Solano Trindade: uma vida de arte e de luta

Em 2008, completa-se o centenário de nascimento do poeta, mas as homenagens já iniciam em julho de 2007“Há nesses versos uma força natural e uma voz individual, rica e ardente, que se confunde com a voz coletiva”. Assim o poeta Carlos Drummond de Andrade falava sobre Solano Trindade, poeta, pintor, teatrólogo, cineasta, ator e folclorista negro que merece grande destaque na história das artes brasileiras.

Solano Trindade colocou em versos, de forma simples e lírica, as lutas do povo explorado e oprimido do país, os sonhos de uma liberdade que até hoje não se fez presente aos negros, o resgate de uma riquíssima cultura afro-brasileira.

Mas, para além de um artista da palavra escrita, Solano influenciou e fundou verdadeiros movimentos artísticos por onde passou, passando pelas linguagens do teatro, do cinema, das artes plásticas, da dança, da arte popular em seu conjunto.

Filho de pai sapateiro e mãe operária e quituteira, Solano Trindade nasceu em Recife (PE) em 1908. Desde criança, o menino Solano acompanhava as danças de pastoril e bumba-meu-boi da região. É a partir dessas manifestações culturais que nasce e se desenvolve a arte de Solano Trindade.

Durante toda a sua vida, foi operário, comerciário, funcionário público, colaborador na imprensa, ator, pintor e teatrólogo. Morou no Rio de Janeiro na década de 40, depois em São Paulo. Nos anos 60, ele inicia na cidade do Embu, o núcleo cultural que contribuiu para o atual batismo de Embu das Artes. É lá também que Raquel Trindade, filha do poeta, fundou e mantém até hoje um grupo de teatro popular com o nome do pai.

Além de grande poeta negro, Solano foi um lutador, um grande defensor da liberdade, e resgatou a cultura negra no país. Por tudo isso, Trindade sofreu perseguições. Um de seus poemas mais conhecidos, “Tem Gente com Fome”, foi musicado em 1975 pelo grupo Secos & Molhados. A música foi proibida pela censura, sendo resgatada e gravada em 1980 por Ney Matogrosso, no álbum “Seu Tipo”. Mas, por causa desta música, em 1944, Solano foi preso e teve o livro “Poemas de uma Vida Simples” apreendido. Além disso, em 1964, um dos seus quatro filhos, Francisco Solano, morreu numa prisão da ditadura militar.

Por onde passou, Solano impulsionou a criação de grupos artísticos, dentre eles o Teatro Experimental do Negro, que foi muito atacado pela elite nordestina, e o Teatro Popular Brasileiro. Com este, Solano levou para a Europa um teatro cheio de música, cores e poesia, com a influência de danças populares como o maracatu.

No teatro, foi Solano Trindade quem primeiro encenou a peça “Orfeu”, de Vinícius de Morais, em 1956, depois adaptada ao cinema pelo francês Marcel Cammus. Como ator, trabalhou nos filmes “Agulha no Palheiro”, “Mistérios da Ilha de Vênus” e “Santo Milagroso”.

Trindade faleceu no ano de 1974, no dia 19 de fevereiro, aos 66 anos, no Rio de Janeiro. Mas ele mesmo chegou a afirmar: “Me tornei cantiga determinadamente e nunca terei tempo para morrer”.

SOLANO TRINDADE EM VERSOS

Gravata Colorida
Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada…

Reflexão
Vieste acender o meu fogo poético,
E minh´alma se abriu pras grandes festas,
A música dos teus poemas,
Faz-me dançar o bailado,
Da primeira mocidade…

Eu sinto vontade de não ser sexo,
Para brincar contigo como criança,
E brincar de cirandinha com tu´alma.

Mas como sou sexo,
Vou assistir um espetáculo humano;
A confecção de bandeiras iguais,
Para seres que parecem diferentes.

Tem gente com fome
Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
pra dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiii

estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio do ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuu

Sou Negro
Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh`alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gongôs e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor de engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu

Depois meu avô brigou como um danado
nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso

Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh`alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação

Canta América
Não o canto de mentira e falsidade
que a ilusão ariana
cantou para o mundo
na conquista do ouro
nem o canto da supremacia dos derramadores de sangue
das utópicas novas ordens
de napoleônicas conquistas
mas o canto da liberdade dos povos
e do direito do trabalhador…

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