Rosa Luxemburgo, a alemã, a judia-polonesa, a internacionalista, a vermelha

Rosa Luxemburgo

No dia 15 de janeiro de 1919, no calor da situação revolucionária na Alemanha que permanecia aberta depois da revolução de novembro de 1918 que derrubou o kaiser, Rosa Luxemburgo foi assassinada, ao lado de Karl Liebknecht. Em 2004 se completaram 85 anosA tragédia da morte física de Rosa resume os dilemas de sua heróica vida política: na primeira crise revolucionária de sua vida, em Varsóvia, aonde chegou clandestina para viver os últimos meses da vaga de 1905, foi presa junto com os bolcheviques e solta depois do pagamento de um expressivo resgate-fiança; na segunda, foi morta em Berlim, poucas semanas depois da fundação do Partido Comunista da Alemanha.

Desde o 9 de janeiro, Berlim era uma cidade em estado de sítio. Rosa e Liebknecht sabiam que estavam encurralados, e que o cerco se apertava. Seus destinos eram decididos hora por hora. Havia vários dias viviam em permanente mudança de endereços. Até que a delação levou as milícias ultranacionalistas, ex-militares desmobilizados, ressentidos sociais radicalizados pela derrota do Império – o material humano que se uniria a Hitler para fundar o nazismo – ao seu esconderijo.

O perigo de um confronto mais sério tinha feito os trabalhadores recuarem da greve geral inseguros. O governo Ebert/Sheidemann, uma coalizão do SPD (1) e do USPD (2), os dois partidos operários mais influentes, conhecidos como majoritários e independentes – levados ao poder pelo “fevereiro“ alemão que derrubou a monarquia – estava inflexível na determinação de destruir a dualidade de poderes que, sobretudo em Berlim, ameaçava a estabilidade do regime e prenunciava uma nova vaga revolucionária. A burguesia, prudentemente, discreta, aplaudia a sanha dos reformistas em reprimir os comunistas. O perigo de um Outubro alemão, verdadeiro ou ilusório, tinha estado no ar. Era preciso agir rápido: daí que a decisão do governo de retomar o controle da polícia de Berlim, a qualquer custo, fosse irredutível. Diante da reação enérgica dos setores mais avançados da classe operária em defesa dos conselhos de trabalhadores e soldados, o governo não hesitou em tomar medidas brutais: o cerco militar da cidade, revelando sua decisão de ir até ao derramamento massivo de sangue, se necessário.

Já os setores de vanguarda do proletariado que tinham ensaiado o seu “junho de 1848“, a sua “jornada de julho”, recuavam, precipitada e abruptamente, em debandada. O teste de força fora feito e o seu resultado era desolador. A maioria da classe trabalhadora voltou para as fábricas, e se entrincheirou, intimidada, consciente que não seria possível manter a unidade do movimento sob a bandeira da greve geral até a derrubada do governo.

Nesse ínterim, a repressão contra os espartaquistas (3) se abatia de forma impiedosa. O cerco se apertava. Refugiados, nos dias 12 e 13, em uma residência no bairro operário de Neukölin, Rosa e Liebknecht mudaram-se, no dia 14, para um apartamento “respeitável“ de um distrito de classe média em Wilmersdorf. Suas cabeças estavam a prêmio, com uma substantiva recompensa oferecida por empresários de extrema-direita. Foram presos às nove horas da noite, ainda na presença de Pieck, um dirigente do comitê central, que tinha acabado de lhes trazer documentos pessoais falsos – produzidos na Rússia dos sovietes – para facilitar a saída de Berlim. Mas era tarde demais. O improviso em matéria de organização, característico do espartaquismo, cobrou o seu preço. Sem documentos, Rosa e Liebknecht não tinham como fugir.

Foram levados até o hotel Eden, onde estava instalado o quarte-general de uma das divisões protofascistas, na parte central de Berlim. Sabiam, provavelmente, que não seria uma prisão como outras. Podiam presumir que seriam brutalmente interrogados. Mas, desta vez, seus destinos já estavam traçados. Primeiro Liebknecht e, depois, Rosa, foram duramente atingidos por coronhadas na cabeça e levados para fora do hotel, colocados dentro de um carro. Descobriu-se que foram fuzilados, imediatamente, à queima roupa: Liebknechet, arrastado para fora do carro, para simular uma fuga, foi baleado pelas costas. Rosa recebeu o tiro na nuca, ali mesmo.

O corpo de Luxemburgo foi lançado nas águas do canal Landwehr, de onde foi resgatado somente em março. Ali foi colocada uma placa, ao lado de uma das pontes, para honrar a sua memória. Rosa, a alemã, a judia-polonesa, a internacionalista, a vermelha, morreu na Berlim que tanto amou, assassinada pela fúria fascista que, em 1933, chegaria ao poder para tentar conquistar o mundo e mergulhar a Europa no maior genocídio da história.

A mão que aperta o gatilho nem sempre é a mesma que aponta a arma

Não restam dúvidas sobre o balanço histórico da cumplicidade do governo do SPD, o primeiro da República de Weimar, pelo assassinato de Rosa e Liebknechet. Sabemos hoje que a ordem de execução não partiu do governo. Mas sabemos também que a perseguição que cercava os revolucionários foi incentivada por Ebert e Scheidemann: Noske e os Freikorps (4) sob o seu comando eram um ponto de apoio vital do governo, que duvidava da disciplina da maioria das tropas militares.

O assassinato de Rosa teve para o marxismo revolucionário na Alemanha o efeito devastador de uma ruptura dos vínculos entre duas gerações. A experiência política que estava resumida nas pessoas de Rosa, Liebknechet e Jogiches, o primeiro companheiro de Rosa, se perdeu.

O confronto prematuro do 5 de janeiro

Uma contextualização histórica ajudará a compreender porque foi tão necessário o massacre da direção dos espartaquistas. As circunstâncias políticas das jornadas de janeiro de 1919, o primeiro dos vários “julhos de 1917“ da revolução alemã, são pouco conhecidas, mas merecem atenção, dadas as suas irreparáveis conseqüências. As situações revolucionárias têm, também, suas alternâncias de conjuntura. Conhecem flutuações nas relações de forças, e sofrem com a discordância de tempos entre a maturidade da crise e os atrasos na percepção que os trabalhadores vão alcançando de seus desafios.

Os acontecimentos que precipitaram as lutas de janeiro começaram de forma quase trivial. Tudo se iniciou em dezembro de 1918, menos de um mês depois da queda do kaiser. Uma contra-ofensiva do governo presidido pelo SPD – resolveu derrubar o chefe de polícia da cidade, Emil Eichhorn, membro do USPD – que considerava intolerável as permanentes manifestações de massas não-controladas em Berlim, fator de impulso e, ao mesmo tempo, expressão da dualidade de poderes. Acusado de incapacidade na preservação da ordem pública e de permitir que a polícia se transformasse em uma instituição “quase revolucionária“, era vital para o governo a sua queda. Eichhorn desafiou a decisão do governo, recusando obedecer às ordens do ministro do Interior, e afirmando que sua autoridade só podia ser questionada pelo conselho de operários e soldados. A direção do USPD de Berlim apoiou essa decisão e resolveu resistir, convocando as massas às ruas para uma manifestação de protesto. Já os espartaquistas apoiaram a ação de rua, mas defendendo a greve geral e, mais importante, que as tropas do exército deveriam ser desarmadas e os trabalhadores armados.

A posição de Rosa foi a favor, mas ressalvando que a greve deveria ser somente de protesto, para medir forças, e aguardar a reação de Ebert e do governo, e a repercussão junto aos trabalhadores no interior do país. A passeata no dia 5 de janeiro foi um sucesso muito além do que todos esperavam, e a direção do KPD (5) recebeu informes que garantiam que uma parte dos soldados aquartelados em Berlim estavam do lado dos insurrectos. Mais tarde, isso se demonstrou infundado.

A partir daí, a sorte estava lançada: reuniões conjuntas dos independentes (USPD) de Berlim, dos comunistas e dos delegados revolucionários constituíram um organismo comum das três organizações, com 33 membros e um secretariado de três dirigentes, Liebknecht, Lebedour e Scholze. As atribuições precisas desse organismo permanecem obscuras: seria sua responsabilidade, ou intenção, dirigir o movimento como um protesto, ou tentar a derrubada do governo?

A questão é pertinente porque a esquerda socialista alemã tinha sido formada em uma cultura de que revoluções “não se fazem“, mas são feitas pelas massas. Para os que tinham se formado no velho SPD, antes da guerra, deveriam ser os trabalhadores, deslocando as instituições, que colocariam o poder nas ruas. Essa era a cultura da esquerda socialista na Alemanha: governos caem, não são derrubados; o palácio se rende, não é tomado. A ordem político-social desaba, finalmente, pela força da ação das massas, e o governo, pela perda de legitimidade, desmorona. Sujeito social e sujeito político, movimento e direção, classe e partido, se confundem. Revolução e insurreição não se separam.

Já a militância espartaquistas composta, em sua maioria, por jovens que não viveram o período anterior à guerra, portanto, pouco experientes, tinha inclinações voluntaristas. Por isso, é difícil discernir até onde estavam dispostos a ir, efetivamente, os revolucionários reunidos após o entusiasmo da manifestação do 5 de janeiro.

Rosa estava marcada para morrer

A partir daí, começou a fuga. Tudo indica que a lógica política que guiou a posição dos espartaquistas, com o apoio de Rosa, teria sido, resumidamente, esta: os comunistas consideravam um erro a decisão dos setores mais avançados da classe de iniciar um movimento imediato pela derrubada do governo, ou que tensionasse o conflito a tal ponto, que o problema do poder estaria objetivamente colocado. No entanto, como essa tinha sido a vontade dos trabalhadores em luta, por disciplina de classe, tinham se unido às massas em levante. Mas, enquanto o KPD se mantinha ao lado dos insurgentes, as outras organizações, as primeiras em colocar objetivos inalcançáveis, bateram em retirada, capitulando em negociações de gabinete, e deixando os trabalhadores à mercê da repressão.

Moral da história: os espartaquistas foram os últimos a “aderir“ ao levante, mas ele iniciado, os mais reticentes em recuar e, depois, os seus mais destacados mártires.

O frágil governo nascido da revolução de novembro que derrubou o kaiser retomava a iniciativa, apoiado no deslocamento de tropas disciplinadas vindas do interior do país, e poupadas do acelerado processo de radicalização que o clima de agitação das massas operárias de Berlim provocava. As “jornadas de julho“ da primeira vaga da revolução alemã se encerravam com a decapitação do emergente movimento revolucionário no mais decisivo país da Europa. O paralelo histórico parece quase irretocável. Na Rússia, Lenin conseguiu se refugiar a tempo na Finlândia, e Trotsky e outros, embora presos, tiveram suas vidas poupadas. A burguesia alemã não iria cometer o mesmo erro da russa. Não se deixou surpreender. As lideranças espartaquistas foram vítimas de uma repressão implacável que se abateu sobre um levante que não dirigiam, que não tinham convocado, de cujas reivindicações discordavam, mas que se sentiram obrigados a acompanhar e defender, por solidariedade de classe.

A analogia que sugerimos pretende realçar que, na seqüência de revoluções democráticas de “tipo fevereiro“, uma metáfora histórica que remete à revolução que derrubou o czar em 1917, como foi o 9 de novembro na Alemanha, é comum que ocorram situações de intensa agudização na luta de classes. Nessas circunstâncias, acontecem testes de força entre as classes em conflito. Setores mais radicalizados entre os trabalhadores e a juventude se lançam a um confronto aberto, invariavelmente prematuro, sem considerar que, no conjunto da classe trabalhadora e/ou no conjunto do país, existam condições efetivas para lutar pelo poder. Ou para preservar o poder se, eventualmente, vitoriosos em um primeiro momento. Foi isso que ocorreu, também, em Berlim, nos primeiros dias de janeiro de 1919.

Este episódio confirma que a contra-revolução aprende as lições dos processos revolucionários precedentes: a liquidação física de Rosa era vital para neutralizar o crescimento da influência dos comunistas, que se beneficiavam diretamente do impressionante prestígio da Revolução de Outubro entre os trabalhadores.

O que justifica que nos perguntemos as razões pelas quais ela e Liebknecht não tenham sido retirados mais cedo do cenário conflagrado de Berlim. A resposta mais plausível é que inexistiam condições organizativas de emergência para fazer o translado. Esse fato, cujas conseqüências políticas para o futuro da revolução alemã se demonstraram irreparáveis devido ao peso qualitativo e único da personalidade de Rosa na direção dos espartaquistas, fala por si só das fragilidades do espartaquismo e do perigo da improvisação em situações revolucionárias.

(1) Partido Social-Democrata Alemão.
(2) Partido Social-Democrata Alemão Independente
(3) Grupo de Rosa Luxemburgo
(4) Noske era membro do SPD, responsável pelos Freikorps, grupos de paramilitares alemães.
(5) Partido Comunista Alemão
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