Telê Santana e o espetáculo do futebol

Morreu nesta sexta-feira, dia 21 de abril, o genial Telê Santana. Muito antes de os treinadores serem chamados de “professor” , como costumeiramente se vê hoje, Telê já era considerado um mestre (e não um professor), por estrelas como Dadá Maravilha, Zico, Falcão, Sócrates, Raí, Careca, Cerezo, Júnior, Serginho Chulapa, Zetti, Cafu e muitas outras que fizeram parte da imensa constelação que Telê comandou.

Telê começou como jogador em pequenos clubes mineiros, na década de 1940. Mas foi nos anos 50, como ponta direita do Fluminense, que se destacou. Por sua garra dentro de campo, e por definir resultados de partidas nos minutos finais do jogo, ele foi apelidado pela torcida como “fio de esperança”. Chegou a ser convocado para a seleção brasileira, mas não chegou a participar de nenhuma partida. Ele mesmo admitia que seria muito difícil garantir um lugar na seleção, uma vez que na sua posição se encontrava nada mais nada menos do que o gênio Mané Garrincha, seu adversário pelo Botafogo.

Depois de encerrar a carreira como jogador, em 1963, Telê inicia sua carreira como treinador, inaugurando uma longa história de vitórias, amargas frustrações e, sobretudo, de alguém que convertia todo tipo de tática num espetáculo.

Seu primeiro título importante como treinador veio com o Atlético Mineiro, campeão brasileiro em 1971. Depois vai para o Grêmio, conquistando o título gaúcho de 77, e no Palmeiras, onde embora não conquistado nenhum campeonato ganhou projeção como um técnico que privilegia um futebol arte vistoso.

Telê foi um treinador que não apelava para a brutalidade para ganhar uma partida. Costuma dizer que “se for apelar para a força, ponho estivadores em campo”. Do mesmo modo, Telê era um técnico que se encontrava na contra-corrente do futebol técnico, mecânico, defensivo, posteriormente apelidado como “futebol de resultado”, das escolas européias, muito em voga no final dos anos 70 e início dos 80.

Disciplinador e perfecionista, Telê primava pela ofensiva tática, pela qualidade técnica, mantendo uma obsessão nos fundamentos básicos do futebol. Não admitia que um craque, por mais artilheiro que fosse, não soubesse cabecear, cobrar uma falta com perfeição e realizar o passe perfeito. Para ele o jogador deveria ser completo, desempenhando magistralmente todas as funções. Nisso, talvez, Telê tenha sido um inovador, antecipado o que viria ser o jogador moderno de futebol. Mas Telê sabia, porém, que um elenco não se resume ao talento individual, por mais que ele seja importante no futebol. Sabia que um esporte coletivo exigia a perfeita combinação da genialidade do boleiro, seu domínio dos fundamentos, com a mais perfeita sintonia dentro da equipe. Telê fez jogadores como Pintado e Ronaldão, no São Paulo, render o que nunca tinham rendido com qualquer outro técnico. Junior Baiano, conhecido pela força e truculência, jogava sob seu comando no São Paulo como um magistral guardião do campo de defesa.

Mas Telê também compreendia a necessidade do futebol como um espetáculo. Como lembrou Juca Kfouri em um artigo na Folha de S. Paulo, “Telê um dia revelou que gostaria de ver os jogos dos times que dirigia das arquibancadas, ao lado da torcida. Porque, assim, poderia avaliar se os atletas estavam executando o que treinaram e se agradavam aos que pagaram ingresso para vê-los”.

Seguindo o curso natural de uma carreira vitoriosa, Telê tornou-se o líder do famoso esquadrão de 1982, que encantou o mundo com seu futebol arte. Na época, o meio de campo com Zico, Sócrates e Falcão foi o ponto forte da seleção.

Mas na fatídica tarde de 5 de julho, a seleção canarinho foi batida por um inspirado carrasco chamado Paolo Rossi. Apresentando um futebol considerado feio e tendo dificuldades para se classificar nas etapas anteriores, a seleção da Itália surpreendeu o mundo vencendo por 3 x 2 a equipe que já estava sendo considerada a próxima a erguer a taça da Copa do Mundo.

Jornalistas de então diziam que a vitória da seleção brasileira naquela Copa seria um favor ao futebol mundial, dominado pela suposta racionalidade retranqueira européia. Seria o momento, de acordo com eles, de reerguer a glória do futebol arte e ofensivo. Até hoje muitos dizem que aquela partida definiu os rumos do futebol mundial. Difícil de saber. Contudo, é certo que aquela tarde figurou como um dos capítulos mais dramáticos da história do futebol brasileiro, superado apenas pela derrota do Brasil frente ao Uruguai na Copa de 50 perante um Maracanã abarrotado.

Em 1986, Telê voltou a dirigir a seleção, mas enfrentou muitas dificuldades. Os craques que formavam o meio de campo de 82 já não estavam em sua melhor forma ou se encontravam contundidos. O resultado foi que seleção foi batida nas quartas de finais, nos pênaltis, pela fraca equipe da França.

Depois disso, Telê ficou um tempo afastado dos gramados, mas voltou em 1990 a convite do São Paulo que lhe chamou para dirigir a equipe por dois meses. Ficou cinco anos. Nesse período montou uma equipe, tendo o talentoso irmão de Sócrates, Raí, à frente, que sagrou-se campeão te todos os títulos que disputou. Os mais importantes foram os mundiais de 92 e 93. No primeiro, contra o Barcelona, o show foi comandado pelo capitão Raí, maestro de um impecável meio de campo que realizava uma sucessão de trocas de passe que parafusaram os zagueiros do clube espanhol. O segundo, contra o Milan, partida menos brilhante, mas que contou com decisiva sorte e genialidade de veteranos, considerados então velhos para o futebol, como Muller e Toninho Cerezo.

Em 1995 Telê deixa os gramados depois de uma briga com os dirigentes do São Paulo. Não escondia, entretanto, a sua decepção com a cartolagem e as suas armações. Estava também irritado com os rumos que o futebol vinha tomando. Chegou a dizer irritado que “o futebol não era coisa para gente séria”.

O futebol no Brasil hoje é bem diferente daquele mostrado ao mundo em 1982. Basta mostrar, por exemplo, que a maioria dos jogadores da seleção canarinho jogavam em clubes brasileiros. Os mandos e desmando dos cartolas, combinado com o subalterno papel econômico do Brasil tornaram o país como o “exportador” de craques para os clubes dos países europeus.

Telê será eterno. Ninguém vai esquecer dos espetáculos proporcionados pelas suas equipes. Dizia um jornalista italiano a Telê Santana depois da vitória da Itália: “Muito obrigado, senhor Santana, pelo futebol maravilhoso do Brasil”. O futebol agradece a Telê.