Sin City: deliciosos pecados

A prostituta Miho, uma das personagens de Sin City
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Sin City, “A Cidade do Pecado”, revoluciona a adaptação de histórias em quadrinhos para o cinemaSin City, que tem estréia nacional esta semana, é um daqueles filmes que merecem ser colocados na categoria de “imperdíveis”. Baseado na série em quadrinhos escrita e desenhada por Frank Miller, em 1991 (que co-dirige o filme com Robert Rodriguez), “A Cidade do Pecado” não só tem uma narrativa fascinante como também é totalmente inovador no campo da estética cinematográfica.

Para quem não é familiar ao mundo das histórias em quadrinhos (HQ’s) modernos, é necessário, em primeiro lugar, lembrar quem é Frank Miller. Foi ele que, a partir do fim da década de 70, ajudou a tirar as HQ’s do mundo infantil, começando a produzir histórias e personagens direcionados ao público adulto, como também reformulando os antigos heróis dos “gibis”.

Em 1979, surgiram as versões de “Demolidor” e “Elektra” (recentemente levados, sem muito êxito, às telas) e, em 1983, Miller literalmente revolucionou a história dos HQ’s ao escrever e desenhar a série “Batman, o cavaleiro das trevas”, que deu ao velho homem-morcego uma personalidade um tanto decadente e neurótica, em uma história cercada de críticas à mídia e à sociedade moderna.

Também é de Miller a HQ que conta a origem do perturbado homem-morcego, “Batman: ano um”, igualmente adaptada para o cinema, em “Batman Begins”, atualmente em cartaz. Sempre antenado com os problemas sociais, Miller é autor, ainda, de “Liberdade”, uma fascinante história sobre racismo, militarismo e consumismo nos Estados Unidos da América.

A parceria com Robert Rodriguez, cujo cinema sempre manteve um pé no mundo do HQ (em filmes como “El Mariachi”, de 1992), só poderia resultar em algo interessante. Contudo, os dois conseguiram algo bem mais profundo: promoveram uma verdadeira revolução no que se refere à adaptação de histórias em quadrinhos para o cinema.

Cinema como nunca houve antes
A revolução atravessa várias dimensões do filme, a começar por sua estrutura narrativa. Usando tecnologia digital avançada, Rodriguez conseguiu levar para a telona três histórias da série (“A Cidade do Pecado”, “A Grande Matança” e “O Assassino Amarelo”), além de um conto (“O Cliente Sempre tem Razão”) que serve como abertura para o filme.

Um detalhe curioso é que Quentin Tarantino, o cultuado diretor de “Pulp Fiction” e “Kill Bill”, que é amigo de Rodriguez e fã incondicional de Frank Miller, topou dirigir o episódio da “Grande Matança” (que tem tudo a ver com o gosto de Tarantino pela violência) cobrando a quantia simbólica de US$ 1.

As três histórias giram em torno dos temas recorrentes de “Sin City”. Como o próprio Miller havia descrito, essa é uma cidade de “ruas permeadas por sangue, corrupção e ódio”. Recriando o universo dos chamados filmes “noir” (as produções norte-americanas das décadas de 40 e 50 recheadas com mulheres sedutoras e fatais, heróis problemáticos e narrativa em “off”, ou seja, em que o personagem vai contando a história que estamos vendo), mergulha num submundo onde sedução e violência caminham lado a lado.

A grande sacada dos diretores foi levar para o cinema os tons, os personagens, as falas e mesmo as cenas que Miller havia criado para os HQ’s com impressionante fidelidade, entrelaçando as três histórias mediante personagens que “costuram” a narrativa, sem, contudo, manter a continuidade temporal.

As histórias em si são um capítulo à parte. Há um pouco de tudo. Em um dos episódios, Marv (Mickey Rourke), descrito como uma “montanha feiosa de músculos”, parte para a vingança depois que a única mulher com quem ele fez amor em toda sua vida é assassinada, cruzando o caminho de um assassino canibal (interpretado por Elijah Wood, o Frodo de “O Senhor dos Anéis”) e um cardeal poderoso e corrupto.

Noutro, a corrupta polícia da cidade, liderada pelo asqueroso Jackie Boy (o mexicano Benício Del Toro), entra em guerra com um grupo de prostitutas guerreiras e um detetive duro na queda. Em um terceiro, que, na verdade, atravessa todo o filme, Hartigan (Bruce Willis), o único policial honesto de Sin City, faz de tudo para proteger a jovem Nancy (Jéssica Alba), constantemente ameaçada pelo mais nojento assassino da cidade.

Apesar do tom evidentemente violento, o filme não tem relação com o clima de “espanca e arrebenta” das produções de Hollywood; principalmente devido ao também revolucionário formato do filme. Nada parecido foi feito antes. O tom de irrealidade, típico dos HQ’s, a criação de cenários que lembram pinturas e filmes do expressionismo alemão (perspectivas inusitadas, sombras distorcidas e enormes, exagero dramático) e, fundamentalmente, as cores (ou melhor, a quase total ausência delas) dão um ar, ao mesmo tempo, caricatural e poético ao filme.

Produzido inteiramente em estúdio, “Sin City” é quase todo em tons de branco e preto que lembram fotos antigas. E as exceções são fantásticas: o vermelho do sangue ou dos vestidos das mulheres fatais, o rosto feioso do “assassino amarelo”, pequenos detalhes, aqui e ali, que salpicam da tela.

Diversão garantida
Sem nenhuma pretensão em defender “teses”, mas feito exclusivamente para divertir o público sem insultar sua inteligência (o que também é garantido por sarcásticas tiradas cômicas), Sin City é uma excelente alternativa em meio à enxurrada de produções marcadas pela mesmice e falta de criatividade.

Além disso, algo é certo: o filme fará história. Já nasceu predestinado a virar referência para a estética cinematográfica e, assim como “Matrix”, por exemplo, deverá ser imitado à exaustão nos próximos anos.

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