Sob o domínio do medo

Rapto provocou onda de protestos em todo o país


Querer estudar: esse foi o grande crime que cometeram as mais de 200 meninas sequestradas na Nigéria. O mesmo crime que cometeu Malala, a garota afegã que levou um tiro na cabeça disparado pelo Talibã porque defendia o direito das mulheres à Educação. Esses crimes contra as mulheres chocaram o mundo, mas continuam sendo cometidos, sem que os governos burgueses movam um dedo para impedi-los.
 
A colonização da África pelo imperialismo inglês durante séculos, o saque selvagem de suas riquezas e uma economia construída para servir aos interesses do grande capital estrangeiro deram o único resultado possível: milhões de seres humanos submergidos na pobreza, da qual só pode resultar a violência, o desespero, o apelo das massas à religião e o poder cada vez maior das seitas fundamentalistas. “Eu sequestrei suas filhas e vou vendê-las no mercado, em nome de Deus”. Palavras de Aboubakar Shekau, líder do grupo terrorista Boko Haram, sobre sua última façanha: a invasão de uma escola em Chibok, no noroeste da Nigéria, de onde foram raptadas 223 meninas entre 17 e 18 anos, no último dia 14 de abril. Chibok fica no Estado de Borno, local principal de atuação do grupo terrorista Boko Haram (que significa “a educação ocidental é pecado”), que nos últimos dez anos provocou mais de quatro mil mortes em dezenas de ataques e atentados na Nigéria e acaba de proceder a mais um ataque, deixando pelo menos 300 mortos.
 
O crescimento da miséria e da falta de confiança no futuro vem fazendo com que a proliferação de grupos radicais e seitas religiosas fanáticas ocorra em praticamente todo os países africanos. No entanto, a Boko Haram tem sido considerada a mais sanguinária de toda a África hoje, com um projeto político-religioso de transformação da Nigéria em um estado islâmico, com implantação obrigatória da sharia (lei islâmica) em todo o país e o abandono definitivo da educação ocidental. No entanto, os moradores da região de Chibok, sobretudo agricultores, decidiram ignorar as ameaças terroristas e matricularam suas filhas na única escola pública que existe na cidade.
 
A resposta veio em seguida. A Boko Haram aproveitou toda aquela reunião de meninas para, sob a bandeira de que “a educação ocidental deve ser abolida, as meninas devem deixar a escola e casar-se”, raptou todas elas numa ação deliberada de tráfico de mulheres para vendê-las como escravas e amantes a líderes tribais. Inclusive algumas dessas jovens vão ficar em mãos da própria Boko Haram para servir como escravas e serão obrigadas a casar-se com seus integrantes. A alegação da religião não-islâmica e da educação ocidental para o rapto não o justificam, a rigor, quando sabemos que se essas meninas estudassem em escolas islâmicas também não estariam a salvo. As alegações da Boko Haram para o rapto já se tornaram correntes para todo tipo de crime praticado, sobretudo contra a população feminina e os demais setores oprimidos. São formas de encobrir um crime monstruoso contra as mulheres e Shekau fez o anúncio do rapto em um vídeo onde aparece sorrindo, vestido de militar, na frente de um veículo blindado e com metralhadoras, destilando todo o seu ódio às mulheres, em especial àquelas que freqüentam as escolas. Escoltado por outros seis terroristas, ele mandou o recado em três idiomas: hausa, árabe e inglês, para que todos entendessem, e concentrou seus ataques contra a democracia, a educação ocidental e contra aqueles que não seguem os preceitos do Islã.
 
A Boko Haram, cujas informações dão conta de que faz parte da rede Al Qaeda, são super bem armados e treinados, muito provavelmente pela própria CIA (agência de inteligência norte-americana), andam sempre vestidos como militares em jipes camuflados e portanto metralhadoras automáticas. Não é de hoje que atuam na Nigéria. Já têm uma história de mais de dez anos cometendo crimes e genocídios, sem que o governo faça nada para impedir. Isso vem deixando a população indignada, acusando o governo de não ter sido capaz de solucionar o problema da violência terrorista no norte do país e de “inação” no caso das adolescentes seqüestradas, no qual até agora, mesmo diante dos apelos desesperados dos pais das meninas, limitou-se a oferecer dinheiro para quem descobrisse o seu paradeiro. A ONU, por sua vez, também se limita a “falar duro”: advertiu os terroristas de que a escravidão pode ser considerada um crime contra a humanidade e que eles poderiam ser perseguidos por isso, disse Rupert Colville, porta-voz de Direitos Humanos das Nações Unidas. Mas para os fanáticos do grupo extremista islâmico, essas palavras não fazem nem cócegas.
 
Onde estão as meninas?
O principal problema que enfrentam agora as tentativas de resgate das crianças é o paradeiro desconhecido delas. Mas algumas das meninas que conseguiram fugir revelaram que um grupo poderia continuar no bosque de Sambisa, próximo da fronteira camaronesa, onde Boko Haram conta com vários esconderijos.
 
Até agora, nada se sabe sobre seu paradeiro, mas testemunhos colhidos pela imprensa indicam que algumas já teriam sido vendidas por doze dólares em zonas fronteiriças do Chade e Camarões. No início, a polícia havia informado que a cifra de sequestradas era de 276, mas 53 delas conseguiram escapar e contaram que, depois de atacar os guardas da escola, os terroristas as subiram em caminhões e as levaram para um bosque perto de Camarões, onde as obrigaram a cozinhar para eles. No primeiro momento, muitas delas pensaram que eles fossem soldados do exército, porque estavam vestidos de militares.
 
O presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, que jamais levantou um dedo para tratar de resolver a grave situação de opressão, machismo e violência em que vivem as mulheres nigerianas, limitou-se a dizer que desconhecia o lugar onde estavam as jovens, como se não fosse o presidente da república, como se não tivesse o Exército sob seu controle, como se não tivesse todo o aparato de inteligência a seu dispor. Mas Jonathan preferiu esconder-se sob as saias de seus amos imperialistas e disse que falou com “países dos que esperamos uma ajuda e os Estados Unidos foram os primeiros. Já falei duas vezes com o presidente Obama”. O secretário de Estado americano, John Kerry, disse em entrevista ao jornal The Washington Post que “faremos todo o possível para ajudar o governo nigeriano a devolver essas jovens a suas casas e levar os autores à Justiça”.
 
Goodkuck Jonathan cruzou os braços e está esperando, como bom lacaio do imperialismo, que Obama resolva o problema. Essa atitude vergonhosa de um governo que em nada representa os interesses dos trabalhadores e do povo pobre da Nigéria é a principal causa desse seqüestro, porque é um governo que não respeita as mulheres, que explora e humilha seu povo, o deixa livrado à própria sorte num mundo hostil e dominado pelo medo, e esses são os elementos que compõem o quadro de violência e desrespeito aos direitos humanos que vive a Nigéria e cujas principais vítimas são as mulheres, sobretudo as mais jovens.
 
Direitos humanos na lata do lixo
Os registros sobre violação dos direitos humanos na Nigéria continuam quase nulos. O que não significa que ela não exista. Pelo contrário: quanto menos registro, mais violação. É o que mostra a história dos países que se dizem democráticos.
 
Na Nigéria, os abusos em relação aos direitos humanos são cometidos em sua essência pelo governo e seus funcionários. Os direitos humanos mínimos, que o de comer, vestir e ter um teto sobre sua cabeça, há muito foram jogados no lugar que a burguesia e o imperialismo colonizador mais conhecem: a lata do lixo. Segundo o Departamento de Estado dos EUA os problemas mais significativos dos direitos humanos na Nigéria são: execuções extrajudiciais e uso excessivo da força por parte das forças de segurança; impunidade para os abusos cometidos pelas forças de segurança; detenções arbitrárias; prisão preventiva prolongada; corrupção judicial e influência do poder executivo sobre o poder judiciário; estupros, tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes dados a prisioneiros, detidos e suspeitos; condições adversas e de risco de vida nas prisões e centros de detenção; tráfico de seres humanos para fins de prostituição e trabalho forçado; violência social e assassinatos de policiais; trabalho infantil e abuso e exploração sexual de crianças; mutilação genital feminina; violência doméstica; discriminação por orientação sexual, etnia, região de nascimento; restrições à liberdade de reunião, de movimento, de imprensa, expressão e de religião; violação do direito à privacidade; restrições do direito dos cidadãos de mudar o governo. Além disso, o casamento infantil continua a ser comum na Nigéria e estima-se de que existam no país 700 mil pessoas submetidas ao regime de escravidão. Sob o código penal islâmico da sharia, que se aplica aos muçulmanos em doze dos estados do norte do país, atos considerados criminosos, como o consumo de álcool, a homossexualidade, a infidelidade e o roubo, levam a penas severas, como amputação, apedrejamento e longas penas de prisão.
 
Sob uma lei assinada no início de 2014, casais do mesmo sexo que se casam podem passar até 14 anos na prisão cada um. Testemunhas ou qualquer pessoa que ajude casais homossexuais a se casarem será condenado a dez anos atrás das grades. O projeto de lei também pune “atos públicos de relacionamentos amorosos entre pessoas do mesmo sexo, direta ou indiretamente” e aqueles que forem considerados culpados por organizarem, comandarem ou apoiarem clubes, organizações e/ou reuniões homossexuais com uma pena de dez anos de prisão.
 
Um país submerso no terrorismo
O que temos portanto aqui não é um ou outro grupo terrorista fanático religioso seqüestrando e matando a população. O que temos é todo um país submerso no terrorismo, sob vista grossa do governo e do departamento de Estado americano, padrinho do governo nigeriano. O regime de violação total dos direitos humanos mais elementares transforma o Estado em um Estado terrorista, que nega à sua população todo tipo de segurança e condições elementares de vida. É um governo assentado na riqueza do petróleo (a Nigéria é o oitavo maior produtor de petróleo do mundo), cujos benefícios estão restritos a uma ultra-minoria, enquanto a imensa maioria da população vive na mais extrema pobreza. Para conservar essa situação, o governo, com benção do imperialismo, faz vista grossa aos inúmeros grupos terroristas que se proliferam no território que fazem o trabalho sujo de manter a população sob o domínio do medo e sujeita a massacres caso levante a cabeça. Além de fazer vista grossa, o governo alenta, por baixo do pano, as inúmeras diferenças entre as religiões. Com a famosa política do “dividir para reinar”, aplicada por Wiston Churchill para dividir a Índia, o imperialismo alenta o governo nigeriano a enfiar uma cunha entre cristãos e muçulmanos, para que lutem entre si enquanto deixam o governo “em paz” para usufruir sozinho as riquezas advindas da exportação petrolífera, e não reclamem a sua parte nesse quinhão. Para que o governo continue vivendo em palácios suntuosos, viajando em iates e rolls royce, e fazendo banquetes insultantes enquanto a imensa maioria do povo é dizimada por doenças advindas da fome e da falta de serviços públicos.
 
Logo depois do sequestro das meninas, um atentado islamista na cidade de Gamburu, perto da fronteira com Camarões, custou a vida de pelo menos 125 pessoas (fonte: Reuters). Dezenas de pistoleiros da Boko Haram cercaram a cidade antes do amanhecer, no momento em que o mercado da cidade estava repleto, eabriram fogo com armas automáticas; depois queimaram as casas e inclusive degolaram algumas pessoas que não tinham nada a ver com aquilo. Talatu Sule, que testemunhou o ataque, disse os terroristas estavam vestidos como militares. “Tocaram fogo nos carros e em vários caminhões carregados com vacas e cereais no mercado”, conta Sule, que conseguiu esconder-se em sua casa durante o ataque. “Quando saímos à tarde, havia corpos por todos os lados, alguns degolados, outros baleados e muito sangre nas ruas”. Diante da porta de sua casa havia dez cadáveres.
 
Desde que a polícia informou, em 2009, que havia matado seu líder, Mohamed Yusuf, os radicais da Boko Haram, que tudo indica faz parte da rede al Qaeda, mantêm uma sangrenta campanha contra a população, já contando mais de três mil mortos. O objetivo da seita é criar um Estado islâmico na Nigéria, um país dividido entre cristãos e muçulmanos. Por isso, não suportam qualquer tipo de liberdade para as mulheres, sobretudo que elas estudem em escolas e se tornem profissionais em algum ramo de produção. Por isso atacaram a escola, para impedir que as mulheres estudem, porque segundo a sharia, elas foram destinadas ao trabalho doméstico e a servir os homens.
 
Reação internacional ao sequestro
Está em marcha uma ampla campanha internacional, organizada pelos familiares das jovens e outras instituições de direitos humanos exigindo empenho do governo nigeriano na busca e resgate das meninas. A comunidade nigeriana de Nova York também vem organizando marchas de protesto nos Estados Unidos, para sensibilizar o governo americano a ajudar nas buscas.
 
O rapto das meninas provocou uma onda de protestos em todo o país à qual se somou gente famosa, como os atores Ashton Kutcher, Whoopi Goldberg, Jessica Biel, Bradley Cooper e Sean Penn. Acusado de apatia, o presidente da Nigéria, Goodluck Jonathan, limitou-se a pedir ajuda dos Estados Unidos, França, Reino Unido e China, e a cooperação dos países vizinhos como Camarões, Chade, Níger e Benin”.
 
Obama condenou o sequestro, disse estar indignado com o crime e o classificou como chocante. A primeira dama dos EUA também se uniu à campanha. Michelle Obama postou em sua conta de Twitter uma foto sua com o lema da campanha internacional “Tragam nossas meninas de volta”.
 
O primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, que se encontra na Nigéria para participar do Fórum Econômico Mundial, ofereceu sua ajuda com satélites e serviços de inteligência. Os EUA anunciaram o envio em uma equipe de especialistas para ajudar as forças de segurança e o Exército da Nigéria. O governo britânico também anunciou o envio de uma equipe de especialistas e o presidente francês, François Hollande, anunciou que fará “tudo que for possível” para ajudar a Nigéria.
 
Não é a primeira vez que Boko Haram (que significa literalmente “a educação ocidental é pecado”) sequestra crianças ou jovens. Há um ano o próprioAbubakar Shekau anunciou sua intenção de começar a raptar mulheres para vender no mercado como resposta à perseguição por parte do Exército às esposas dos membros desse grupo terrorista. Só nos dois primeiros meses deste ano outras 25 mulheres foram raptadas; resgatadas, algumas delas contaram que eram obrigadas a se casar e a manter relações sexuais com seus sequestradores.
 
A campanha internacional de repúdio ao seqüestro tende a crescer, sobretudo dentro da própria Nigéria, envolvendo todo o povo pobre e sobretudo os setores mais organizados da classe trabalhadora, exigindo do governo que encontre e liberte as meninas. Esse é o caminho: lutar até encostar o governo contra a parede, para que nunca mais sustente os grupos de criminosos fanáticos, que deixe de usar a política do “dividir para reinar” entre cristãos e muçulmanos, para que possam viver em paz; sobretudo, é fundamental tomar medidas urgentes contra a fome, que na Nigéria estão ao alcance das mãos. É preciso nacionalizar imediatamente o petróleo, os bancos e o comércio exterior, rompendo com a dependência do imperialismo, e fazer a reforma agrária, distribuindo a terra para os agricultores produzirem alimentos baratos e abundantes para a população. Todas essas medidas exigem que os trabalhadores construam uma organização política própria, independente da burguesia e do imperialismo, e conduzam a Nigéria a uma revolução socialista, única via de acabar de vez com o terrorismo, a corrupção, a fome e o saque de seus recursos naturais. E que a Nigéria deixe no passado, de forma definitiva, o seu legado de escravidão e tráfico humano.

Artigo publicado originalmente do site da LIT-QI