“Se for para morrer em defesa do nosso território, morrerei”

O Opinião Socialista conversou com Dona Ana, liderança do Quilombo Kingoma, localizado em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador, capital da Bahia. A comunidade quilombola vem travando uma forte luta contra o governador Rui Costa (PT), que quer reduzir o território do quilombo a 20% de sua área atual. O objetivo é construir um bairro novo, com o apoio da prefeita Moema Gramacho (PT), em parceria com grandes construtoras.

Opinião – Quando começaram os ataques e perseguições à comunidade de Kingoma?
DONA ANA – Resistir é algo que nosso povo faz desde o século 16, quando o Quilombo Kingoma foi erguido. Em nossa história, tivemos vários ataques dos senhores de engenho, que massacraram e exterminaram fisicamente nosso povo. Hoje, quem nos persegue são os herdeiros desses senhores, donos de grandes construtoras, que querem roubar nossas terras e contam com o apoio do governador Rui Costa. A perseguição à nossa comunidade começou em 2013, ainda no governo de Jaques Wagner [PT], e vem aumentado com Rui Costa.

Quais são esses ataques?
DONA ANA – Em 2013, Jaques Wagner deu início à construção da Via Metropolitana, que tem quase doze quilômetros de extensão e liga a Rodovia CIA-Aeroporto (BA-526) e a Estrada do Coco (BA-099) nos municípios de Lauro de Freitas e Camaçari. Para que a obra fosse implementada, o governo invadiu as áreas do Quilombo Kingoma, destruiu uma enorme área da nossa reserva florestal, derrubou árvores centenárias e sagradas para a nossa ancestralidade, matou nossos rios. Fez tudo isso sem nenhum diálogo com a comunidade. Ao contrário, nos perseguiram, nos ameaçaram. Tive a minha casa invadida, todos os meus móveis quebrados, e disseram que eu se seguisse mobilizando a comunidade ia levar uns tiros de revólver para ficar aleijada e não andar mais. Conseguimos, com muita luta e mobilização, impedir sua construção por algum tempo, mas a Justiça sempre favorece os governos e os ricos. A obra foi liberada, já está em fase de finalização e será controlada pela concessionária Bahia Norte, que vai cobrar pedágios.

E hoje, o que faz o governador Rui Costa?
DONA ANA –
Rui Costa deu prosseguimento à política de ataques e perseguições iniciada por Jaques Wagner. A estrada, na verdade, tem o objetivo de expandir o mercado imobiliário, isto é, foi construída para favorecer as construtoras. Para que essa expansão prossiga, é preciso retirar o Quilombo Kingoma do meio do caminho. E é isso que o governador está tentando fazer. Apresentou um relatório ao Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] e ao Ministério Público Federal cheio de mentiras, com um parecer de um antropólogo que foi apenas um dia no quilombo e sequer conversou com a comunidade.

Nesse documento fraudulento, governo estadual diz reconhecer como área do quilombo apenas 20% do nosso território atual. Os outros 80% serão reconhecidos como áreas particulares para que as empreiteiras possam comprar a preço de banana. Hoje, somos 579 famílias vivendo numa área de 1.200 hectares. Rui Costa quer reduzir para menos de 300 hectares, área que não engloba nem 200 famílias quilombolas.

Como tem sido o processo de resistência?
DONA ANA –
Bem difícil, mas seguimos de pé e vamos lutar até o fim. Infelizmente, a maioria das entidades e organizações do movimento negro ficam caladas, pois mamam na teta do governo, estão completamente vendidas. Mas temos feito unidade com alguns quilombos, que assim como nós vem travando um processo de luta e mobilização, como é o caso do Quilombo Rio dos Macacos, em Simões Filho. Temos recebido apoio e solidariedade da CSP-Conlutas, do PSTU e de alguns setores do PSOL. O Movimento Aquilombar, coletivo organizado por jovens de Itinga, Portão e Vida Nova [bairros da periferia de Lauro de Freitas] tem sido parceiros fundamentais nessa luta. Já fizemos protestos de rua, já ocupamos a Câmara de Vereadores, temos participado de várias palestras em escolas e universidades. Junto com o Movimento Aquilombar, levamos a problemática do Kingoma para dentro do Fórum Social Mundial, que aconteceu mês passado em Salvador. Tem sido assim: eles atacam de lá, a gente responde daqui. E esse é o ódio deles. Mas nós aprendemos a quebrar correntes há séculos. A ordem é resistir.

A senhora não tem medo de ser assassinada, de que as ameaças que a senhora sofre sejam efetivadas?
DONA ANA –
Se for para morrer lutando em defesa da nossa história, do nosso território e de nossa ancestralidade, morrerei. Esses últimos dias têm sido bem difíceis, a perseguição tem sido forte. A cerca de arame da frente da minha casa amanheceu cortada, com a porteira jogada no chão. Mataram todos os meus porcos, dois cachorros e dois gatos. Agora, esses dias, meu jumento amanheceu morto. Outro dia, cortaram o arame e colocaram alguns bois dentro da minha área. Quando vi, eles estavam comendo as plantações da minha roça. Já fui à delegacia, prestei queixas, mas a polícia não faz nada, mas se fosse para perseguir e matar nossos jovens pobres e negros, eles saberiam o caminho do quilombo. Algumas pessoas falam se não seria melhor eu mudar de casa, sair do quilombo. Mas não posso fazer isso, aqui é o meu lugar. O meu território é a minha vida. Se eu saio daqui, perco a minha ancestralidade, a minha essência de vida. Não vou sair, pois é isso que eles querem. E digo em todos os lugares, se alguma coisa acontecer com a minha vida, a responsabilidade é do governador Rui Costa.