Tons e bossas universais

Tom Jobim, que faria 80 anos em 25 de janeiro, é geralmente celebrado como exemplo da criatividade e do orgulho nacional. Mais importante que isso é ver em sua obra uma demonstração do caráter universal da arte e da cultura.

Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu em 25 de janeiro de 1927, numa família carioca de classe média. Cercado desde a infância por um ambiente musical, começou a tocar piano aos 14 anos, quando também teve aulas com o alemão Hans Koellreytter, um dos pais da chamada música “dodecafônica” (composta de 12 sons, diferentes e independentes entre si), que teria enorme influência em seus arranjos e composições posteriores.

Já como indicação do caráter universal e atemporal de sua música, no mesmo período, Tom mergulhou no universo dos grandes nomes da música clássica, como Beethoven, Chopin, e de modernistas como Stravinsky e Heitor Villa-Lobos.

Nos anos 50, Tom começou a tocar nas boates cariocas, o que chamou a atenção da gravadora Continental, que o contratou como arranjador, em 1952. Foi assim, circulando entre a boêmia e as partituras, entre as sonoridades da noite e arranjos sofisticados, que Tom Jobim compôs seus primeiros sucessos, como “Tereza da praia” e “Sinfonia do Rio de Janeiro” (em parceria com Billy Blanco).

Sua projeção internacional teve início com a trilha sonora composta para a peça “Orfeu da Conceição”, escrita com Vinícius de Moraes, em 1956. Transposta para o cinema pelo diretor francês Marcel Camus (com o título “Orfeu Negro”, premiado, em 1959, no Festival de Cannes), a peça trazia a música “Se todos fossem iguais a você”.

De lá, até sua morte, em 8 de dezembro de 1994, Tom Jobim influenciou gerações de artistas mundo afora, demonstrando que, mesmo cantando as belezas brasileiras, suas músicas são de uma universalidade inquestionável.

Isso é bossa-nova,isso é muito natural
Considerado um dos pais da “bossa nova”, Tom Jobim respondeu aos que criticavam seu estilo com “Desafinado”, composta em 1958 com Newton Mendonça. Aquilo que muitos chamavam de “comportamento anti-musical” era, na verdade, um estilo que não só levou a música brasileira para todos os cantos do mundo, como também revelou-se, em terras brasileiras, como um dos melhores exemplos de que o único caminho para a “boa arte” é a derrubada de fronteiras. Sejam as criadas pelas nacionalidades, pelo tempo ou pelos estilos.

Em termos sociais, é preciso lembrar que a obra de Tom e seus parceiros, como toda manifestação artística e cultural, esteve sempre muito enraizada no mundo em que ele vivia. Como lembra Ruy Castro, no livro “Chega de Saudade”, a bossa nova ofereceu uma espécie de “espelho aos jovens narcisos da Zona Sul do Rio de Janeiro”. Uma juventude classe-média, embebida pelas belezas cariocas e pelo discurso desenvolvimentista dos anos JK.

Já esteticamente, a bossa-nova surgiu como resposta desta juventude aos melodramáticos boleros que inundavam a Rádio Nacional e seus ouvintes com a mais profunda “dor-de-cotovelo”. Foi procurando uma voz própria e mais sintonizada com os ventos modernizantes que chegavam ao Brasil, que Tom Jobim, João Gilberto investiram em músicas construídas com harmonias mais sofisticadas (cheias de dissonâncias) e, ao mesmo tempo, dotadas de uma extrema simplicidade, traduzida no estilo “voz, banquinho e violão”.

“Hibridismo” como forma de criação
Já foram muitos os intelectuais e artistas brasileiros que apontaram a “mistura” ou o “hibridismo” como característica fundamental para qualquer projeto artístico que queira de fato representar a cultura brasileira.

Foi esta idéia que estava na raiz da “Manifesto Antropófago”, escrito por Oswald de Andrade em 1928. Segundo ele, a única forma de constituirmos uma expressão artística ao mesmo tempo brasileira e universal seria através da “canibalização” das influências estrangeiras que nos pressionavam e sua mescla com nossas múltiplas origens culturais (negra, indígena e européia).

A obra de Tom talvez seja a melhor expressão musical desse projeto. As influências são as mais diversas. Tendo como referência fundamental o samba (principalmente Noel Rosa, Pixinguinha, Ari Barroso e Dorival Caymmi), suas composições mesclavam elementos do “cool jazz” norte-americano, do bolero “suingado” do mexicano Lucho Gatica, dos arranjos multicoloridos do piano de Chopin e das inovações harmônicas de Stravinsky, dentre outras influências.

Renovação permanente
Além de ganhar versões em várias línguas e estilos, a música de Tom Jobim rapidamente atraiu a atenção de importantes jazzistas norte-americanos, como o saxofonista Stan Getz, o guitarrista Charlie Byrd (gravaram juntos o disco “Jazz Samba”) e cantores e músicos como Quincy Jones e Dizzy Gillespie, que viram em sua musicalidade uma possibilidade de renovação de seus próprios estilos. Um resultado questionável deste processo foi sua parceria com Frank Sinatra.

Em terras brasileiras, a genialidade de Tom Jobim foi determinante para carreiras de gente que até hoje influencia o cenário musical brasileiro. Chico Buarque, por exemplo, fez sua primeira parceria com “o maestro” na maravilhosa “Retrato em branco e preto”, de 1967. Mesmo ano em que a dupla ganhou o III Festival Internacional da Canção (FIC), com “Sabiá”.

A tensa relação entre artistas e militares levou Tom Jobim e sua música para as telas de cinema. Depois de participar do boicote ao IV FIC (realizado pela TV Globo, sob o patrocínio do governo) – juntamente com Vinícius, Chico, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Rui Guerra, Capinam, Baden Powell, Milton Nascimento e Egberto Gismonti –, Jobim foi detido em 1970, o que o levou a concentrar sua produção em trilhas sonoras para o cinema.

A bossa continua
Em meio a tudo isso, Tom Jobim participou de inesquecíveis apresentações e discos com Elis Regina (com destaque para “Águas de Março”), Miúcha, Edu Lobo e praticamente todos os demais nomes da música brasileira.

Por isso mesmo, listar as composições de Tom Jobim que atravessaram as últimas décadas e até hoje fazem parte do imaginário popular é impossível. Músicas como “Lígia”, “Luiza”, “Anos dourados” ou “Passarim” são apenas alguns exemplos de canções que, para muito além de suas letras encharcadas de romantismo e de uma visão um tanto adocicada das relações sociais e humanas, são expressões geniais de um compositor que soube, como poucos, captar as sonoridades brasileiras e mesclá-las com o que de melhor se produzia lá fora.

O resultado disso é que as influências de Tom no cenário da música mundial são perceptíveis até hoje não só nas gravações que circulam pelo mundo nas vozes ou instrumentos de “monstros sagrados” do jazz, como Ella Fitzgerald, Miles Davis, Sarah Vaughan e Bill Evans, como também na constante releitura que jovens músicos fazem de sua obra.
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