A revolução encurrala regime sanguinário de Assad

A guerra civil chegou ao centro de Damasco. Os combates tinham se limitado aos bairros periféricos com algumas escaramuças na capital síria. No momento em que escrevemos estas linhas, o exército do ditador Assad bombardeava, com alguns bairros da capital (como Al Tadamon, Naher Aisha, Midan, Kafar Suse e Zahera), zonas que tinham sido imunes até agora aos confrontos armados. A luta entre os rebeldes do Exército Sírio Livre (ESL) e os leais ao regime, comandados por Maher Al Assad, irmão mais jovem do ditador, é casa por casa e rua por rua.

O Conselho Nacional Sírio (CNS), principal órgão da oposição, emitiu um comunicado: “A revolução ganha terreno e o cerco se estreita sobre o regime que, inclusive ali onde se sentia seguro, está ao alcance da ira do povo” (El País). No dia 13 de julho ocorreu uma série de manifestações populares em Damasco. A palavra de ordem era: “Abaixo Kofi Annan servo de Assad e do Irã!”. A nota foi fornecida pelos palestinos do acampamento de refugiados de Yarmuk, que se somaram pela primeira vez de forma massiva aos protestos.

A luta é encarniçada em todo o país. Os rebeldes dizem que existe uma mudança brusca na situação, que estamos diante da “ofensiva final”. Também há combates em Qusayr e Aleppo (segunda cidade do país), onde as universidades foram tomadas pelo movimento estudantil e se realizam grandes manifestações, algumas no marco de funerais dos mártires, com o lema: “Uma revolução para todos os sírios”.

A Síria é um dos epicentros do processo revolucionário que estremece o Norte da África e o Oriente Médio. Não só isso: é um dos pontos mais altos da luta de classes a nível mundial. O conflito, para maior intranquilidade do imperialismo e das burguesias árabes, está se estendendo ao Líbano. Nesse país se registram confrontos armados há semanas, sobretudo na cidade de Trípoli, entre os simpatizantes da revolução síria e os defensores do regime Assad (até essa data o ditador sírio era apoiado pelo Hezbollah).

O regime começa a se corroer…
Assad parece estar cada vez mais isolado. Sua base social começa a ruir. Não só setores refugiados palestinos começam a retirar seu apoio, como também já se pode perceber a defecção de setores da burguesia pertencentes à minoria Alauíta, um ramo do islã ao qual pertence o clã Assad.

Abdel Halim Khaddam, ex vice-presidente até final de 2005, comentou com preocupação que existem rumores de conformar um “Estado Alauíta” diante de um possível triunfo da revolução. Não é pouca coisa. Se os Alauítas perderem a confiança no regime, Al Assad ficaria sem chão sob seus pés.

No Exército, as deserções aumentam em quantidade e qualidade. No dia 7 de julho, desertou Manaf Tlass, um general sunita do regime. O general Tlass, comandante da Brigada da Guarda Republicana (guarda pretoriana de Assad) negou-se a atacar Homs (província onde o general nasceu) e fugiu para Turquia junto com outros 23 oficiais subalternos.

Outro general, que não foi identificado para não expor a sua família que permanece na Síria, também desertou para Turquia, onde chegou com 85 soldados armados. Dias antes, um piloto de combate fugiu para a Jordânia com seu avião MIG.

Estas deserções somam-se a outras registradas desde que começou o processo revolucionário, em particular as 39 ocorridas no dia 24 de junho, quando um general, dois coronéis, dois comandantes, um tenente e 33 soldados atravessaram a fronteira com Turquia, país onde residem mais de uma dezena de generais que se uniram ao ESL.
Também o embaixador sírio no Iraque, Nawaf a o-Fares, desertou e se converteu na primeira figura da diplomacia de alto escalão que deixou o governo.

…mas o banho de sangue continua
O regime de Assad, porém, sobrevive e continua reprimindo sanguinariamente a luta armada do povo sírio. Pelo menos 17.129 pessoas foram mortas desde que começou a revolução, segundo informou o Observatório Sírio para os Direitos Humanos. A mesma entidade anunciou que 4.681 pessoas morreram desde o suposto “cessar fogo” acordado por Kofi Annan, mediador da ONU.

Em um recente discurso, além de repetir que os rebeldes são grupos “terroristas financiados pelo exterior”, Assad se comparou com um cirurgião que realiza uma operação de emergência para salvar a vida de um paciente e que, por isso, tem sangue nas mãos: “Quando um cirurgião faz cortes, limpa e amputa, a ferida sangra. Alguém lhe diz que suas mãos estão manchadas de sangue? Somos obrigados a salvar o paciente”.

Um povo heróico e decidido a lutar
No entanto, a repressão brutal que desencadeia o regime não desanimou o povo em sua luta armada. Os rebeldes parecem ter consciência de toda sua dificuldade e estão preparados para enfrentar uma luta longa e desigual. Os bombardeios já fazem parte do cotidiano. Em Homs, reduzida a ruínas, 70% dos edifícios têm sido destruídos ou danificados. “Nossa gente está mais forte que antes. Temos aprendido a sofrer”, explica Abu Zuz, comandante de uma brigada do ESL.

A política do imperialismo
O imperialismo, que inicialmente apoiou a ditadura síria, agora quer retirar Assad do governo. Isto é um fato. Mas não deseja sua saída pelo fato de Assad ser supostamente um “antiimperialista”, como continuam afirmando as correntes políticas castro-chavista. Muito menos por razões humanitárias. Promove a saída de Assad porque este se converteu em um elemento desestabilizador na Síria e na região.

O fato é que Assad já não cumpre com sua tarefa de conter e derrotar a luta das massas. Não cumpre com o principal interesse que tem o imperialismo neste momento: derrotar o processo revolucionário na Síria e todo Oriente Médio.

O imperialismo quer retirar Assad do governo antes que as massas armadas o derrotem por meio de sua ação revolucionária, como sucedeu na Líbia, para assim poder salvar o essencial do regime sírio e avançar na estabilização do país e da região.
Nesse quadro, o menos provável no momento é uma intervenção armada do imperialismo. Não porque não queira o fazer, mas sim porque não tem condições políticas devido a uma combinação de elementos como a derrota militar no Iraque e no Afeganistão, a crise mundial, as eleições nos Estados Unidos e a oposição da Rússia e China.
Os fatos indicam que o imperialismo está aplicando uma táctica diferente da que usou na Líbia. Está tentando uma saída política negociada, apelando fortemente para o desgaste econômico e diplomático.

A principal opção das potências imperialistas é por uma saída do tipo Iêmen, que significa destronar Assad, mas lhe garantindo impunidade por seus crimes para depois transferir o poder a algum personagem de sua camarilha e assim manter o essencial do regime.

Nesta política, ganha destaque a nova táctica do “Grupo de Ação para a Síria”, de conformar um “organismo de transição governamental” que abarque membros do atual governo e incorpore membros da oposição. O documento final foi assinado em Genebra pela ONU, EUA, França, Reino Unido, União Europeia, União Árabe e Turquia. Rússia e China, até o momento, fiéis do regime sírio, também subscreveram a proposta, mas deixaram claro de que não apoiam uma saída de Assad.

Até o momento, a oposição liderada pelo CNS, a cúpula do ESL e os Comitês de Coordenação Locais recusaram qualquer proposta de conformar um novo governo com Assad ou com algum personagem de seu regime.

Uma direção revolucionária é urgente
Para a LIT-QI (Liga Internacinal dos Trabalhadores – Quarta Internacional), tanto na Síria como nos demais países da região, o principal problema para que essas revoluções triunfem e avancem até a tomada do poder pelos trabalhadores é a falta de uma direção revolucionária, operária e internacionalista.

O problema da direção é fundamental. Concordamos com Lênin quando afirma que: “A guerra civil é uma guerra. Nesta guerra, o proletariado deve ter bons quadros políticos e um bom Estado Maior político dirigindo todas as operações no conjunto do campo de ação”.

No caso da Síria, a principal direção da oposição a Assad é o Conselho Nacional Sírio (CNS), uma instância burguesa composta por empresários liberais, ex-membros do próprio regime atual e a Irmandade Muçulmana. A direção do ESL é também burguesa, cheia de antigos oficiais do regime de Assad. Ambos os órgãos são, ademais, pró-imperialistas: clamam por uma intervenção armada do imperialismo.

Sustentamos que o povo sírio não deve nem pode confiar nessas direções, que por seu próprio caráter de classe acabarão traindo de forma inevitável todas as legítimas aspirações populares, não só as econômicas, mas também até aquelas que têm que a ver com as mais básicas liberdades democráticas.

Na Síria, aparentemente, o setor mais progressivo organiza-se nos chamados Comitês de Coordenação Locais. Nestes comitês se decidem e organizam as lutas.
Sem romper a necessária unidade de ação entre todos os setores do campo rebelde, nos parece fundamental que esses comitês locais se conformem como uma alternativa de direção para toda a luta contra o regime.

Qual é a saída?
A LIT reitera seu decidido e firme apoio à revolução síria. Nossa consigna central é: “Fora Assad! Não à intervenção imperialista!”

Estamos pela queda de Assad e de mãos dadas com as mobilizações populares e pela luta armada das massas. Essa é uma tarefa fundamental da revolução. Neste sentido, mantendo a independência política da classe trabalhadora, estamos pela mais ampla unidade de ação militar com todos os setores que estão lutando concretamente contra a ditadura síria, inclusive com os burgueses pró-imperialistas do CNS e o comando do ESL, para conquistar a derrubada de Assad e a liquidação de seu regime contrarrevolucionário.

Nesse processo de luta ampla e unitária contra o regime, nos localizamos dentro do campo militar rebelde. Mas devemos combater essas direções traidoras e construir a indispensável direção revolucionária e internacionalista que o processo precisa para avançar.

A divisão das Forças Armadas deve ser ampliada. É urgente conformar milícias armadas auto organizadas a partir de conselhos populares democráticos.

Neste sentido, a LIT-QI reivindica plenamente o direito e a necessidade que tem o povo sírio de se armar para prosseguir sua luta contra Assad. Neste momento não existe outro caminho. O povo sírio, como o líbio, deve avançar em sua organização e em seu armamento como única garantia de vitória.

É fundamental impulsionar amplas campanhas internacionais e lutas unitárias de apoio à revolução síria, exigindo a ruptura imediata de todos os governos com o assassino Assad.
Post author Ronald León Núñez, da LIT-QI
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