Star Wars: em um mundo não muito distante

Guardas do Império e soldados norte-americanos no Iraque. Filme traz referências do discurso de Bush
Montagem

Final da série dirigida por George Lucas está cheia de referências à atual política imperialistaO tão aguardado final da cultuadíssima série “Guerra nas Estrelas” está em cartaz em 430 cinemas do país – ou seja, em um quarto de todas salas existentes no Brasil. Também intitulado “Episódio 3 – A vingança dos Sith”, o filme de George Lucas tem como elemento central a transformação do personagem Anakin Skywalker no vilão Darth Vader e a ascensão do Império.

Iniciada em 1977, com o filme “Uma nova esperança”, a série (sem contar com o filme atual) já rendeu nada menos do que US$ 3,5 bilhões, apenas nas bilheterias. Outros US$ 9 bilhões foram arrecadados mediante a infinidade de produtos associados à marca. Números que, certamente, cresceriam ainda muito mais se considerássemos tudo o que já foi “pirateado” e a quantidade enorme de outras marcas (de lanchonetes de fast-food a produtores de cereais e refrigerantes) que já se associaram à série e, também, lucraram volumes astronômicos.

Além disso, a série é um marco fundamental das mudanças que ocorreram no cinema nas últimas três décadas. Desde o primeiro filme, George Lucas foi responsável por uma verdadeira revolução no cinema de ficção científica e, principalmente, no campo dos efeitos especiais. Basta lembrar, por exemplo, que seu último filme não tem sequer um cenário real, ou seja, todos os ambientes mostradas foram resultado de computação gráfica e uma parafernália tecnológica de primeira linha.

Uma “revolução” que, diga-se de passagem, também fez de Lucas um dos sujeitos mais ricos do mundo. Hoje, sua empresa de efeitos especiais e cinema fatura a absurda quantia de U$ 1 bilhão por ano.

Para além desses números, contudo, há uma dimensão da saga de Lucas que merece ao menos um comentário: sua relação com o mundo que vivemos e a concepção política que atravessa uma série que aparentemente só diz respeito a uma “galáxia muito, muito distante”.

República versus Império
Para quem não lembra da história, o primeiro filme, agora denominado “Episódio 4”, contava o início da rebelião contra o império, articulada pela princesa Leia, Luke Skywalker (que, nos filmes seguintes, seriam revelados como filhos de Darth Vader) e o aventureiro Hans Solo e seu companheiro peludo Chewbaca.

Essa disputa se estendia pelos filmes que completavam a primeira trilogia – “O Império Contra-Ataca” (1980) e “O Retorno de Jedi” (1983) –, quando a guerra civil galáctica chegava a seu confronto final, com a vitória dos rebeldes sobre o império. Já os filmes lançados desde 1999 – “A ameaça fantasma”, “O ataque dos clones”, de 2002, e o filme atual – voltam no tempo para contar a história do vilão, sua adesão ao “lado sombrio da Força” e o declínio da República.

Mesmo para aqueles que insistem em acreditar em coincidências – coisas raras na vida real ou no cinema – é impossível não pensar na relação das duas trilogias com os momentos políticos em que elas foram concebidas.

Como o próprio Lucas sempre comenta, o roteiro dos três primeiros filmes foi escrito entre 1972 e 1974, ou seja, em plena Guerra do Vietnã e quando, nos Estados Unidos, as manifestações contra a intervenção imperialista cresciam sem parar, levando às ruas milhões de jovens como o próprio George Lucas. Esse período também coincidiu com o escândalo de Watergate e a renúncia do presidente Nixon, um dos mais ferrenhos defensores da ocupação do Vietnã.

Essa situação, certamente, ajudou a moldar a história de rebelião contra a opressão imperial que é contada nos três primeiros filmes. Uma rebelião que, cabe lembrar, tem como objetivo fundamental restaurar uma república democrática.

Já os filmes da última trilogia, particularmente os dois últimos, foram produzidos no “pós-11 de setembro”, em meio à invasão do Afeganistão e do Iraque, e sob o impacto da chamada “Era Bush”.

É evidente que o filme de Lucas não é, de forma alguma, uma crítica aberta a tudo isso. Contudo, também é óbvio que a essa realidade atravessa “A vingança dos Sith” e é uma referência fundamental.

Por exemplo, por diversas vezes, o futuro e maléfico imperador afirma que é preciso que os Sith (os que bandearam para o lado “sombrio” da Força) governem para que a galáxia viva em paz. Ou ainda, que a imposição do império é uma necessidade para garantir “segurança, justiça e liberdade” para todos os povos. Qualquer semelhança com o discurso de Bush e seus aliados (inclusive Lula, no Haiti) não é mera coincidência.

A tudo isso, George Lucas não opõe nenhum discurso “revolucionário” ou algo parecido. Como foi dito, seus “rebeldes” são democratas de carteirinha, mesmo que peguem em armas para garantir o restabelecimento da república.

Essa defesa da democracia e suas instituições é particularmente evidente no último filme. Uma das batalhas fundamentais entre o “Bem”, representado pelo Cavaleiro Jedi verde Yoda, e o “Mal”, incorporado pelo futuro imperador, dá-se em pleno Parlamento galático, ou o Senado, uma espécie de ONU sideral. A destruição do prédio é o anúncio e a metáfora da vitória dos opressores. Para Lucas, a “morte da liberdade”, como afirma a futura mãe de Luke Skywalker, é a morte da mais burguesa das instituições.

Além disso, já foram muitos que notaram que toda a saga de George Lucas tem algo de messiânico e cristão. Desde o primeiro episódio, os “jedis” estão à busca de um “prometido”, que aparentemente é Anakin (que, segundo o filme, diga-se de passagem, foi gerado sem que sua mãe fizesse sexo). O que o desvia do caminho é o amor às coisas terrenas, fundamentalmente o amor por uma mulher.

Independente de tudo isso, é bom lembrar que, para quem gosta de cinema, o “Episódio 3” continua uma diversão e tanto. Os primeiros dez minutos são literalmente de tirar o fôlego, e a mistura alucinada de referências à “cultura pop” e uma boa história, certamente, valem o ingresso.

Post author
Publication Date