Rússia: sobre terrorismos e terrorismos

Depois dos atentados no metrô, o justo sentimento da maioria das pessoas é de pena pelas vítimas, misturada com confusão e ódio. Mas existe uma minoria que tenta também analisar e compreender o que aconteceu.

Dessa maneira, algumas opiniões que, querendo fugir dos lugares comuns da interpretação oficial, tentam, de alguma forma, justificar o atentado, argumentando que, apesar de cruel, foi um ato de guerra, onde a resistência caucasiana devolveu na mesma moeda o que as tropas russas fazem no Cáucaso. Morreram inocentes? De fato, mas numa guerra isso sempre acontece, por mais triste que seja.

Temos a impressão de que este é um raciocínio errado. É verdade que o ataque ao metrô foi um ato de guerra. É verdade que em toda guerra morrem inocentes, mas também é verdade que a resistência caucasiana utiliza as forcas e possibilidades que dispõe, e os atentados são uma das poucas formas de fazer a guerra chegar a Moscou.

Isso, porém, não significa de maneira alguma justificar o ocorrido. Mesmo numa luta justa, existem táticas justas e injustas. Justas são as táticas que ajudam a atingir o objetivo da luta, ou seja, ajudam a conquistar o direito à autodeterminação dos povos do Cáucaso. Injustas são as que atrapalham esta luta. Não é apenas um problema de fazer a crítica marxista tradicional contra as táticas terroristas, como fazia Lênin. O recente atentado no metrô de Moscou foi um crime contra a classe operária, tanto russa quanto caucasiana.

Os marxistas revolucionários não criticam o terrorismo em si, como uma tática, e sim a sua transformação em estratégia. No último filme de Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios, um fantasioso grupo de judeus prepara um ato terrorista contra Hitler e o executa, matando o líder nazista enm cinema (com muitas outras pessoas junto). O filme é só uma fantasia, mas sequer o governo Putin-Medvedev, com toda sua legislação antiextremismo, poderia criticar uma ação deste tipo – matar Hitler com uma bomba num cinema. Porque era uma tática que estava a serviço de uma luta correta, a luta contra o nazismo. E essa tática (explodir o cinema onde estava Hitler) não estava em contradição com a estratégia (derrotar a Alemanha Nazista), mas o contrário.

Lênin sempre criticou os terroristas russos, como os narodniki e esseristas, por elevarem uma tática à condição de estratégia, ou seja, reduzirem toda a luta contra o tzarismo à ação de colocar bombas. O marxismo russo se fundou em oposição a essa linha, explicando que ao invés de excitar as massas, as táticas terroristas as desorganizavam, transformando-as de atores em expectadores passivos.

De fato, para que lutar, arriscar os empregos e a vida, se organizar em greves se, com um pouco de nitroglicerina, alguns corajosos podem resolver o problema? Ou seja, nesse caso, a tática terrorista era uma tática injusta, que atrapalhava a luta contra o tzarismo.

Apesar de estarmos com Lênin, contra os terroristas russos, devemos notar que estes terroristas do século 19 não acreditavam que as bombas por si mesmas pudessem mudar a situação. Usavam bombas porque acreditavam, erroneamente, que poderiam dar um exemplo às massas para que estas entrassem em luta. Ao mesmo tempo, os atentados cometidos pelos antigos terroristas russos estavam direcionados ao Tzar, governadores, chefes de polícia, membros da nobreza etc. E não contra o povo em si.

Houve, porém, outras variantes de terrorismo. Já não se dedicavam a excitar as massas, acreditavam que com suas táticas terroristas poderiam assustar governos e forçar negociações, ou, na melhor das hipóteses, desestabilizar governos, como por exemplo, os separatistas bascos do ETA ou os irlandeses do IRA. Já colocavam a tática terrorista como um fim em si mesmo. Nesse sentido, sua ideologia representa um passo atrás em relação aos antigos terroristas russos, um retrocesso. Mas estes também atacavam centros do poder, administrações locais, sedes da polícia etc. Avisavam antes dos ataques para que pudessem evacuar as pessoas.

Os atentados perpetrados agora por direções islâmicas (burguesas) representam um retrocesso ainda maior. Por seu caráter burguês (como também o são os nacionalismos basco e irlandês), não têm interesse algum em excitar as massas, tampouco têm algum respeito com a vida de inocentes. Seus atentados estão direcionados a causar o máximo possível de baixas civis, para que o choque e a dor provocados por suas ações sejam as maiores possíveis. Creem poder amedrontar ou desestabilizar o inimigo com seus ataques o forçando a negociar. São, por exemplo, os ataques que fazem Al Qaeda no Iraque, repudiados pela própria resistência iraquiana, em mercados ou mesquitas, tentando jogar a população civil uns contra os outros, dividindo xiitas e sunitas, ao invés de unificá-los na luta contra a ocupação norte-americana.

Isso também foi o que ocorreu no atentado no metrô de Moscou. Os mortos não podem ser chamados de efeito colateral, como algum inocente que porventura estivesse no hipotético cinema do filme de Tarantino. Ao contrário, o objetivo no metrô era matar o máximo de gente possível, leia-se trabalhadores (afinal, burgueses, altos burocratas, membros do governo e dirigentes das forças de repressão não viajam de metrô). Por isso, as explosões se deram na hora do rush, no cruzamento de linhas, na hora do embarque de uma estação.

O fato de que tenha ocorrido perto da Lubianka, onde fica a sede da FSB, antiga KGB, não justifica nada, pois se o objetivo era mandar um recado ao governo russo, por que no metrô? Por que não sair do metrô e ir até as portas da Lubianka, o que seria muito fácil de fazer? Porque, no metrô, o número de vítimas seria maior. No metrô, o atentado rende mais sangue, seja de pessoas inocentes, seja de trabalhadores, seja de crianças. As direções islâmicas que, infelizmente, dirigem o justo movimento de autodeterminação dos povos do Cáucaso, creem que seus inimigos são os russos, não importando se estes são do governo, da oposição, ou se são burgueses, militares ou gente comum. Instigam um ódio nacional e não de classe, assim como o faz o governo russo contra os povos do Cáucaso.

Por isso, dizemos que o atentado não se pode justificar, foi um atentado canalha, que divide a classe trabalhadora, fortalece o governo Putin-Medvedev, joga confusão na população, alimenta as correntes mais reacionárias, xenófobas e fascistas, e justifica a política repressiva do Estado russo no Cáucaso.