Terra Fria: uma história real de luta contra o assédio à mulher

Em plena semana do 8 de março,entra em cartaz nos cinemas brasileiros um filme que denuncia a opressão e exploração da mulher trabalhadoraBaseado em uma história real, o filme Terra Fria narra o drama de Josey Aimes, uma mulher que tem a ousadia de abandonar o marido que a espancava para procurar um emprego e sustentar sozinha seus dois filhos. Para conseguir chefiar essa família, ela resolve trabalhar numa mineradora de ferro no interior do estado de Minnesota, nos EUA.

As provocações e xingamentos da maioria masculina da mina contra as poucas mulheres que trabalham no local tornam-se insuportáveis. Os abusos cometidos pelos colegas vão desde os comentários maliciosos e “brincadeiras sexuais” rabiscadas nas paredes e ditas nos intervalos de almoço até as investidas sexuais de seus superiores.
As reclamações de Josey não têm eco e a única resposta que ela recebe é que peça demissão caso não esteja gostando do trabalho. Josey decide então entrar com uma ação judicial contra a empresa. Foi a primeira ação coletiva por assédio sexual dos Estados Unidos, um marco histórico que influenciou outros processos judiciais e lutas feministas no país e no mundo.

O filme é baseado no livro de Clara Bingham e Laura Leedy Gansler, Ação de classe: a história de Lois Jensen e o caso que mudou a Lei do Assédio Sexual. O livro conta a história de Lois Jensen, que decidiu processar a mineradora Eveleth Taconite. Depois do esforço para convencer outras mulheres que trabalhavam na empresa a aderirem à ação coletiva, em 1998, uma década depois do ocorrido, a empresa teve que pagar às trabalhadoras uma indenização de US$ 3,5 milhões.

Muitas mulheres em uma personagem
Há algumas críticas pelo fato de que o filme funde mais de uma pessoa real na mesma personagem. Entretanto, longe de ser um descrédito, a junção que representa a personagem Josey é um dos principais méritos do filme, por proporcionar uma denúncia conjunta das diversas faces da opressão e exploração da mulher num mesmo quadro.

Para além de um retrato fiel da realidade, Josey é uma denúncia da situação da mulher trabalhadora em seus diversos aspectos. Além da denúncia central do assédio sexual, o filme mostra a mulher que sofre com o preconceito dos vizinhos, família e amigos por ser mãe solteira e separada do marido. Conta, também, a história da adolescente que engravida após ser estuprada pelo professor e aponta, ainda, o machismo presente no próprio tribunal de justiça e no juiz que julga o caso. Por fim, desnuda a desgastante dupla jornada da mulher trabalhadora.

No filme, a opressão, a exploração e a violência contra a mulher estão no local de trabalho, nas ruas, nos bares, nas escolas e dentro de suas próprias casas. Josey encara a incompreensão do filho, que ouve nas ruas e na escola os comentários preconceituosos sobre a mãe. Ela enfrenta o próprio pai, que já não aceitara sua gravidez precoce anos antes e agora se sente ofendido pela filha aceitar um emprego onde ele próprio trabalha. Enfrenta o silêncio da mãe, a violência do marido, o medo das próprias trabalhadoras de perder o emprego caso resolvam aderir à ação.

As ridículas justificativas criadas para encobrir o machismo trazem à memória de quem assiste uma sensação de déjà vu. Para o assédio sexual ou mesmo para o estupro, apresenta-se o argumento da insinuação feminina, ou mesmo seu suposto histórico de comportamento promíscuo. Para a hostilidade pela presença de mulheres trabalhando em uma mina, a resposta de que aquele não é o lugar delas, de que estão roubando o posto de alguém.

Tal ideologia é disseminada e incorporada pelos próprios trabalhadores, num mecanismo claro do Capital para dividir a classe trabalhadora. O próprio sindicato que representa os funcionários da mina no filme cumpre um papel conciliador, defendendo a empresa e se omitindo da batalha travada pelas mulheres do local, apoiando-se para isso no mesmo argumento divisionista.

Um ousado clichê
Apesar de seu importante conteúdo de denúncia, na forma o filme é feito sob medida para o Oscar e os padrões enlatados hollywoodianos. É previsível, até porque geralmente as histórias baseadas em fatos reais o são, por contarem histórias já conhecidas. Exagera no dramalhão, nos clichês, na trilha sonora maçante e em algumas câmeras lentas desnecessárias.

Todavia, não deixa de ser um belo filme. E é belo denunciando as muitas faces da exploração e da opressão da mulher trabalhadora em plena semana do 8 de Março nas principais salas de cinema do país e do mundo e na própria cerimônia do Oscar, indicado aos prêmios de melhor atriz (Charlize Theron) e melhor atriz coadjuvante (Frances McDormand).

Apesar de concentrar as denúncias em uma mesma personagem, a solução final não é individual ou messiânica, até porque se pauta numa história real. Nas batalhas concretas que vivem os trabalhadores, não há heróis, mas direções. E, ainda que utilize uma cena das mais clichês para fazer isso, o filme aponta que as conquistas, mesmo as judiciais (mas não só elas), só podem ser alcançadas quando a ação é coletiva.
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