imperialismo, este resultou no aumento dos antagonismos entre os países e em seu interior, o nacional-imperialismo busca dividir os trabalhadores com o racismo e a xenofobia: “o nacionalismo imperialista, o racismo e a xenofobia, sendo a cara mais abominável do imperialismo e de umas sociedades que se enredam em suas próprias contradições e as exacerbam é também o reflexo do ajuste estrutural entre as frações burguesas e a incapacidade imperialista para unificar Europa”. [1]

Agora, o discurso de Le Pen, tem um concorrente de peso. O vencedor das primárias da direita francesa, Françoise Fillon, estabelece como principal objetivo de sua presidência “converter novamente a França na primeira potência europeia e recuperar o pleno emprego”. O Brexit (saída da Grã-Bretanha da União Europeia), erroneamente atribuído como parte do mesmo fenômeno, desliza na esteira de outro fator importante e menos discutido: a completa falência dos novos partidos reformistas europeus, cuja estrela ascendente em seu momento foi Siryza, na Grécia, que começou seu governo defendendo a “refundação da EU” e transformou-se no principal instrumento de aplicação das medidas de massacre da classe trabalhadora e dos imigrantes.

Apelando para os mesmos sentimentos, “América grande outra vez”, o nacional-imperialismo atravessou o atlântico. No entanto, se os setores médios que apoiaram o discurso racista e xenófobo de Trump autorizam uma analogia com a ultradireita européia, talvez seja precipitado colocar um sinal de igual entre a fração burguesa que se coloca à frente do governo norte-americano com Le Pen ou UKIP na Inglaterra. Talvez não seja por mero acaso que o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, em 2007, que revelou a crise de superprodução mundial, tenha conduzido à chefia da Casa Branca um dos beneficiários dessa estafa e diretores executivos dos Fundos de Investimentos. É o que aparece até agora nas nomeações para os principais cargos do governo.

O designado para secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, está longe de alguém que deu duro para conquistar o “sonho Americano”: filho de banqueiro, ex-executivo do Goldman Sachs, ex-gestor do fundo de investimentos de George Soros e principal acionista do hedge-fund vinculado a bolha imobiliária. Um jornalista que comentava a nomeação observou que “Mnuchin se converte no quarto goldmanita neste cargo na história recente (depois de Timothy Geithner, Hank Paulson y Robert Rubin, nomeados por Barack Obama, George W. Bush y Bill Clinton, respectivamente)”. (El, País, 30/11/2016)

Em sua primeira entrevista depois da nomeação, Mnuchin afirmou que sua prioridade é desfazer a tímida regulação do mercado realizada por Obama depois da bolha imobiliária. Conhecida como a lei Dodd-Frank Act (os autores da lei), segundo Mnuchin, esta normativa é complicada demais e, por isso, restringiria o crédito. “Queremos modificar partes da Dodd-Frank e essa será a prioridade número um”, disse ele. (Idem)

O novo secretário do Comércio, Wilbur Ross também é gestor de fundos, visto como um tubarão de Wall Street (o filme Wall Street, de Oliver Stone, nos oferece uma ideia bastante ilustrativa do que é um Tubarão do mercado financeiro). Ross é especializado em compras de empresas falidas e com ações em queda para saneá-las, ou seja, realizar demissões e cortes de salários. No entanto, o mais curioso é o fato de que o candidato a liquidar o livre comércio e recuperar o emprego é também presidente da International Textile Group (ITG) com fábricas instaladas na China, no Vietnam e na América Central. Segundo os critérios de Trump, um serial killer de empregos.

Não nos parece que a composição do governo reflita uma rebelião contra o establishment apregoada pelo candidato. Parece mais próximo de um governo dos Fundos de Investimento de Wall Street. Menos do que um outside que corre fora dos trilhos, estaremos diante da velha família imperialista com novas caras.

Sobre os tratados que tratam muito pouco de livre comércio
Quando foi criada a Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995, concretizou-se a redução das tarifas de importação e também as restrições quantitativas para todos os tipos de produtos industrializados, este é o marco fundamental da liberação do comércio a escala mundial. Depois da grande liberação comercial, o que está em jogo nos atuais tratados, sobre o manto do livre comércio é a pauta imposta pelo capital financeiro nos acordos regionais: proteção aos investimentos, requisitos de desempenho que obrigam mudanças nas leis dos países, propriedade intelectual, compras dos governos, abertura para o setor de serviços (privatização de bancos estatais, meios de comunicações, energia e serviços urbanos etc.).

A abertura das fronteiras continua sendo o duto que permite a circulação de mercadorias como resultado dos investimentos das multinacionais em escala mundial. A combinação de ambos construiu uma divisão mundial do trabalho centrada na exportação de bens de alta tecnologia (máquinas de precisão, ferramentas, químicos etc.), desenvolvidos nos países imperialistas, e manufaturas e matérias primas na periferia.

Além dos acordos regionais mais conhecidos – NAFTA (entre México, Estados Unidos e Canadá), União Europeia, região do Fórum de Cooperação Ásia-Pacífico (mais conhecida por sua sigla em inglês APEC e que congrega 21 países, como China, EUA e Japão – assinaram 144 tratados de livre circulação de mercadorias entre 1993 e 2014.

Alguns países abrigaram a maioria dos investimentos dos grandes oligopólios centrados no leste da Ásia que fornecem mão de obra semiescrava. Estes se industrializaram, mas, em escala global, o resultado do livre comércio para a maioria dos países semicoloniais foi desindustrialização, desnacionalização, especialização regressiva dos países concentrados na manufatura e dentro da divisão de tarefas no interior da cadeia produtiva das empresas. Essa é a situação da Grécia (e também de Portugal) convertidos em meras semicolônias no interior da União Europeia. No mesmo sentido, a profunda crise social no México é consequência dos salários pagos aos trabalhadores mexicanos pelas empresas norte-americanas instaladas na fronteira: menos da metade dos salários chineses.

A crise dos tratados de livre comércio e o imperialismo
O porta-voz da toda poderosa Federação das Indústrias Alemãs (BDI) se diz perplexo: “Não consigo entender por que, nos últimos tempos, uma nova mentalidade isolacionista se espalha cada vez mais neste país”. O estarrecimento da classe dominante alemã é resultado da grande mobilização contra os tratados de livre comércio que estão em negociação entre União Europeia, Estados Unidos e Canadá, dirigidos por uma frente composta por “mais de 1.800 governos municipais e regionais, pequenas e médias empresas e figuras da cultura integram um movimento contra tratados como TTIP, CETA e TiSA com um impacto político cada vez maior” segundo informa o site espanhol El Diário. Essa frente convocou uma manifestação, em setembro, pelo fim das negociações dos tratados, da qual participaram 350 mil pessoas.

Seria possível deduzir que a luta contra estes tratados na Alemanha seria o resultado do desemprego causado pelo livre comércio. Contudo, o desemprego na Alemanha, em junho de 2016, segundo o instituto de estatísticas da União Europeia (Eurostat), é de 4,2%. Se comparamos com o desemprego na Grécia, este chega a 25%. Isso porque os efeitos do tal livre comércio é completamente diferente dependendo do país analisado.

A Alemanha é o terceiro maior exportador do mundo, responsável por 7,7% das exportações no planeta. Essa máquina de exportação se apoia na livre circulação de mercadorias no interior da União Europeia, dividindo os diferentes estágios de produção de carros, máquinas etc. pelos países europeus (particularmente no leste) e concentrando nas empresas alemãs os estágios que envolvem a alta tecnologia. Essa mesma divisão do trabalho pode ser encontrada no NAFTA, bem como na relação entre EUA e China.

Porém, quando os países industrializados importam da periferia produtos acabados (como o iPhone montado pela Foxcom na China) ou peças de carros produzidas no México ou na Polônia, eles têm uma balança comercial desfavorável? Não. Tudo ao contrário. Segundo o Mackinsen Institute, os países industrializados importam o equivalente a US$ 342 bilhões de mercadorias intensivas em mão de obra e, ao mesmo tempo, exportam US$ 726 bilhões de bens de alta tecnologia (máquinas, ferramentas, softwares etc.). Um superávit de US$ 484 bilhões.

Por que, então, os alemães foram às ruas? Uma das organizações que convocou a manifestação, a União das Comunas Alemãs, congrega 3.400 cidades que estão contra a privatização dos serviços de fornecimento de água, saneamento básico, transportes públicos e atividades no campo da cultura, prevista no tratado. O insólito e pouco usual dessa frente, no entanto, foi o ativismo da Associação dos Magistrados Alemães, que abriu uma guerra contra os tribunais privados previstos no tratado para solucionar controvérsias entre os estados e as empresas [2]. Quando as empresas não têm o lucro esperado por causa de barreiras impostas pelas leis nacionais, podem acionar tribunais de arbitragem. Estes não estão vinculados a nenhum organismo internacional. São câmaras privadas com árbitros indicados pelas empresas. Os motivos para acionar esses tribunais vão desde os direitos trabalhistas até leis de proteção ambiental.

Por isso, se esses tratados não forem concretizados, o efeito sobre as tarifas de importação, tanto do TTIP (União Europeia e Estados Unidos) e do CETA (Canadá e União Europeia) são insignificantes, porque as tarifas atuais giram em torno dos diminutos 3% e não baixarão mais do que isso para a maioria dos bens comercializados.

François Hollande é considerado o presidente francês com a mais baixa popularidade desde a Segunda Guerra Mundial (4%). Depois das mobilizações contra a reforma trabalhista, imposta por decreto pelo seu governo, o presidente francês e seu vizinho, o vice-primeiro ministro alemão, deram uma volta no parafuso. Ainda segundo o El Diario, “o governo francês informou que solicitará aos ministros do Comércio da União Europeia, que se reunirão em Bratislava (22-23 setembro) a interrupção – temporal – das negociações com USA do Acordo Transatlântico de Comércio e Investimento (TTIP). Antes dele, o vice primeiro ministro alemão e ministro da Economia, o líder do Partido Social-Democrata (SPD), Sigmar Gabriel, disse que as negociações TTIP ‘de fato fracassaram’” (grifo nosso).

Nenhum dos dois foi tachado pela imprensa mundial de assassino do livre comércio e da globalização. Tampouco são de ultradireita: eles integram a socialdemocracia. Contudo, até segunda ordem e antes das eleições de Trump, enterraram os dois mais importantes tratados de livre comércio em negociação.

No mesmo sentido e de forma mais descarada, a megazona de livre comércio patrocinada pelos EUA com os países asiáticos e latino-americanos banhados pelo Pacífico, o TPP, (Estados Unidos, Canadá, Chile, México, Peru, Austrália, Japão, Nova Zelândia, Brunei, Malásia, Singapura, Vietnam) tem várias cláusulas que vão muito além do livre comércio. Além das condições estritas sobre a propriedade intelectual, o tratado estipula que a condição para uma mercadoria circular na área com tarifa zero é a inclusão de materiais e componentes exclusivos das empresas dos países do tratado. Em outras palavras, fornecidos pelas empresas norte-americanas.

Todos os tratados negociados impõem barreiras ao livre comércio com países terceiros. Assim como a União Europeia e o NAFTA, estas áreas se convertem em terreno privado das potências imperialistas e impõem barreiras não tarifárias e tarifárias aos produtos agrícolas do mundo semicolonial.

A maioria dos novos tratados negociados tem muito pouco a ver com o livre comércio. O objetivo real é incorporar bancos e empresas relativamente protegidos pelas fronteiras e acabar com todo e qualquer tipo de regulação dos mercados financeiros, permitindo a criação de instrumentos de especulação como os famosos subprimes das hipotecas norte-americana, abrindo aos fundos de investimento um novo campo que compense a queda das taxas de rendimento atuais. Por exemplo, o TTP, negociado entre Estados Unidos e países asiáticos, exclui, até agora a China, porque até o momento o governo de Pequim se nega a aceitar a cláusula sobre a privatização dos bancos.

Os bancos estatais chineses foram decisivos para que as empresas, particularmente as estatais, mantivessem uma taxa de investimento de mais de 40% do PIB em plena recessão nos países imperialistas. Porém a dívida das empresas, que em 2000 era próxima a 100% do PIB, agora é de 160% em meio a uma crise de superprodução. A maior parte destes empréstimos é impagável e, tecnicamente, a maioria destes bancos deixaria de existir sob novas regras já que não teriam como cobrar os empréstimos. A privatização do sistema bancário combinado com a monstruosa dívida das empresas acarretaria duas consequências imediatas: um aumento da desnacionalização da indústria de bens de capital e a aceleração da crise social:

Em seis indústrias que têm sérios problemas de excesso de capacidade: aço, carvão, cimento, vidro, papel e metais não-ferrosos, calculamos que, se houver uma redução da capacidade, digamos, de 10%, haveria cerca de 4,31 milhões de demissões. O custo de ajudar os desempregados seria entre US$ 24 e 73 bilhões, dependendo da generosidade do governo… (que estabeleceu um fundo de ajuda de US$15 bilhões) (He Fan. Dealing with zombie enterprises in China. 20/11/2016, www.eastasiaforum.org)

Trump anunciou um plano de investimento em infraestrutura nos Estados Unidos da ordem de US$ 1 trilhão de dólares, com parceria público privada. Mas não foi o único, e talvez o que mais irrite o novo inquilino da Casa Branca seja a perda de um negócio milionário.

O Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB em inglês), criado em 2016 sem a participação dos Estados Unidos, parece-nos um fator relevante. Este banco patrocinado pela China é integrado por 57 países e alguns pesos pesados como Inglaterra e Alemanha que não atenderam aos apelos de Washington para boicotá-lo. O capital inicial do AIIB é de modestos US$ 100 bilhões e tem como objetivo construir estradas, gasodutos etc. Modesto porque, segundo o Banco Asiático para o Desenvolvimento (BAD), o negócio vinculado à construção deve movimentar US$ 8 trilhões na Ásia. Diante da negativa de Pequim em assinar as condições do TTP, o governo Obama se negou a integrar o AIIB. Até agora, o resultado é um TTP descafeinado, sem a China e os fundos de investimentos ianques, fora do projeto de investimento em infraestrutura. Talvez estes fatores expliquem melhor a obsessão de Trump do que suas ameaças de acabar com o livre comércio.

A queda do comércio mundial
Até 2007, o comércio mundial cresceu a uma taxa superior ao PIB mundial, resultado dos investimentos das empresas imperialistas no leste da Ásia a partir dos anos 1980. O efeito de aumento não foi somente das mercadorias produzidas pelas multinacionais na China e exportadas para Europa e Estados Unidos. O acelerado processo de urbanização também demandou minerais, produtos agrícolas e energia aumentando também o comércio entre o sul do planeta.

Mas, nos dias atuais, o crescimento do comércio mundial estancou ou já está em franco retrocesso. O economista britânico Michael Roberts assinala que este estancamento, a partir de 2007, é uma inversão da tendência aberta em 1982: “O crescimento do comércio mundial se reduziu até se estancar (…) A OMC reduziu recentemente seu prognóstico de crescimento do comércio mundial este ano em mais de um terço. Agora, espera um crescimento de somente 1,7% do volume do comércio em 2016, abaixo de sua estimativa anterior de 2,8% (…) Se observarmos a evolução do crescimento do comércio mundial desde a Grande Recessão, o crescimento médio anual do seu volume foi somente de 2% frente a 5,6% antes de 2008. Se compararmos crescimento do comércio com relação ao PIB nos 90 ele cresceu duas vezes mais que o PIB mundial, agora ele é somente 80% do PIB. A primeira inversão da tendência da globalização desde 2001”.

Se não existem barreiras alfandegárias que sejam obstáculos às exportações, por que o comércio mundial se retrai? Porque a crise de superprodução iniciada em 2007 não foi resolvida. Não é somente o volume das exportações e importações que se deteriora, agora ele atinge os preços pelo excesso de capacidade. De acordo com Roberts, “Os Estados Unidos não são uma exceção à tendência mais geral. O valor total das importações e exportações dos Estados Unidos se reduziu em mais de US$ 200 bilhões no ano passado. Nos primeiro nove meses de 2016, o comércio caiu mais de U$470 bilhões. É a primeira vez desde a Segunda Mundial que o comércio com outras nações diminui durante um período de crescimento econômico (grifo nosso).

Quando o comércio mundial crescia a uma taxa de duas vezes o PIB mundial, o lucro crescente dos oligopólios também foi igualmente apropriado por milhares de empresas, não monopolistas, em geral de médio porte dentro dos países imperialistas. Isso porque, apesar da globalização, a economia nacional segue existindo, a cadeia de empresas que produzem para o mercado doméstico não desapareceu. A existência destes dois pólos expressa uma das contradições mais importante do capitalismo, junto com a produção social e a apropriação privada. A contradição entre a produção mundial e as fronteiras nacionais também explodem em tempos de crise.

Os clichês sobre a globalização não dizem nada sobre as milhares de empresas que estão atadas ao mercado mundial como fornecedoras dos grandes oligopólios. Integradas à rede de produção doméstica, estas empresas participam indiretamente das exportações e ocupam uma grande parcela da força de trabalho. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 25% dos insumos adquiridos pelos oligopólios no interior dos EUA têm origem nestas empresas que ocupam 50% da força de trabalho, totalizando compras superiores a US$3 bilhões em 2013.

Ainda que estes fornecedores domésticos não entrem nas estatísticas do comércio mundial, que leva somente em conta as exportações diretas das empresas, até 2007, a participação das Pequenas e Médias Empresas (PME) nas exportações norte-americanas aumentou de aproximadamente 28% para 41% no chamado “valor agregado das exportações” segundo informa a OCDE. Os Estados Unidos ocupam o segundo lugar entre os países exportadores sendo responsável por 8,4% das exportações mundiais. O lucro destas empresas acompanhava o crescimento das exportações dos países imperialistas. O discurso de Trump dirigido a este setor e acusando o livre comércio está no lado oposto da realidade da prosperidade anterior. Os seus lucros são o resultado do aumento das exportações pela queda das tarifas.

Isso é o que explica o fato de que, mesmo com o deslocamento das empresas que buscaram mão de obra mais barata no México e na China, para re-exportar produtos acabados ou componentes aos EUA, o desemprego neste país, em junho de 2016, seja de 4,9% [3]. O lucro das empresas, assim como o emprego nos países imperialistas, além do aumento da exploração da classe trabalhadora mundial, tem na livre circulação de mercadorias um de seus pilares, mas produz efeitos distintos entre os países imperialistas e entre estes e as semicolônias.

Não nos parece que seja possível colocar um sinal de igual entre os efeitos da livre circulação de capitais na Europa e suas consequências na França ante a potência industrial alemã, como se este fosse o mesmo fenômeno que ocorre nos Estados Unidos. No segundo caso, a retração do comércio e não o livre comércio é o que provoca tensão e polariza a relação entre as distintas frações burguesas.

O discurso de Trump sobre a relação entre livre comércio e empregos nos Estados Unidos pode corresponder à sua percepção do mundo, ou e mais provável, pode corresponder somente aos bodes expiatórios da ultradireita. No entanto, não se pode cair na tentação de derivar conclusões políticas da análise da economia capitalista, ainda mais no curso dos acontecimentos, pois não se pode descartar que o nosso personagem também pode ser “vítima de sua própria concepção do mundo, o bufão sério que não mais toma a história universal por uma comédia e sim a sua própria comédia pela história universal” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luis Bonaparte).

Em qualquer caso, se atacar a livre circulação de mercadorias aprofundará a crise dos setores que o apoiaram. Porém, se o comércio mundial seguir retrocedendo, não somente no volume, mas nos preços dos produtos, a tendência é que as grandes empresas repassem o problema para os seus fornecedores e estes para os seus trabalhadores. Assim, mantém-se a tendência ao arrocho dos salários e ao aumento do desemprego e/ou empregos mal remunerados nos países imperialistas caso não haja uma recuperação da economia mundial. Junto com isso, a tendência à polarização entre as classes e frações de classes aumentará. Faz-se necessário entender os mecanismos sob o qual as ideologias navegam.

II
No período de crescimento econômico mundial, os efeitos do livre comércio nos países imperialistas não foi o desemprego em massa, mas os salários arrochados e empregos de má qualidade no setor de serviços. Esse fenômeno se aprofunda com a grande recessão. A expectativa de que Obama revertesse essa tendência não foi atendida, e o sacrifício dos trabalhadores não resultou em novo período de crescimento econômico. Pelo contrário, o padrão de vida da classe trabalhadora seguiu uma espiral descendente.

Há quatro anos, o semanário e porta-voz do capital financeiro britânico The Economist se referia à receita da recuperação norte-americana depois da grande recessão: “Depois de três anos de estancamento do crédito, um banco popular em Coldwater, Ohio, notou uma mudança. Os clientes que há dois anos não foram qualificados para um empréstimo, agora sim podem. Um cliente que estava trabalhando somente 35 horas por semana, há dois anos, agora está trabalhando de 45 a 50 horas”.

O que aconteceu com este cidadão que trabalha 50 horas semanais, teve seu salário arrochado e, provavelmente, tenha perdido sua casa durante a bolha imobiliária que encheu as contas bancárias de Trump? Uma coisa é certa: a recuperação econômica nos Estados Unidos e os dois mandatos de Obama não lhe fez trabalhar menos, nem recuperar sua renda.

Segundo um interessante estudo do McKinsey Global Institute, de julho de 2016, sobre a queda de renda (de salários, para ser mais exato) das famílias em 25 países industrializados, intitulado Mais pobres do que seus pais, a renda de dois terços das famílias na Europa ocidental e Estados Unidos, entre 2005 e 2014, caíram ou ficaram estagnadas. Se isso foi a média dos países industrializados, nos Estados Unidos a queda da renda atinge 97% das famílias, e na Itália, 81%. Comparado com o período do auge do livre comércio, entre 1993 e 2005, somente 2% das famílias declaravam que sua renda tinha caído ou estagnado.

Depois de sete anos que nos separam da grande recessão, os trabalhadores dos países industrializados e, mais ainda, nos Estados Unidos, não conseguem se aproximar do nível de vida que tinham antes da crise. As novas gerações já começam a trabalhar sob o novo padrão de exploração. Mas não podemos entender esse fenômeno com o festival de besteiras que assola a imprensa quando analisa a globalização, e sim como parte da resposta do capital para sua crise.

O arrocho nos salários é proporcional ao processo de centralização do capital depois da crise. A proporção do PIB controlado pelas 100 maiores empresas americanas, que equivalia a 33% em 1994, chegou a 46% em 2013. Os cinco maiores bancos do país concentram, hoje, 45% de todos os ativos bancários, ante 25% em 2000. Assim, o aumento da desigualdade é proporcional à centralização da propriedade, e menos que os excessos da globalização como apregoam a esquerda keynesiana e os críticos. Essa é a essência da dominação capitalista.

Ainda neste quadro, é um exagero afirmar que a maioria da classe operária norte-americana apoiou Trump e sua ideologia racista e xenófoba. Primeiro, porque somente 50% dos eleitores foram às urnas, ou seja, Trump é eleito com 25% dos votos dos eleitores. Segundo, porque Trump, ainda assim, teve menos votos que Hillary. Terceiro, no tão propalado cinturão do ferrugem, região do meio-oeste norte-americano mais tocada pelo deslocamenteo de empresas automobilísticas, Trump perdeu não somente em Detroit, mas também em Flynt, mundialmente conhecida pelo documentário Roger e Eu, de Michael Moore.

Trump ganhou nas áreas rurais e nos setores de classe média branca que o apoiaram em proporção superior às urnas. Trump ganhou nos estados democratas onde Hillary perdeu para Bernie Sanders, ou seja, na outra ponta a desconfiança com a candidata democrata depois das ilusões despertadas por Obama parece que também foi um fator importante. Um fenômeno politicamente similar à crise da socialdemocracia europeia reduzida a escombros na Grécia, dívida na França, debandada de eleitores na Espanha e governando com Merkel na Alemanha.

Isso, sob nenhuma hipótese, implica em subestimar a importância de que o racismo e a xenofobia tenha se convertido na ideologia oficial da Casa Branca, que governa o imperialismo mais poderoso do planeta capaz das atrocidades mais bárbaras.

III
É indiscutível que Trump não era o candidato preferido da maioria do capital financeiro norte-americano e mundial. A alta nas bolsas, particularmente dos setores vinculados à produção de energia fóssil (petróleo, carvão, fracking), diante de sua promessa de anular os acordos internacionais que limitam a emissão de carbono e congelando a transição para os novos investimentos da matriz energética, tem a contrapartida na diminuição dos valores das empresas produtoras de energia limpa na bolsa, patrocinados pela nova oligarquia do capital financeiro do Vale do Silício, onde ficam as empresas de alta tecnologia.

Joel Kotkin, autor do livro O novo conflito de Classes, em entrevista concedida ao jornal La Vanguardia, diz: “no sentido de sua capacidade para dominar o debate sobre a política empresarial, acredito que é um revés para Silicon Valley. A região tem a missão de eliminar a concorrência dos setores como o do petróleo e outras indústrias tradicionais. Existe um enfrentamento entre os oligarcas do Silicon Valley e os interesses dos plutocratas mais estabelecidos no setor petroleiro. (…) Os oligarcas do Silicon Valley são todos favoráveis a uma rápida transição para a energia renovável. (…) as energias fósseis têm um preço mais elevado devido as medidas contra cambio climático”.

Se a magnitude deste conflito implicará em diminuição dos lucros do setor mais dinâmico da acumulação capitalista nos Estados Unidos, cuja capitalização de mercado em 2014, somente das três maiores empresas do Vale do Silício, chegava a mais de US$ 1 trilhão com somente 137 mil trabalhadores diretos nos Estados Unidos. Não se pode medir com precisão, ainda que não seja uma hipótese descartável se a crise mundial se aprofunde.

A débil recuperação e a demora em recuperar uma taxa de lucro podem aumentar a disputa pela proporção em que a mais valia é dividida entre os capitais. No entanto, os interesses do capital financeiro mais concentrado do mundo não estão depositados exclusivamente nas velhas indústrias. Esperar e ver.

Em outro sentido, o clube dos países imperialistas, a OCDE, saiu a público em apoio entusiasta à política de estímulo fiscal (corte nos impostos) e ao plano de investimento em infraestrutura. Segundo a edição do El País de 28/11/2016: “A OCDE apoiou o plano de investimentos e cortes de impostos de Donald Trump, afirmando que elevará o crescimento em 0,4 ponto em 2017 e 0,8 ponto em 2018. Segundo o organismo, o estímulo fiscal poderia corrigir a forte queda no investimento dos anos anteriores, melhorar a formação e a recolocação dos desempregados, destinar-se ao cuidado de crianças e facilitar a transição rumo a uma economia mais ambientalmente sustentável. A reforma fiscal poderia inclusive reforçar a eficiência, baixando os juros médios, mas tampando buracos pelos quais se perde arrecadação”.

A organização reclama da Alemanha que faça o mesmo ante o aprofundamento da crise social na Europa e várias eleições à vista. Porém, em qualquer caso, a “América grande outra vez” tem menos possibilidade de preparar um giro isolacionista, sem aprofundar a crise entre os distintos setores do capital imperialista. Ainda que de passagem, vale a pena lembrar o que disse Hillary Clinton sobre os tratados de livre comércio segundo os correios eletrônicos filtrados pelo Wikileaks. Em reunião com o Goldman Sachs, teria afirmado que “é necessário um posição pública e outra a porta fechada”. Talvez Trump tenha sido mais cuidadoso com o correio eletrônico.

Até agora, estamos diante de um fato político de grande transcendência. O grau da crise impôs ao ocupante da Casa Branca que deixe de lado a ideologia dos direitos humanos e a substitua pelo racismo, pela xenofobia e por um machismo descarado. Este fato, em si mesmo, prepara uma ofensiva contra os trabalhadores e os povos do planeta, e mais profundo aos setores mais oprimidos. No fim das contas, trata-se de restaurar “o status da classe média branca, codinome América”, com as migalhas que sobram da mesa do capital financeiro, produto da espoliação imperialista.

Sendo, contudo, o aumento da exploração a condição necessária para a recuperação dos lucros dos grandes monopólios, ela não será suficiente sem abrir um novo ciclo de investimentos. Por enquanto, a superprodução na China e nos próprios Estados Unidos continua sendo um obstáculo que não foi superado. A contrapartida dessa situação tende a ser o aumento do saque e da espoliação imperialista.

NOTAS:
1. ALEGRIA, F.; AYALA, R. Unión Europea: una máquina de guerra contra los trabajadores y los pueblos. Espanha, Corriente Roja, 2014.
2. WAHL, P. A insurreição alemã contra o livre comércio. In: Le Monde Diplomatique Brasil, novembro de 2016.
3. Sobre o efeito do deslocamento das empresas sobre o nível de empregos nos Estados Unidos, existem vários estudos de organizações do próprio imperialismo sobre o tema, sendo muito difícil precisar em que nível se trata de pura propaganda ou em que medida reflete a realidade. Segundo o MacKinsen, entre 2000 e 2010, a indústria de manufaturas perdeu 5,8 milhões de empregos neste país, mas dois terços dos empregos destruídos se devem ao investimento em tecnologias que poupam mão de obra e não o deslocamento (MacKinsen Global Institute. Manufacturing the Future: the next era of global growth and innovation. Novembro, 2013, p. 8). Sobre a relação entre deslocamento e perda de empregos, a OCDE caminha no mesmo sentido: a globalização parece afetar mais a composição do mercado de trabalho do que o nível de emprego agregado [o que seria comprovado pelas taxas de desemprego nos Estados Unidos] deslocando o emprego para outros setores. (Interconnected Economies: Benefiting from Global Value Chains. OCDE 2013, p. 34).

 

Por Ricardo Ayala