“Rosas Vermelhas”: um espaço para formação de feministas revolucionárias

Mesa do evento

Secretaria de Mulheres da Juventude do PSTU de São Paulo inaugurou espaço dedicado à formação teórica e ao debate necessários para o combate ao machismoNa noite de quinta, 21 de julho, cerca de 100 pessoas se reuniram na sede do PSTU em São Paulo para prestigiar a inauguração do “Espaço Rosas Vermelhas”, um projeto que está sendo desenvolvido pela Secretaria de Mulheres da Juventude (SMJ) do PSTU paulista com o objetivo de montar um acervo de livros, filmes, panfletos e todo e qualquer tipo de documentação que estimule o debate sobre a luta feminista, dentro de uma perspectiva revolucionária.

Durante a atividade foi realizado um debate conduzido por Ana Pagu, que falou em nome da Secretaria Nacional de Mulheres do PSTU, e Camila Lisboa, também militante do partido, e dirigente do “Movimento Mulheres em Luta”.

Segundo Samanta, uma das responsáveis pela SMJ, “o ‘Rosas Vermelhas’ está sendo criado com o objetivo de servir como um espaço para formação feminista, pois temos claro que, exatamente porque o machismo é muito forte e está profundamente enraizado na sociedade, é preciso estudá-lo sob todos os ângulos (suas sutilezas, seus componentes ideológicos, suas relações com a exploração capitalista, por exemplo), o que demanda, de nós, feministas marxistas e revolucionárias, um estudo permanente” .

Um estudo que, ainda segundo Samanta, tem como principal objetivo “armar os militantes do partido (inclusive os homens) para o combate concreto na sociedade”. Exatamente por isso, o primeiro livro a ser integrado à biblioteca foi “O gênero no une, a classe nos divide”, de Cecília Toledo, que em uma mensagem enviada especialmente para a atividade, ressaltou a importância da iniciativa para formar uma nova geração de feministas revolucionárias.

Descontruir a naturalização do machismo
A atividade foi aberta por Ana Rosa Minutti, uma das fundadoras da Secretaria de Mulheres do PSTU e do “Movimento Mulheres em Luta”. Para exemplificar o quanto o machismo está “naturalizado” na sociedade, Ana Rosa, com ajuda de companheiras do plenário, fez a leitura de um texto que ilustra o quanto a opressão machista contamina, inclusive, a língua portuguesa. Basta uma visita ao dicionário.

Por exemplo, “vadio”, segundo o “Aurélio” é “um homem sem ocupação”, já o feminino da palavra é utilizado como ofensa machista e sinônimo de “puta”. O mesmo serve para “cão” (“o melhor amigo do homem”) e “cadela”; ou para “aventureiro” (“um homem audacioso”) e “aventureira”, apenas para citar alguns exemplos.

Falando na sequência, Camila Lisboa recordou o quanto esta ideologia embutida inclusive nas palavras é nociva e alimenta práticas ainda mais nefastas. Como exemplo, Camila citou um episódio ocorrido durante o Congresso da Assembléia Nacional – Livre (ANEL), quando um grupo de moradores da residência estudantil da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (onde o congresso foi realizado) assediou de forma ostensiva várias das delegadas presentes.

Como lembrou Camila, “o comportamento daqueles estudantes foi alimentado e motivado pela ideologia que prega que toda mulher é uma mercadoria, destinada à satisfação masculina. Uma ideologia que, inclusive, ao mesmo tempo que quer nos impor um padrão de ‘santas’ e ‘rainhas do lar’, faz com que os homens nos tratem, no dia a dia, como ‘putas’ em potencial, que devem estar sempre disponíveis para atender os desejos masculinos, queiramos ou não”.

Contudo, como Camila também ressaltou, “o que aqueles garotos não esperavam é que, no dia seguinte ao assédio, eles acordassem com centenas de mulheres, e, felizmente, também homens, realizando um protesto debaixo de suas janelas. Afinal, para eles (como muitos disseram depois), nada de muito grave tinha acontecido, pois a ideologia machista faz com que os homens acreditem que chamar alguém de ‘gostosa’ é tão ‘natural’ quanto cercá-la num corredor forçá-la a uma relação sexual”.

Como foi destacado também por várias companheiras durante a atividade, é exatamente contra esta “naturalização” do machismo que as mulheres precisam se organizar e, também, estudar formas de descontruir este discurso, que se encontra por trás não só de “piadas”, mas também de estupros e assassinatos.

Por fim, Camila também lembrou que, no mundo atual, esta necessidade tem ser combinada com uma outra, resultante das novas formas que o capitalismo assumiu, principalmente através da promoção de membros de setores historicamente marginalizados, particularmente mulheres, como forma de melhor impor seus planos de dominação.

“Dilma, no Brasil; Lagarde, no FMI ou Merkel, na Alemanha são expressões disto. Mas, para nós, revolucionárias, elas nada mais são do que ‘lembretes’ de que nossa luta contra o machismo é também uma luta contra o sistema que o incentiva e, conseqüentemente, para nós, estas figuras são inimigas, que precisam ser derrotadas, e não, de forma alguma, nossas aliadas” , concluiu Camila, ressaltando que esta nova realidade também impõe a necessidade de revisitar as contribuições históricas das feministas revolucionárias e elaborar novas formulações, algo no que, certamente, o Espaço Rosas Vermelhas, cumprirá um papel fundamental.

Organizar para lutar: a única saída
Ana Pagu iniciou sua fala lembrando uma estatística macabra. Durante os 20 minutos que a palestrante anterior havia falado, segundo os dados da ONU ou do próprio governo, nada menos do que 50 mulheres teriam sido agredidas (uma a cada dois minutos) e, até que atividade acabasse, pelo uma mulher teria sido assassinada, já que a cada duas horas uma mulher é morta por um machista.

Segundo Ana, são situações como estas que exigem não só uma atuação constante e sólida por parte daqueles que lutam contra a opressão, como também o aprofundamento do estudo teórico, para auxiliar na compreensão dos mecanismos do machismo e como eles se combinam com a exploração capitalista.

Como Ana destacou, “para nós da Secretaria de Mulheres do PSTU esta iniciativa da Juventude de São Paulo é fantástica e nos enche de orgulho, porque temos certeza que as companheiras estão dando um passo fundamental para que todos os militantes do PSTU (homens e mulheres, jovens e das gerações mais antigas) contribuam para recolocar a luta feminista no seu devido lugar: como parte fundamental da luta de classes” .

Uma necessidade que Ana exemplificou com dados inquestionáveis: “Mesmo sendo a maioria da população e quase metade do mercado de trabalho, as mulheres ganham, em média, 33% dos salários pagos aos homens, mesmo quando exercem a mesma função. Uma situação que chega a absurdos, como no caso de Salvador, onde a combinação do racismo e do machismo faz com que uma mulher com nível superior ganhe 57% a menos do que um homem na mesma situação” .

Enquanto isto, só 16% das crianças até 5 anos têm acesso às creches, a Lei Maria da Penha não garante a proteção necessária para que as mulheres enfrentem os machistas e o governo Dilma está promovendo cortes em tudo aquilo que poderia amenizar os efeitos do machismo. Uma situação que, segundo a dirigente da Secretaria de Mulheres do PSTU “só reforça a necessidade de iniciativas como o Espaço Rosas Vermelhas que, esperamos, sejam reproduzidas país afora, em todas as sede do PSTU e, principalmente, que sejam colocadas à disposição de todos as ativistas do movimento, da CSP-Colutas, da Anel e dos sindicatos e demais entidades onde atuamos

Nossas rosas são vermelhas…e têm espinhos
No decorrer do debate que se seguiu, muitos dos temas que irão ser abordados no “Espaço Rosa Vermelhas” foram levantados pelos participantes: a necessidade da unidade dos setores oprimidos se unirem aos explorados para lutar; as especificidades da mulher lésbica; a importância do Internacionalismo (exemplicada pelo envio de militantes para acompanhar processos revolucionários como o do Egito e do Chile), dentre outros.

Todas as falas foram intercaladas com leitura de poemas e textos de mulheres como Florbela Espanca, Cora Coralina, Evelyn Reed, Cecília Meirelles e uma série de outras.

Como também, foram constantemente lembrados os nomes de algumas das “rosas” que serão cultivadas no novo Espaço e cujas biografias e histórias de luta estavam estampadas em cartazes espalhados pela sede: Margarida Maria, morta em função de sua luta em defesa dos trabalhadores rurais do nordeste; Dandara, que organizou o exército do Quilombo dos Palmares; Rosa Luxemburgo, que deu sua vida em nome da revolução alemã e mundial; Clara Zektin e Alexandra Kollontai, que no início do século propuseram a criação do “8 de março” como Dia Internacional das Mulheres.

Todas elas exemplos de mulheres que, negando o discurso da fragilidade, da passividade e da submissão, demonstraram que as “rosas vermelhas” não nasceram para “decorar” o ambiente ou celebrar a possessão masculina; mas, sim, para lembrar que, enquanto o sistema capitalista existir e se utilizar do machismo para superexplorar as mulheres, sempre existiram aquelas “rosas” que farão de seus espinhos uma poderosa arma de luta.

Uma luta que, certamente, será fortalecida pela iniciativa da Secretaria de Mulheres da Juventude de São Paulo que, esperamos, seja reproduzida país afora.