Sindicato japonês responsabiliza governo e exige o fim das usinas nucleares

Leia abaixo a mensagem divulgada pelo Doro-Chiva, sindicato japonês de ferroviários que esteve presente no Congresso da Conlutas em 2010, sobre a tragédia no paísOrganizemos atividades de alívio para as áreas afetadas pela unidade e solidariedade dos trabalhadores! Parem todas as plantas nucleares imediatamente! Nenhuma demissão sob o pretexto do terremoto! Vamos lutar para viver!

O enorme terremoto em 11 de março trouxe um desastre de larga escala ao nordeste do Japão e o resto de toda a área do leste do Japão. Ainda não temos todo o quadro do que ocorreu e do que realmente está acontecendo: quantas vidas foram perdidas, quantas pessoas estão procurando resgate, etc. Neste exato momento, muitas vidas estão sendo perdidas. Poucos abrigos foram providenciados com água, comida, eletricidade ou tratamento médico. Mais ainda, as plantas nucleares de Fukushima estão saindo do controle por conta da falha fatal dos sistemas de resfriamento e precipitando à catástrofe após duas explosões das instalações nucleares.

O plano de resgate do governo faliu. Organizemos ações de auxílio às pessoas e áreas afetadas pela unidade e solidariedade dos trabalhadores
Obviamente, o enorme terremoto no leste do Japão e o conseqüente tsunami estavam além de qualquer antecipação. É evidente, no entanto, que não foram tomadas medidas suficientes para enfrentar o terremoto mesmo já tendo sido advertido que um grande terremoto poderia ocorrer em 10 dias com 99% de certeza. A realidade é que a agenda neoliberal fez prevalecer o princípio da “competição e auto-responsabilidade” sobre o sacrifício das comunidades locais e as vidas dos trabalhadores. Governos locais estavam em dificuldades financeiras críticas e em uma situação longe de estarem preparados para o possível terremoto. A expansão do desastre do terremoto é um resultado inevitável disso.

O que está havendo agora em Fukushima é um exemplo típico de bancarrota das comunidades locais. Habitantes da área de um raio de 20 quilômetros da usina nuclear estão sendo removidos para fora de suas casas, que já haviam escapado por pouco do terremoto, no frio e sob o céu do inverno. Muitas pessoas estão contaminadas pelas explosões das instalações nucleares. Essas plantas foram construídas nos “ninhos de terremoto” pelo governo e pelas corporações de energia elétrica, que insistiam que as usinas eram absolutamente seguras e ofereciam energia limpa. Isso se provou uma mentira flagrante. A planta nuclear significava aos capitalistas um instrumento milagroso de trazer lucros enormes e para o governo uma ferramenta vital para o armamento nuclear. O desastre expôs da pior forma possível o que essas políticas realmente significavam.

É relatado que as tropas das Forças de Auto-Defesa irão pôr sob seu controle as principais rodovias que seguem rumo às regiões afetadas. O trabalho de resgaste de um grande número de pessoas ansiosas com a situação dos habitantes afetados está bloqueado pelas FAD em nome de “proteger as rotas de resgate”. Mesmo a distribuição física mínima está parada: três dias após o terremoto, alimentos desapareceram dos supermercados não somente nas regiões afetadas, mas também na área metropolitana de Tokyo. Enquanto as FAD dominam tudo, o resgate, o transporte e a distribuição de bens de resgate encontram problemas. Surpreendentemente, o porta-aviões nuclear americano Ronald Reagan chegou a um porto local, juntando-se às áreas afetadas. Mesmo em face à realidade, em que dezenas de milhares de pessoas seguem soterradas em destroços ou esperando regaste ilhadas, a segurança pública é a agenda prioritária para o governo e a classe dominante. Há uma tentativa em curso de estabelecer um sistema de mobilização de guerra sob o slogan “unidade nacional para superar a crise nacional”.

É evidente que toda informação essencial, em particular sobre o acidente nuclear, é manipulada e os fatos são cuidadosamente ocultados. Mesmo as violentas explosões das unidades 1 e 3 da usina nuclear de Fukushima Daiichi são descritas como um problema não tão sério e nós não somos em nada informados de como realmente está evoluindo o problema no local do acidente, ao passo que um amplo volume de material radioativo está vazando dos reatores e seu derretimento é iminente.

Neste momento crítico, quando todos os esforços deveriam ser feitos para prevenir o derretimento do reator, a única preocupação do governo e da TEPCO (Companhia de Energia Elétrica de Tokyo) é como manter sua política de promover a energia nuclear.

Todas as forças políticas, o Partido Democrata da administração Kan, o Partido Democrático Liberal, o Partido Komei, e outros, estão se juntando em uma “política de trégua” frente ao enorme terremoto e apresentando medidas de resgate, incluindo a “taxa de caminhada para a restauração”, “revisão do orçamento pelo corte do subsídio de assistência infantil”, “fundo para corporações prejudicadas”, “fundo para apoio à restauração”, etc. O objetivo é recompor a presente crise social via a superexploração e a pilhagem dos trabalhadores, tirando vantagem da horrível situação das pessoas e regiões atingidas.

A necessidade urgente dos trabalhadores, agricultores, pescadores e pequenos negociantes, que perderam tudo com o terremoto e o tsunami, não é ajuda financeira, mas lugar para morar, meios de sobrevivência, tratamento médico incondicionalmente gratuito, etc. Deve-se abolir não a assistência infantil, mas o orçamento de defesa.

Em toda a área do leste do Japão, muitos trabalhadores já perderam seus empregos. Mesmo na prefeitura de Chiba, a 500 km do centro sísmico, a região da baía está afetada pela liquefação: ruas e prédios estão seriamente danificados. Incêndios de larga escala estão acontecendo no complexo industrial. Quase metade do território japonês está sofrendo danos severos e a economia japonesa está atingida pela devastação. O resultado é uma ofensiva contra os trabalhadores; demissão massiva sob o pretexto do terremoto e o desemprego em alta escala. O enorme terremoto do leste do Japão terá o efeito de uma mudança completa da sociedade japonesa.

A situação dos trabalhadores havia acabado de chegar a um ponto crítico quando veio o terremoto. Experimentamos no ano passado a tempestade violenta das demissões em massa: demissões pela privatização da Agência de Seguridade Social, demissões pela JAL, demissão de milhares de trabalhadores irregulares pela JP (Correios do Japão), etc. Um número grande de trabalhadores foi levado à informalidade e à pobreza. Enquanto o sistema de seguridade social era considerado desmantelado, foi ficando mais e mais difícil para a classe trabalhadora sobreviver. Justo nesse momento, o enorme terremoto irrompeu, dando um golpe fatal àquelas pessoas que já estavam no limite da existência.

As classes dominantes de todo o mundo estão assustadas em testemunhar uma situação crítica, em que o colapso da economia está se espalhando do Japão à outros países em meio à crise econômica global e enquanto a explosão de vozes raivosas da classe trabalhadora, inflamadas por esses fenômenos, está agitando o mundo inteiro.

Nós já iniciamos a campanha nacional da luta dos ferroviários para combater a ofensiva neoliberal. Esse movimento proclama um grande desafio pela revitalização do movimento operário através da mobilização das vozes raivosas e da organização de poderosas ações. Agora é o preciso momento de promover este esforço com todo o vigor.

Lutemos para viver

Organizar com toda nossa força ações de auxílio pela unidade e solidariedade com as áreas e pessoas atingidas!

Exigimos suficiente e imediata oferta de moradia, alimentos e tratamento médico irrestrito para as pessoas atingidas!

Parem imediatamente todas as plantas nucleares!

Parem as demissões sob o pretexto do terremto!

Vamos dar um golpe decisivo e final no neoliberalismo!
Abaixo a administração Kan!

Sindicatos devem estar na linha de frente da luta!

14 de março de 2011
Doro-Chiba