Sou o único que propõe ruptura!

Reproduzimos abaixo entrevista de Raimundão cedido à Radio O POVO de Fortaleza no dia 20 de setembro. Bom Proveito.
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Nazareno Albuquerque – Como o senhor no Governo do Estado conduziria as greves e as demandas da classe trabalhadora? Para o senhor, qual o salário mínimo justo e, caso eleito, concederia esse teto ao funcionalismo?
Raimundão – As lutas do trabalhadores devem ser enfrentadas com uma reivindicação de uma categoria que merece, que reivindica ganhar melhor. Claro que essas categorias precisam melhorar seus salários para ter melhor condição de viver. Os trabalhadores de modo geral precisam ter um salário mínimo de acordo com suas necessidades. Mas nós sabemos que não é possível chegar imediatamente ao salário mínimo do Dieese (Departamento Intersindical de Estudos Estatísticos e Sócio-Econômicos). Com o tempo, nós sabemos que é possível chegar, se fizemos transformações profundas na administração dos recursos. Porque recursos, tem. O Estado e o País têm recurso, têm dinheiro, mas esse dinheiro sempre é desviado. Então, com certeza a prioridade da nossa proposta de governo é melhorar gradativamente o salário dos trabalhadores de modo geral. Portanto, sabemos que até mesmo no nosso governo há de ter greves e há de ter dificuldades. Enquanto vivermos no sistema capitalista, vamos enfrentar esse problema. Mas um dia, nosso propósito também é mudar esse sistema e ter condições de que os trabalhadores sejam donos de sua própria produção e vivam muito melhor do que no sistema capitalista.

Roberto Maciel – O PSTU surgiu de uma tendência do PT, a Convergência Socialista. O PSTU tenta ocupar um espaço que foi do PT, que hoje assumiu uma postura mais moderada?
Raimundão – Cada ano que passa, existe uma necessidade da classe trabalhadora de se organizar e lutar cada vez mais contra os sistema que vivemos, porque ele é perverso. E a situação dos trabalhadores tende a piorar a cada dia. Nós sabemos que o Partido dos Trabalhadores foi fundado com a proposta de romper com essa situação: o sistema financeiro aumentando cada vez mais os seus lucros e os trabalhadores piorando cada vez mais seu dia-a-dia. E o Partido dos Trabalhadores foi aumentando, crescendo, ganhando prefeituras, administrando esse mesmo capitalismo e hoje ele acredita apenas no Parlamento. E são os parlamentares que definem o que o partido pode e deve fazer. Nós, do PSTU, achamos o seguinte: a base do partido, a classe trabalhadora, é quem tem de ser sujeito da situação e dos problemas que eles temem enfrentar. Mais do que nunca é necessário uma ferramenta de urna que se construa entre os trabalhadores para defender sua própria classe. Portanto, o PSTU hoje defende as mesmas bandeiras que o Partido dos Trabalhadores defendeu quando foi da sua criação. Nós achamos que estamos no caminho certo porque a classe trabalhadora precisa de um partido, de uma ferramenta de urna que venha juntar todos os trabalhadores e lutar contra essa situação que vive o povo brasileiro e da América Latina.

Rodrigo de Almeida -Os outros candidatos de oposição nessas entrevistas do O POVO fizeram uma série de críticas ao atual Governo do Estado, focalizadas sobretudo na concentração de renda no Estado e no hermetismo do Governo. Qual sua crítica principal às últimas gestões que estiveram à frente do Governo do Ceará?
Raimundão – Os candidatos que por aqui passaram, para nós do PSTU, nem um deles é de esquerda. Existe o do Partido dos Trabalhadores, o José Airton Cirilo, mas que na realidade não defende mais as propostas de luta que defendia antes. Os outros candidatos vêm administrando o mesmo sistema que o senhor Tasso Jereissati (ex-governador do Estado). Não existe hoje uma alternativa de esquerda no Estado do Ceará, a não ser as candidaturas do PSTU. A nossa proposta é romper com o sistema que vive hoje o Estado porque esse modelo econômico perverso que foi instalado no Estado do Ceará, conduzido pelo Governo das Mudanças, até hoje não mudou nada no nosso Estado. Até porque não tem como ter mudanças se continuam pagando as dívidas desse Estado e empobrecendo cada vez mais o povo.

Rodrigo – Mas o senhor falou no rompimento do sistema, mas falou apenas na questão da dívida. Que modelo alternativo o senhor apresenta, além dessa questão do não pagamento das dívidas?
Raimundão – Temos de desenvolver uma política em que os trabalhadores comecem a discutir onde queremos chegar. O pensamento do PSTU – e não é apenas do PSTU mas de grande parte da população brasileira – é de que não há possibilidade de continuarmos administrando o capitalismo. Podemos até administrar o Estado ou o País, mas se não internacionalizarmos a luta dos trabalhadores para tomar o poder para a construção do socialismo, com certeza não temos condição de ter vida melhor para os trabalhadores. Por isso temos de romper. Não de uma vez só. Mas achamos que é possível um dia muito próximo, porque essa luta dos trabalhadores se desenvolve em toda a América Latina. A gente quer acabar com esse poderio da burguesia nacional e internacional e construir um outro sistema para a classe trabalhadora, que não tenha explorado, nem explorador.

Osmar de Sá Pontes – A maior preocupação da população tem sido com o desemprego. Como um representante legítimo dos trabalhadores, quais as medidas que o senhor tomaria e de onde viriam os recursos para resolver esse grave problema social?
Raimundão – No Brasil hoje temos mais de 12 milhões de desempregados. No Ceará, são 500 mil desempregados, e em Fortaleza cerca de 16% da população. A situação do desemprego é uma situação que gera violência e miséria para o povo. No entanto, mais de 60% dos recursos que são produzidos no Brasil – no Estado é menor – são destinados a pagar dívidas. O Estado do Ceará é um dos mais pobres da Federação e tem uma dívida de mais de R$ 4 bilhões e já investiu neste ano mais de R$ 500 milhões para pagar juros dessa dívida. Nós achamos que é um crime pegar esses recursos, pagar banqueiros e isentar empresários de impostos do Estado. Na nossa proposta, não vamos pagar esses recursos para os empresários e banqueiros e deixar nosso povo. Nós sabemos que essa proposta somente nós, do PSTU, defendemos porque nós sabemos que, se não houver um rompimento com essa lógica, com esse assalto aos recursos do Estado, não temos condição de melhorar a saúde, a educação, aumentar o emprego e melhorar a condição de vida dos trabalhadores.

Osmar – Só um instante. Vamos supor que você seja eleito governador. Você vai ter de tomar algumas medidas. Quais seriam essas medidas concretas? Porque você é candidato para administrar os problemas da população como um todo.
Raimundão – Eu vou lhe explicar como é que a gente pode gerar emprego. No setor da construção civil, por exemplo. A necessidade hoje é em torno de 400 mil moradias populares no Ceará. Saneamento básico nós sabemos que não existe. A jornada de trabalho no Estado e no Brasil é uma das maiores. Porque no mundo a gente sabe que muitos países desenvolvidos têm hoje uma jornada de trabalho de 36 horas. Seriam medidas de que a gente poderia, com certeza, diminuir e muito o desemprego. Nós achamos que, reduzindo a jornada de trabalho sem diminuir salário, desenvolvendo planos de obras públicas, a gente vai empregar muito mais.

Carlos Ely – O PSTU tem uma campanha muito fortemente voltada contra burguês, o neoliberalismo, a exploração dos empresários. Se você for eleito, vai administrar um Estado com cearenses trabalhadores e empresários, de pequeno, médio e grande porte. Como vai ser a relação do seu governo com o empresariado cearense?
Raimundão – Nós temos visto no Ceará uma situação em que os empresários, principalmente os grandes, têm tido todo tipo de favores e benefícios concedidos pelo seu Tasso Jereissati. Foi o Governo das Mudanças, mas as mudanças para os grandes empresários. Acabou com o direito dos trabalhadores, com as estatais, e os grandes empresários se beneficiaram com isso. Portanto, não haverá no nosso governo empresários que enganam ou não pagam impostos ou são isentos de impostos. A nossa condição de aumentar impostos vai ser sobre as grandes empresas e as grandes fortunas. Porque a isenção desses impostos fez com que o Governo do Estado não tivesse dinheiro para aplicar na Saúde, na Educação, na Moradia. Portanto, no nosso governo os grandes empresários vão ter de pagar impostos, sim, e muito caro.

Erotilde – Há pouco tempo, o senhor falava que romper com o capitalismo no Estado. E eu lhe pergunto, se o Estado-Nação vive do capitalismo, como se daria esse rompimento? Não seria utopia estabelecer o socialismo dentro de um país capitalista?
Raimundão – Sabemos hoje que o capitalismo está instalado no mundo inteiro. Mas exatamente porque o mundo é capitalista é que o povo, não só do Brasil, mas principalmente da América Latina, vive numa miséria quase que total. O Brasil, 11ª economia do mundo, o empobrecimento é crescente e nós sabemos que não é através do capitalismo que nós vamos melhorar. É diante desta situação que temos certeza que o mundo hoje precisa de transformações. Porque para nós o capitalismo globalizado, de mercado, de rapina principalmente nos países de 3º mundo, não tem condição de um dia mostrar alguma esperança para o povo. Ainda mais quando os Estados Unidos e o capitalismo internacional se preparam para colocar a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) nos países de terceiro mundo. A Alca para nós é a escravidão. É escravizar o povo que hoje já está faminto. Então, para nós o capitalismo está falido e o socialismo é mais do que necessário e urgente.

Roberto – Esse rompimento teria de ser feito por meio de uma revolução. Você defenderia uma revolução no Brasil, e ela teria armas?
Raimundão – A revolução que defendemos é a revolução socialista, na qual os trabalhadores não necessariamente precisariam de armas. Eu não defendo as armas. A melhor arma que o povo tem hoje é a sua união. A consciência política dos pobres seria muito mais necessária do que propriamente as armas.

Roberto – Você falou da mobilização popular, que se encontra esvaziada nos últimos anos. Como seria essa mobilização?
Raimundão – As centrais sindicais no Brasil, e aqui na América Latina, se adaptaram a esse sistema de tentar administrar o capitalismo e resolver o problema da classe trabalhadora. Nós somos filiados a uma central, à CUT (Central Única dos Trabalhadores), que não é mais a mesma CUT de alguns anos. E nós fazemos parte dela e continuamos dizendo que não é através de negociações, nem de fazer pacto com esse governo que nós, trabalhadores, teremos condição de resolvermos nossos problemas. É mais do que necessário a mobilização popular.

Rodrigo – Como será um governo seu, quando você tiver de negociar seus projetos com a Assembléia Legislativa? Porque certamente você não terá a maioria dos deputados na Assembléia. Como você faria as negociação?
Raimundão – É possível manter esse rompimento se a gente falar com cada deputado. O nosso governo vai ter uma participação popular muito maior do que com esses que vão estar lá. E o povo vai estar lá. Porque hoje, eu fico pensando que na Argentina o povo não acredita mais no Parlamento. Lá, o povo acredita na sua luta. Aproveitamos esse espaço para pedir votos aos trabalhadores, mas não para colocar a ilusão de que, através do Parlamento, vão resolver os problemas.

Rodrigo – Mas hoje um projeto que o senhor queira, tem de passar pela Assembléia Legislativa, pôr em discussão e em votação. A estrutura de um governo passa necessariamente pelo Parlamento.
Nazareno – Se fosse necessário, o senhor estimularia mobilizações contra a Assembléia?
Raimundão – Com certeza. Casas populares, por exemplo. A população precisa de mais de 400 mil casas, que é o déficit. E nós iremos mobilizar os trabalhadores para ir à Assembléia para dizer o seguinte: ou vota o projeto do governo ou a gente ocupa, ou então agente vai continuar nas ruas, ou a gente vai fechar as avenidas. O povo tem de se mobilizar para defender os seus direitos. Por isso que não temos nenhuma proposta de enganação de dizer “vote em mim que eu vou resolver o problema de vocês“. É mentira. E foi por isso que acreditamos na mobilização.

Erotilde – Isso não levaria a uma luta armada?
Raimundão – A luta armada, eu volto a dizer. O povo não precisa, e nem deve, se armar. Porque não temos armas, não sabemos lutar com armas. A nossa arma tem de ser a nossa força, a nossa voz, a nossa união. Porque hoje o povo pobre que vive morrendo de fome nas favelas, no Interior, ele já tem tido uma afronta muito grande, e essa afronta o povo tem de rechaçar. O povo tem de se revoltar contra isso. Essa revolta não necessariamente através de armas.

Osmar – O candidato a presidente pelo PT, Luiz Inácio Lula da Silva, está defendendo uma aliança – que ele chama de pacto social – para resolver esse problema estrutural do Brasil. Uma aliança entre o capital e o trabalho. O seu vice é um empresário. Então, qual sua visão desse tipo de prática política, de um projeto político? Esse projeto serviria no Ceará?
Raimundão – Nós dizemos que é um erro profundo do companheiro Lula fazer esse pacto. Primeiro porque isso não vai trazer melhores condições de vida para os trabalhadores. Esse mesmo cidadão que está junto com o companheiro Lula (o vice José Alencar) é um dos empresários que mais explora os trabalhadores do Brasil. É possível fazer um pacto com os empresários, sem ceder a eles os direitos e as benesses a que eles têm hoje? Continuar explorando os trabalhadores? Eles vão ter a humanidade de diminuir a jornada de trabalho, sem diminuir o trabalho? De fazer casas populares? De pagar altos tributos ao Estado? Não vão. É por isso que nossa proposta era de que Lula tivesse chamado um trabalhador rural, do MST (Movimento dos Sem Terra). É por isso que achamos que Lula está errado quando junta-se com empresários para fazer esse pacto.

Osmar – Como o senhor analisa que justamente nesse momento em que o Lula muda tanto essa postura ele esteja com a possibilidade de ganhar no primeiro turno?
Raimundão – Nós achamos que o Lula pode ganhar no primeiro turno e pode até ir ao segundo turno e ganhar as eleições. Só que para nós Lula não vai resolver o problema da classe trabalhadora. Não vai resolver porque ele já entra no governo assumindo com parte dos banqueiros, com parte dos empresários, um acordo com o FMI de continuar pagando os juros dessa dívida que, com certeza, para a classe trabalhadora vai continuar a mesma coisa.

Carlos Ely – O PSTU tem como uma das ferramentas da atividade política, a prática de fazer ocupação de prédios públicos, de fazer manifestações em ruas, passeatas. E nessa atividade tem enfrentado constantemente a polícia em diversos estados. Se o senhor for governador, como a polícia lidará com eventuais manifestações de partidos ou de outras agremiações de trabalhadores?
Raimundão – A nossa relação com os movimentos sociais, ia ser de um impulsionador das lutas dos trabalhadores. Seria uma contradição colocar polícia nas ruas para combater esses mesmos trabalhadores. Para nós a polícia tem um papel fundamental na sociedade que é combater o narcotráfico, os grandes traficantes, os crimes de colarinho branco, acabar com os seqüestros, que muitas vezes não são resolvidos. Com certeza, no nosso governo não vai haver nenhuma repressão aos movimentos sociais porque, com certeza, todos seriam justas.

Carlos Ely – Como você trataria a Polícia? Você aumentaria a tropa? Daria mais homens, mais equipamentos, mais carros? Daria essa garantia para o cidadão se sentir mais seguro?
Raimundão – O efetivo atual de 14 mil policiais eu acho que já é muito. O que precisa é de melhor qualidade de vida para estes policiais, que seriam muito mais preparados para abordar o cidadão comum com uma postura muito melhor. Porque qualquer cidadão que é abordado, o policial já sai com a arma na mão. Mas quando eles se encontram com o crime organizados, eles não enfrentam. A polícia tem de ser preparada, organizada, muito bem estruturada. O cidadão comum tem de ter segurança na suas ruas, mas tendo emprego, salário e moradia, com certeza em muito vai diminuir esse medos assaltos.

Erotilde – O senhor está em plena campanha e como todo candidato é natural que o senhor quer conseguir o seu objetivo. O senhor falou há pouco tempo que no seu governo os empresários pagariam altos impostos. Isso significa que o senhor repudia o voto de algum empresário que queira deflagrar o seu nome?
Raimundão – Primeiro, eu acho difícil que algum empresário venha querer votar no Raimundão porque eles têm o seu candidatos. Primeiro, eles têm o Serra, o Ciro, e tem também o Garotinho e alguns também votam no campanheiro Lula. Aqui no Estado, eles têm o Lúcio, o Sergio, o Landim que fazem parte dessa mesma proposta deles. Portanto, esses empresários vão querer continuar sendo isentos dos impostos, trazendo suas empresas a se instalar no Ceará, quebrando a economia do Estado para que o governo não tenha recursos para aplicar nas áreas sociais, portanto esses não iriam votar em mim. Mas se algum quiser votar no Raimundão, eu já encontrei alguns médio e pequenos dizendo: Raimundão, você está certo quando você diz que os grandes devem pagar impostos.

Erotilde – Uma outra questão é que o senhor fala em ruptura no seu discurso, mas de onde viria o dinheiro de seu governo?
Raimundo – O dinheiro do Estado hoje, cada centavo que é arrecadado, tem de tirar a sua parcela para pagar uma dívida que cresce a cada dia, seja ela interna ou externa. Esses recursos diminuem a cada ano quando há isenção de impostos ou quando se encontra vários empresários caloteiros que não pagam impostos. E o dinheiro que deve pagar dessas dívidas, não vamos pagar. Por isso, nós dizemos que há condição de mudanças porque os outros candidatos que são nossos adversários não dizem de onde vão tirar os recursos e quando uma fala diz que vai tirar dos impostos e aumentando os impostos vai aumentar sobre os trabalhadores.

Nazareno – O seu governo teria um banco?
Raimundão – Nós vamos ter um banco no Estado. Mas o sistema financeiro para nós deve ser estatal também. Porque os juros que são cobrados pelos bancos privados são muito superiores aos dos bancos estatais. Por isso que nós defendemos a reestatização dos bancos que já foram privatizados e a estatização completa dos bancos para o controle do governo. Com isso, nós tenhamos condição de emprestar dinheiro ao micro e ao pequeno empresário, da geração de emprego, para a agricultura. E para tudo isso precisa-se de dinheiro. Com certeza, o banco do estado também vai ter esse papel.

Carlos Ely – Você fala muito dos empresários que sonegam impostos, e dos empresários que têm isenção fiscal. Mas nem todos os empresários sonegam impostos e nem todos os empresários tem isenção fiscal. No seu governo, como o senhor vai tratar a questão de carga tributária, no tocante aos pequenos e micro empresários? Que tipo de estímulos você vai dar aos empresários para que gerem empregos e renda?
Osmar – Eu queria complementar a pergunta. É que esse discurso anti-empresário não pode se voltar contra a própria classe trabalhadora? Aumentar o custo dessas empresas não pode gerar desemprego?
Raimundão – Se isso fosse possível, nós não tínhamos mais de 500 mil desempregados no Ceará. Não tínhamos mais de 12 milhões de desempregados no Brasil. A lógica não é sobretaxar os empresários. A lógica é que os empresários cada dia mais, pela ganância de ganhar mais dinheiro, diminuem os postos de emprego, os direitos dos trabalhadores. Os governos que governaram até hoje foram par as grandes elites para os grandes empresários. Que situação vive o trabalhador hoje? De miséria. E a violência de não ter direito de moradia, de saúde, de educação. Por que os governo hoje está quebrado? Por essa necessidade de ter dinheiro. Isso é muito cômodo. No nosso governo não vai ser assim não. Vão ter de pagar impostos altos. Com certeza.

Roberto – Qual sua alternativa para a política de desenvolvimento e como o senhor atrairia investimentos para o Estado?
Raimundão – A disputa entre as empresas que se instalam as empresas hoje no Estado é a disputa não apenas por mercados ou para a geração de empregos, mas a disputa pela guerra fiscal, pela isenção de impostos. As empresas que vieram para o Estado do Ceará não vieram com a intenção de geração de emprego, de melhorar a situação dos trabalhadores. Mas com a pretensão de levar muito dinheiro. Vamos citar alguns exemplo: algumas empresas que vieram do Sul e tinham salário médio de R$ 400, chegando até R$ 500, hoje se instalaram no Ceará pagando um salário mínimo. E muitas delas ainda pagam menos porque são através das cooperativas que se instalam. Muitas aproveitam os trabalhadores que estão no seguro-desemprego, e o governo coloca eles para passar dois ou três meses dentro das empresas trabalhando de graça. Isso é um absurdo. A isenção de impostos é um crime contra os trabalhadores. Não gera empregos. Vem com a ganância de levar recursos e deixar nosso povo mais pobre.

Roberto – E qual sua alternativa?
Raimundão – Com certeza as empresas viriam sem esse benefício. E com certeza outros Estados iriam fazer a mesma coisa porque sabemos que eles estão quebrados. Não ia ser o caos. O caos já existe hoje. Portanto, a produção não pode parar. Nós sabemos que tem países que tem a jornada de trabalho de 36 horas semanais e nem por isso deixou de ser grande, rico.

Rodrigo – O Ceará é um estado pobre com pouquíssima capacidade de investimento. Não me parece muito claro qual sua proposta para viabilizar a geração de emrpego, de ação de melhores condições sociais para a população cearense, com essa baixa capacidade de investimento. Uma das saídas foi buscar recursos de instituição estrangeiras, sobretudo do BID e do Banco Mundial. Você fala de ruptura, de quebra de contratos, de não pagamento de dívidas, e boa parte da dívida cearense é com instituições internacionais. Se se fala em rompimento, como se conseguiria dinheiro para fazer esses investimentos?
Raimundão -Nós sabemos que o FMI empresta ao Brasil e acaba de fechar um acordo de US$ 30 bilhões.

Rodrigo – Mas eu estou falando de investimentos locais.
Raimundão – Eu quero chegar ao Brasil para chegar ao local. Não podemos melhorar a situação do Ceará sem mexer com a questão do Brasil. Hoje os recursos que entram no Brasil é muito menos do que o que sai. Quem se beneficia com os recursos que vem tanto dos bancos internacionais como também os empréstimos que são feitos com os banqueiros nacionais são os grandes empresários. Se esse dinheiro viesse para o desenvolvimento do Estado, para ser aplicado na agricultura, melhorar a vida do povo, com certeza o povo teria vida melhor. Nós podemos até aceitar esses investimentos desde que o Estado não pague um absurdo de juros que pagam hoje. É por essa situação que o Brasil e o Ceará, especialmente, estão quebrados. Por quê? Porque o dinheiro não entra no Brasil para a geração de emprego, de renda, para melhorar a vida do povo. Ele entra para buscar juros que vão voltar novamente para os cofres dos bancos internacionais.

Rodrigo – Você tem uma meta de geração de emprego? Quantas vagas precisam ser criadas hoje no Estado?
Raimundão – O Ceará tem hoje mais de 500 mil desempregados. Com certeza, se nós fizermos um plano de obras públicas, reduzirmos a jornada de trabalho e aplicarmos os recursos que o Governo do Estado paga aos banqueiros, ao Governo Federal e aos bancos internacionais, esses trabalhadores vão ser todos desempregados, vamos acabar com o desemprego no Estado do Ceará.

Osmar – A situação no Ceará é paradoxal. Ao mesmo tempo que 1.8% do PIB brasileiro está no Ceará, nós temos uma grande concentração de renda. É necessária uma grande capacidade de investimento para geração de trabalho e de renda no Ceará. Agora há pouco, você falou que não vai fazer nenhum esforço para atrair empresários para cá, tendo em vista que a sua prioridade seria outra. Então, só resta uma outra alternativa para gerar trabalho: seriam os próprios trabalhadores se organizarem de alguma forma e ampliarem essa empregabilidade. Nós temos a situação de reforma agrária no Ceará, não só na questão dos sem-terra, mas de condições de produção. Como manter a coerência no discurso, quer dizer, como gerar trabalho e emprego, sem precisar dos empresários? Como atrair recurso novo sem ser refém de do incentivo fiscal? Qual seria o modelo que ao mesmo tempo geraria trabalho, distribuiria renda e não incentivaria os empresários?
Raimundão – Na realidade, eu volto a repetir que a idéia de que os empresários vieram pra cá para gerar emprego, foi apenas uma falácia. Não geraram os empregos que eram necessitados pelo povo cearense. Todos os Estados hoje no Brasil vivem a mesma situação. O desemprego é generalizado. O Ceará é um dos estados da federação mais pobre. O governo Tasso Jereissati foi um dos mais perversos com a questão da reforma agrária. Hoje, nós estamos vendo claramente as favelas crescendo todos dias nas grandes cidades, não só em Fortaleza, como também no Cariri, em Sobral e em todas as outras regiões e isso se torna muito fácil os empresários virem e pegarem essa mão-de-obra que não tem qualificação, nem condição de exigir um salário porque o exército de miseráveis e desempregados está muito grande. Então, com certeza, nós temos de fazer a reforma agrária. A reforma agrária não é somente dar terra. O governo vai ter de dar condição a esses trabalhadores de se firmar na terra produzindo e para produzir eles vão ter quer ter recursos. Nós sabemos hoje que a cada dia ele (governo) privatiza mais os bancos, e o governo perde mais o controle do capital porque os banqueiros querem dinheiro para aplicar não na agricultura, na geração de emprego, mas sim na ciranda financeira. É por isso que nós dizemos que o governo tem de controlar os bancos para manter o homem no campo com condição, manter o emprego na cidade com a redução de jornada de trabalho sem redução de salário. Quanto às cooperativas, hoje elas não servem porque se juntam a parte dos empresários para burlar os direitos trabalhistas e geram as falsas cooperativas. A cooperativa tem de ser administrada e geradora de trabalho para os próprios trabalhadores e que os recursos que sejam gerados entre eles sejam divididos de igual para igual entre eles também. Mas enquanto tiver as mãos dos patrões dominando essas cooperativas, vai quebrar o INSS (Imposto Nacional de Seguridade Social), os direitos trabalhistas e vai aumentar o desemprego.

Carlos Ely – Como será a relação do seu governo com o servidor público estadual? Levando em consideração que o servidor há muitos anos têm seus salários congelados e que o Estado tem um orçamento limitado e a Lei de Responsabilidade Fiscal que impõe limites para gastos com o funcionalismo. Dentro desse relação como é que vai ser a sua atuação no que diz respeito ao servidor estadual?
Raimundão – Primeiro, nós condenamos a Lei de Responsabilidade Fiscal porque é mais um amordaçamento do capital sobre o governo. O governo que apóia a Lei de Responsabilidade Fiscal é, no mínimo, complacente com esse mesmo capital. O servidor público é visto como marajás, as pessoas que trabalham pouco e ganham muito dinheiro. Por quê? Porque a lógica hoje é privatizar tudo, é acabar com qualquer direito dos trabalhadores. O servidor público, de um modo geral, é esquecido. No momento em que se esquece o servidor público é porque o Estado está quebrado e aí vem a lógica da privatização. A situação de quem paga um plano de saúde é muito melhor do que a minha, que não tenho, da de um morador da favela, da de um desempregado que não têm e que têm de depender do SUS (Sistema Único de Saúde). Nessa situação, nós sabemos que o Estado tem de destinar recursos, que virão do não pagamento das dívidas, para manter os servidores públicos bem pagos, para atender melhor o cidadão, os trabalhadores, para que o servidor tenha condição de viver melhor.

Erotilde – O senhor coloca as propostas dos outros candidatos como promessas. Na verdade, estamos cheios de promessas em época de eleição. Em que difere as suas propostas das promessas dos outros candidatos? O que lhe dá credibilidade? E se existe uma credibilidade, porque ela não aparece nas pesquisas? Por que a classe trabalhadora não responde a sua credibilidade e a suas propostas tão direcionadas à ela?
Raimundão – Hoje existe uma situação na grande imprensa que quando o trabalhador liga a televisão, que está dentro da casa de cada trabalhador, que diz o seguinte: esses candidatos que prometem são exatamente os que estão preparados para administrar. Até bem pouco tempo, nós fomos barrados no frente de um canal de televisão aqui de Fortaleza. Fomos convidados e fomos barrados. Nós fomos convidados, mas na hora de ir para o debate, fomos desconvidados. Isso significa que o povo não pode ouvir as nossas propostas. As pesquisas não são comandadas por nós, portanto nós não temos o direito de exercer… Estamos aqui já agradecendo esse espaço porque o ouvinte e quem está nos assistindo está tendo o direito de ouvir as nossas propostas, mas em parte da mídia nós não temos esse mesmo direito. É por isso que o nosso candidato (a presidente) José Maria de Almeida só tem 1% (nas pesquisas) e os outros tem 20, 30, 40%. Porque eles têm esse poder de estar na frente da mídia dizendo o que vão fazer, que acostumaram o povo a ouvir essas mesmas propostas. Nós queremos acostumar o povo o contrário: dizer que vai fazer e não fazer é a mesma coisa que ir para frente da televisão e mentir. Nós não temos a coragem de mentir para os trabalhadores e sim dizer a verdade. Nós podemos até não ter os milhões de votos que eles vão ter, mas com certeza muitas pessoas já estão conscientes que é possível votar em uma candidatura que tem uma proposta de ruptura, em uma candidatura operária que defende uma proposta para a classe trabalhadora.

Erotilde – Quando o jornalista fala com o candidato, com o presidente, com o gestor, e quando eles respondem, normalmente eles respondem como tal, de uma forma impessoal. Aqui, na verdade, você está representando idéias, propostas, o partido e é indissociável a pessoa do cargo. Mas eu quero falar com a pessoa. Como é que você, Raimundo de Castro, como representante da classe popular, representando um partido pequeno, enfrentar um preconceito ao se sente ao ser barrado, não poder falar diante das câmaras de televisões?
Raimundão – Eu me senti e me sinto como todos os trabalhadores que são humilhados neste país, que não têm direito a vez nem a voz. Eu me senti esse povo. Eu me senti esse povo que é humilhado, que vive na favela, que não é ouvido por ninguém. Eu me senti esse povo e é para esse povo que eu falo. É para este povo que eu estou dizendo que só é possível haver mudanças se esse próprio povo acreditar em si mesmo. Esse fato demonstra claramente o que acontece não só com a nossa candidatura, mas também com o José Maria de Almeida, o nosso presidente da República, que também não é lembrado. Querem colocar na cabeça do povo que são quatro candidatos principais, são quatro candidatos. Por que não se fala nos outros dois? Então, eu me sinto esse povo humilhado que não tem vez nem voz para dizer o que sente.

Erotilde – Qual é a sua trajetória para chegar até aqui, para chegar no PSTU, para ser um militante, para ser um representante desta classe?
Raimundão – A minha trajetória é de um trabalhador rural, depois a de um trabalhador que migrou para outros Estados, é de uma família de 15 filhos, que enfrentou várias secas no Interior, junto com o meu pai e meus irmãos. Se criamos no Interior, depois migrei para outros Estados, inclusive trabalhei na Transamazônica, trabalhei no Maranhão sempre como pedreiro depois que saí da agricultura. Depois vim ser operário da construção civil em Fortaleza e hoje sou dirigente do sindicato da construção civil. Há seis anos começamos a discutir o PSTU mas antes eu já me organizava em outras organizações, mas viemos fundar o partido aqui no Estado do Ceará.

Nazareno – Pela terceira vez o senhor está sendo reconduzido ao sindicato?
Raimundão – Pela terceira vez, eu sou diretor do Sindicato da Construção Civil.

Nazareno – O senhor não está se perpetuando no cargo?
Raimundão – Eu acho que não, porque os trabalhadores exigem que o Raimundão continue no sindicato porque eles acreditam nesse companheiro que luta junto com eles e que enfrentou os empresários, as grandes lutas para que hoje eles tivessem mínimos direitos.

Nazareno – Quantos operários da construção civil existem no Ceará?
Raimundão – Nós temos em torno de 15 mil trabalhadores no Estado do Ceará.

Roberto – O senhor é liberado para o exercício do mandato sindical ou o sindicato paga subsídios para o seu sustento?
Raimundão – Eu sou liberado para o mandato sindical.

Roberto – O senhor tem pouquíssimos recursos de campanha, sua campanha se concentra em Fortaleza, o senhor não tem condições de fazer comícios e até caminhadas pelo Interior pelo fato de não ter condições de movimentação, como transporte, esse tipo de coisa. O senhor acredita realmente que a sua mensagem chega no interior do Estado onde está a maior parte do eleitorado, o senhor acha que tem realmente condições efetivas de ganhar uma eleição como essa ou a sua candidatura é muito mais para passar uma mensagem do PSTU?
Raimundão – Nós estamos nas eleições para a nossa proposta ser vista, abraçada pela classe trabalhadora também no Interior. Eu acredito que esse é um veículo de comunicação que vai muito longe. Esse debate fortalece muito as nossas propostas e o pequeno tempo que nós temos na televisão nós passamos a nossa mensagem. Achamos que muitos moradores no Interior vão votar também na nossa candidatura porque acreditam que através das nossas propostas é possível se fazer uma mudança.

Rodrigo – O problema da educação há um consenso entre educadores, estudiosos e candidatos que não é uma questão de acesso, é questão da qualidade. Qual a sua proposta para reforçar a qualidade?
Raimundão – Não é somente a qualidade porque com certeza faltam salas de aula para as crianças. O governo faz uma propaganda que quase todas as crianças estão na sala de aula, isso não é verdade. Quem mora na periferia como eu sabe disso. Então precisa mais de sala de aula, mais professores, mais qualificação, mais recursos, mais merenda escolar para se manter as crianças em sala de aula.

Erotilde – O senhor colocou no mesmo fosso, no mesmo espaço, todos os empresários e aqui já foi discutido que há empresários que pagam corretamente seus impostos e são eles que têm uma certa dificuldade e empresários que elevam o espaço para o seu discursos. Não é preciso a gente aprender a levar em conta as diferenças?
Raimundão – Sabemos que as diferenças existem. Só que no mundo que vivemos, no mundo capitalista que vivemos, nós não temos a condição de ter uma parte de empresários que fazem concessões que melhoram a vida de seus funcionários diminuindo seus lucros. Nós sabemos que os empresários vivem de lucros. Nós sabemos que podem existir empresários que até pagam melhor os seus funcionários mas esses funcionários são exigidos a produzir. Então, eu não vejo nenhum empresário dizer o seguinte: eu vou dividir os meus lucros com os meus funcionários, eu vou reduzir a jornada de trabalho porque eu estou ganhando muito. Então, a ganância do capital é cada vez mais crescente até porque eles têm medo de ser pobres, de ser funcionários, de ser empregados. Então, essa lógica não é humanitária. Pode ter um ou outro que faça essa concessão, mas em raríssimas situações. Por isso, nós não achamos que os empresários podem abraçar as nossas propostas de bom grado.