Tomas Zayas: “Nós, latino-americanos, temos de defender nossa independência e autodeterminação“

``ArquivoTomas Zayas, um dos principais líderes camponeses do Paraguai, militante histórico da luta contra a ditadura de Stroessner, é o candidato à Presidência pela coligação entre o Partido dos Trabalhadores do Paraguai, o Partido Pátria Livre e mais de 20 organizações camponesas e sindicais. Nesta entrevista ao Opinião Socialista, ele fala sobre a situação do país e da América Latina, as perspectivas diante da Alca e a mobilização dos trabalhadores.

Opinião Socialista – Na América Latina vemos hoje o aprofundamento da crise e um ascenso das mobilizações de massas. Como você caracteriza isso?
Tomas Zayas –
O aprofundamento da crise da América Latina é conseqüência e resultado da crise do modelo capitalista neoliberal e, ultimamente, não apenas os países subdesenvolvidos estão nesta situação, mas também os EUA. Sabemos perfeitamente que os próprios países imperialistas estão em crise com seu modelo econômico. Por outro lado, o ascenso do movimento é uma resposta que estão dando os trabalhadores da cidade e do campo à ofensiva neoliberal, à falta de trabalho, ao problemas da saúde e da educação.

OS – Qual a relação dessa situação com a chegada de governos de frente popular ao poder?
Tomas – Acredito que a conjuntura permitiu que esse tipo de governo ganhasse a simpatia e a esperança dos explorados da América Latina. Não que estes governos irão solucionar os problemas dos trabalhadores, mas é parte da resposta que estão dando os pobres, os explorados. E é um pouco a demonstração de que eles não têm mais nenhuma confiança nos latifundiários e nos grandes capitalistas. Consideramos que é progressivo, independentemente do fato de que Lula ou Chávez ou outro governo frentepopulista não vai resolver as questões dos trabalhadores. Espero que eles compreendam que ter esperanças em suas próprias forças é a única garantia para a solução de seus problemas.

OS – Na sua opinião, quais as perspectivas para a América Latina e para o Paraguai com a ameaça da Alca?
Tomas – Existe uma situação gravíssima, porque a Alca é um projeto recolonizador por parte dos EUA, de dominação total, econômica, política e militar do continente. Sabemos que este grande mercado representa 800 milhões de consumidores e os EUA estão muito preocupados em assegurá-lo. Por outro lado, tem a questão agrícola, que afeta todos os países desta área, visto que os EUA estão decididos a subsidiar sua agricultura em 65% até o ano 2020 e proibir outros governos de subsidiar a produção agrícola. Obviamente, consideramos que a Alca trará mais desemprego, mais fome, mais miséria. E não estamos imaginando, mas levando em conta a experiência da Nafta. A situação atual do México é a evidência de que este projeto não é solução para os povos.

OS – Dentro deste contexto, qual a situação do Paraguai?
Tomas –Os partidos tradicionais estão muito desprestigiados, a corrupção afeta amplos setores, começando pelo presidente da República, os parlamentares, o Poder Judiciário. Entre os trabalhadores, há uma pobreza cada vez mais forte. No campo, existe uma miséria crescente e o abandono em massa da terra. Neste marco, se dá uma certa consolidação das organizações camponesas e dos movimentos juvenis que vêm impulsionando a luta. Isso permitiu que os trabalhadores, nos últimos tempos, optassem por uma alternativa política ante os candidatos da direita.

OS – Quais forças políticas atuam hoje no Paraguai?
Tomas – De um lado, estão os sujeitos do imperialismo, os colorados e os liberais, que são grandes partidos onde estão metidas as oligarquias, os latifundiários, enfim, os capitalistas em geral. Apresentam-se algumas novas figuras, como Pedro Fadul (Movimento Pátria Querida), ligado à igreja católica e que considero seja um a mais dentro da direita. E, pela primeira vez na história de nosso país, se dá a possibilidade de unir partidos de esquerda com os movimentos sociais. Assim, podemos dizer que, por um lado, está a direita, tratando de manter seu espaço, poder e privilégios; e, por outro, os partidos de esquerda junto com as organizações camponesas, sindicais e outras.

OS – Em que condições se conformou a aliança PT-PPL?
Tomas – Acredito que vale a pena destacar não somente o Partido dos Trabalhadores e o Partido Pátria Livre, mas também a presença dos indígenas no seu Movimento Político 19 de Abril, das 23 organizações camponesas, do MIL – Movimento pela Igualdade e pela Liberdade. A unidade entre essas organizações políticas e sindicais se deu pelo programa, onde se colocam a luta contra a Alca, a rup-tura com o FMI, o não pagamento da dívida externa e uma reforma agrária radical. São os quatro pontos progra-máticos em que coincidem todos e que permitiram ocupar um espaço importante e gerar um debate em todos os setores fundamentais do campo e da cidade.

OS – Estamos diante da tentativa da guerra contra o Iraque. Como você avalia essa situação?
Tomas – Em primeiro lugar, acredito que esta tentativa de ataque demonstra o enfraquecimento e perda de influência que sofre o imperialismo, porque já não é como antes que, quando o presidente norte-americano dizia que iria atacar um país, todo mundo se colocava à disposição. Há muita resistência. Creio que o triunfo do povo iraquiano representaria um pouco o triunfo de um povo anti-imperialista. Diante desta situação, temos que chamar todo o povo latino-americano a unir forças e estabelecer mobilizações repudiando a tentativa do imperialismo de atacar o Iraque. Também acredito que o povo palestino está demonstrando que se pode lutar contra os opressores, contra o imperialismo e pela independência. Temos que aprender, nós latino-americanos, a lutar na mesma medida para, verdadeiramente, defender a nossa independência e autodeterminação.

Os principais pontos do programa de Tomas Zayas

  • Contra a Área de Livre Comérico das Américas
  • Ruptura com o FMI
  • Não Pagamento da Dívida Externa
  • Reforma Agrária Radical
    Post author Lupus, do Paraguai,
    e Luciana Cândido, de Porto Alegre
    Publication Date