Sem senhores e sem capatazes: Um carnaval aquilombado pelas massas

Fotos Dhavid Normando | Riotur

O capitalismo tornou-se um fardo insuportável nas costas de nossa classe. Nos setores oprimidos das semicolônias o fardo pesa em dobro. Por isso, o desejo de jogá-lo ao chão é cada vez maior, algo que se refletiu com muita força no carnaval de 2018.

A Escola de Samba “Paraíso do Tuiuti” expressou isso na Marquês de Sapucaí. 75 minutos para desfilar, 130 anos de abolição para questionar, 500 anos de exploração e humilhação para denunciar. Emocionante, revoltante, necessário. E não foi só essa escola de samba que transformou as passarelas em “tribunas populares”, foram várias escolas de sambas e blocos alternativos de todo Brasil que resolveram escancarar o verbo com enredos e marchinhas politizadas.

Não se trata de um suposto retorno nostálgico à raiz do nosso carnaval, pelo contrário, o que existe é muita luta pela sobrevivência nas trincheiras da guerra social, necessidade de denunciar o genocídio negro como fez brilhantemente a Beija Flor, de mostrar que “democracia racial” neste país virou uma piada sem graça, de dizer que as reformas de Temer remontam ao passado escravista do país e que corruptos de diferentes partidos (PMDB, PSDB, PT, DEM, etc.), por meio de maracutais com grupos empresarias, dilapidaram empresas como a Petrobrás.

Os comentaristas da Rede Globo ficaram sem chão para pisar, sem língua para falar, porque foram obrigados a transmitir ao vivo o que estão acostumados a esconder: pretos e pobres denunciando o racismo, o capitalismo e os políticos corruptos. A repercussão foi tanta que em plena terça-feira de carnaval (13 de fevereiro) a Globo teve que reservar alguns preciosos minutos do Jornal Nacional para reconhecer que o carnaval de 2018 foi recheado de crítica social.

Carnaval Rio 2018 – Desfile na Sapucaí – Paraíso do Tuiuti – Grupo Especial – Gabriel Nascimento | Riotur

Mais do que desfilar, o proletariado desafiou os poderosos nos sambódromos e nas ruas de todo o país. Mais do que imitar a vida, a arte foi utilizada para denunciar as condições de vida dos trabalhadores e os ataques dos poderosos. Os mais de R$ 150 milhões que Temer gastou em campanha publicitária em defesa da aprovação da reforma da Previdência evaporou no calor político deste carnaval. Os atos do dia 24 de janeiro em defesa de Lula nem de longe se comparam com a radicalização das “massas carnavalescas” que o próprio PT e companhia diziam estar com a consciência mergulhada no conservadorismo. Os apoiadores do “golpe” repentinamente viraram “heróis nacionais” como se a consciência das massas evoluíssem por “insight”. Ao contrário disso, o carnavalesco Jack Vasconcelos, da Paraíso do Tuiuti afirmou que “hoje somos oposição e antes éramos parceiros do poder e não podíamos arranhar a relação” mostrando o quanto que o PT ajudou a despolitizar a arte enquanto esteve no poder. Não há mais a mão petista controlando a arte e nem a mão do PMDB consegue fazê-la.

As massas que a burguesia crucifica cotidianamente e que os reformistas satirizam, saíram às ruas para “crucificar” seus algozes de classe. Presidente, governadores, prefeitos, deputados, juízes, todos foram ridicularizados, denunciados, “condenados”! Milhares falaram por dezenas de milhões, obrigando toda espécie de político corrupto a se manifestar contra a “politização” do carnaval. A burguesia entendeu direitinho o recado dado pelas massas. Três dias depois deste histórico carnaval, Temer e Pezão anunciam uma intervenção militar no Rio de Janeiro.

No “andar de cima” do prédio social há muito muita preocupação com os rumos que a guerra social instalada no país pode tomar, enquanto que nos “porões” onde se encontra o grosso da nossa classe há muita disposição e ousadia. O fardo capitalista ainda não foi jogado ao chão pela nossa classe, falta organização, mas também não conseguiu levar nossa classe ao nocaute. As disputas estão em aberto e não durará para sempre. Um dos lados beijará a lona.

Por isso é preciso apostar nessas fichas na disposição existente e nos mais variados métodos de luta das massas como paralisações, greves e ocupações e não ficar jogando duchas e mais duchas de água gelada na autoestima de nossa classe com narrativas derrotistas como a tal “onda conservadora”.

A “Paraíso do Tuiuti” foi certeira ao chamar Temer “vampiro neoliberalista”, um “vampiro” que tem um apoio popular anêmico, mas que não cairá sozinho. É preciso derrubá-lo nas ruas e com greve geral! O problema é que a burguesia também sabe que esse “morto vivo” sobrevive à custa das traições da cúpula das grandes centrais sindicais e do próprio PT. Em pleno processo de mobilização para construção da Greve Geral do dia 19 de fevereiro, Zé Dirceu posta um vídeo afirmando que “a hora é de ir pra ruas, mas não com greve geral (…)” e seguindo esse conselho a CUT se nega a organizar a Greve Geral!

Ou seja, quanto mais as massas radicalizam suas ações, mais os reformistas pisam no freio. É esse o papel histórico que sempre cumpriram: o de trair as massas e de não confiar em suas lutas. Assim como já decretaram a morte política das “Jornadas de Junho”, descobriram também que depois da queda de Dilma o proletariado brasileiro virou “pobre de direita”, que a “senzala sustenta a Casa Grande” e que os negros aceitaram ser fantoche da FIESP. Racismo larvar, negrofobia enrustida, ressentimento de capataz que foi punido pela Casa Grande e que agora se acha no direito de descarregar seus instintos escravistas contra negros e pobres.

Ficaram tanto tempo no poder bajulando a burguesia em nome da tal governabilidade que assimilaram o que existe de mais arrogante e preconceituoso nessa classe. Perderam qualquer referência de classe e não conseguem mais diferenciar um preto favelado de um branco burguês do Morumbi.

Os negros e os pobres brasileiros não participaram em massa nos atos do MBL, assim como não saíram às ruas para defender o PT. Todos os institutos de pesquisas já mostraram isso. O perfil socioeconômico, racial e o nível de escolaridade tanto dos atos do PT quanto da “Direita” eram similares. É preciso dizer que a nossa classe agiu corretamente. Não ficou nem com a “Casa Grande” e nem com os “capatazes”. Queriam que Dilma caísse fora, queriam que o Congresso de corruptos caísse fora e agora querem que Temer caia fora.

Em 2016 o que prevaleceu foi uma crescente indignação contra todos os partidos da ordem, algo que se manifestou com muita força nas abstenções e votos nulos das eleições daquele ano. Diante da falsa polarização PSDB X PT ou Direita X Esquerda, a maioria da nossa classe estava mesmo era fazendo greve, enfrentando a polícia, ocupando escolas, retomando territórios, bloqueando avenidas, etc.

A politização dos últimos carnavais não foi obra do acaso, é um fio de continuidade de tudo isso. Junho de 2013 não morreu, apenas ficou mais negro, operário, popular e perigoso. Não é hora de exigir “radicalização” da democracia burguesa e nem muito menos “democratizar” a indemocratizável economia capitalista. Mais do que nunca o que o Brasil precisa mesmo é de uma revolução operária, popular e socialista!

O carnaval de 2018 mostrou que existem milhares de “tuiutis” espalhados pelo Brasil e que nessas comunidades tem vida e luta para além do Carnaval e da tese do “golpe”, que tem gente cansada de ser “coisa” do capital, que tem gente exigindo Reparações históricas, que tem gente disposta a fazer Revolução e a construir um mundo sem escravos, sem senhores, e também sem capatazes.