Retrospectiva 2009: Obama da mudança à crise

Há um ano, a maioria da população dos Estados Unidos comemorava efusivamente a eleição do primeiro presidente negro da história do país. A eleição de Barack Hussein Obama também foi acompanhada de grande excitação fora do país. Afinal, diziam muitos na ocasião, a vitória de Obama era um sinal da “mudança dos tempos”, de um Estados Unidos menos racista e beligerante, mais tolerante e democrático. Um ano depois, muitos amargam uma grande decepção.

Obama foi eleito na esteira das derrotas acumuladas por George W. Bush nas guerras do Oriente Médio, aprofundada pela crise econômica que estourou no final de seu mandato. Bush era a figura odiada do imperialismo. Em quase todos os cantos do mundo era recebido por imensas demonstrações de repúdio. Poucas vezes na história os povos de todo mundo compartilharam de um único sentimento de ódio ao imperialismo. Mas essa consciência antiimperialista refluiu quando a burguesia norte-americana trocou o odiado Bush pelo sorriso de uma figura identificada com os setores oprimidos. Por trás do presidente negro, entretanto, escondia-se o máximo defensor do capitalismo imperialista. Obama foi eleito para dar um novo fôlego ao capitalismo e garantir a hegemonia dos EUA na partilha das riquezas do mundo.

Crise e desemprego nos EUA
Obama começou seu governo entregando trilhões a banqueiros e empresários falidos. Foram US$ 787 bilhões de dólares logo após sua posse. Posteriormente adotou meditas de “estatização das dívidas” do sistema financeiro, comprando os títulos podres nas mãos dos bancos. Após a quebra de parte do sistema financeiro e a recessão econômica, a economia norte-americana voltou a crescer no terceiro trimestre deste ano, mas o desemprego continua estabelecendo recordes.

Em outubro, 16 milhões de pessoas vagavam desempregadas pelas ruas dos EUA. É a mais alta taxa de desemprego desde 1983, atingindo 10,2% da população. No entanto, o número chega a 17,5% quando são contabilizados os trabalhadores que deixaram de buscar emprego ou foram obrigados a aceitar trabalhos precários em tempo parcial. Em alguns estados decisivos, como a rica Califórnia, Illinois, Michigan, o desemprego já supera os 20%. Além disso, muitos perderam suas casas após terem suas hipotecas executadas pelos bancos.

O socorro aos capitalistas falidos aumentou ainda mais o gigantesco déficit dos EUA, que hoje é de US$ 1,6 trilhão, o equivalente a 11% do PIB do país. O déficit é uma bomba relógio da economia norte-americana e seu financiamento é realizado pelos países do mundo inteiro, que compram os papéis (títulos) do tesouro norte-americano. Atualmente, a China tem um peso essencial nesse tipo de investimento. Mas quando o banco central dos EUA (Fed) imprime dólares para bancar a ajuda de Obama aos capitalistas, é o mundo quem garante o lastro dessa montanha de papel. Assim, os rumos da economia norte-americana carregam o destino do conjunto da economia mundial (ver artigo página 6 e 7).

Mas, se por um lado, Obama ajudou como nunca os capitalistas de seu país, por outro, foi o fiador um acordo que representou um ataque histórico contra os direitos da classe operária norte-americana. Para conceder um bilionário pacote de ajudas às montadoras Chrysler e GM, Obama exigiu das empresas demissões e rebaixamento de salários, reduzindo custos para tornarem-se mais rentáveis. O histórico ataque aos trabalhadores foi consumado com o apoio da UAW (United Auto Workers), que acabou se tornando um dos maiores acionistas dessas companhias.

Novo rosto do imperialismo
A política de Obama representa uma mudança em relação ao seu antecessor na tática do imperialismo para enfrentar a situação mundial e a luta das massas. Democratas e republicanos defendem com unhas dentes os interesses imperialistas, mas sob a figura de Obama o imperialismo tenta aplicar sua política de dominação de forma mais “negociada”, através de “consenso” e com o auxílio de instituições “multilaterais” como ONU, OTAN, OEA, entre outras. Obama é obrigado a defender os mesmos interesses sociais, políticos e históricos de Bush, mas os defendem com métodos mais democratizantes. Obama apela para mecanismos da democracia burguesa, como tática privilegiada para tentar desviar e derrotar os processos revolucionários e a luta das massas. Essa política de “reação democrática” tem uma importante colaboração na figura dos presidentes ditos de “esquerda” da América Latina, especialmente em Lula. Todos os presidentes do continente têm um lugar na mesa da atual política imperialista. Mas Lula, por sua origem e prestígio, oferece a mais importante disposição em colaborar com o imperialismo, seja para encaminhar uma série de processos revolucionários para a via morta da democracia burguesa, seja para fortalecer o domínio econômico das multinacionais ianques, ou até mesmo em colaborar militarmente com os EUA, como se evidência no Haiti ou na fraca oposição do governo brasileiro à instalação de bases militares norte-americanas na Colômbia. Não é por acaso que Obama se referiu a Lula como “o cara” num encontro de líderes do continente.

Contudo, ao mesmo tempo em que fala sobre “consenso”, o imperialismo de Obama não reluta em mostrar os dentes e não descarta a via da ação militar.

Vietnã de Obama
Em nenhum outro lugar, a crise de Obama é maior que no Afeganistão. Depois de meses de impasse, a Casa Branca definiu sua nova estratégia para a guerra no país. A nova estratégia envolve o envio de 30 mil novos soldados para o front nos próximos oito meses. Com isso, o efetivo das tropas ocupantes aumentará para 100 mil soldados. O envio de mais tropas vem em socorro do Paquistão, em auxílio do governo local a estabilizar seu país. Também servirá para ajudar o frágil governo do Afeganistão, evitando que Taleban derrube o presidente Hamid Karzai.

Neste ano, as baixas das forças de ocupação não pararam de crescer. O número de militares estrangeiros mortos na frente afegã chegou a mais de 445, incluindo 277 soldados americanos.

Cada vez é maior a impressão que a guerra de Obama pode ter o mesmo significado para o atual presidente que a guerra do Iraque teve para Bush. Hoje, a grande tarefa do povo afegão é expulsar as tropas imperialistas de ocupação e conseguir a verdadeira independência nacional do seu país.

Bases e golpes
Já na América Latina, graças ao lacaio governo colombiano de Álvaro Uribe, Obama avançou no Plano Colômbia com um acordo que permitirá bases militares norte-americanas no país. Dessa forma, o imperialismo poderá intervir de forma mais direta no conflito contra as Farc, além de ter maior ingerência sobre a região amazônica, uma zona estratégica em razão de sua biodiversidade e dos recursos naturais.

Em Honduras, a tática de “diálogo” do imperialismo, impediu que Obama apoiasse o golpe que derrubou Zelaya. Contudo, os EUA participaram ativamente das negociações de um acordo (aceito por Zelaya) que garantia a impunidade dos golpistas e abandonava o chamado a uma Assembleia Constituinte – uma das aspirações mais sentidas do povo hondurenho. Zelaya pensou que poderia voltar à presidência com esse acordo, mas logo foi descartado pelo Departamento de Estado ianque que reconheceu as eleições realizadas no país no último dia 29.

Desgaste interno
Fora dos EUA Obama tem mais popularidade do que dentro de seu próprio país. Internamente ele amarga uma expressiva piora de seus índices de popularidade, hoje abaixo dos 49%. Para aumentar a crise, no início de novembro os democratas – partido de Obama – perderam as eleições em dois importantes estados: Nova Jersey e Virginia. Seria uma visão simplista imaginar que derrota dos democratas apenas contou pontos para os republicanos. Um articulista do jornal The Wall Street Journal lembrou muito bem que ainda há na atmosfera do país elementos de uma crise do regime. Segundo ele, “os eleitores norte-americanos estão absoluta e totalmente desgostosos com os dois partidos políticos (…) os eleitores estão desesperados por uma liderança política”. (Daniel Henninger – 6/11).

E foi justamente o “desgosto com os dois partidos” que a campanha de Obama tentou aplacar sob o slogan da “mudança”. Mas a tentativa de renovar a democracia burguesa do país, reanimando o velho regime bipartidário, mostra agora suas limitações.

Saúde nos EUA e a proposta de Obama
A discussão sobre o sistema de saúde norte-americano é hoje um dos principais debates do país. A atual proposta de Obama não só é alvo de ataques da direita reacionária, como também provoca a frustração de milhões que esperavam uma mudança estrutural para o setor.

O sistema de saúde norte-americano é considerado o mais caro e o menos eficiente de todo o mundo. O gasto em saúde representa 16% do PIB, maior do que qualquer outro país imperialista. No entanto, o país está em 37º lugar em qualidade de atendimento segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Os norte-americanos dependem única e exclusivamente dos planos privados. Apenas dez companhias de seguro privado controlam quase 70% de todo o mercado. Mais de 46 milhões de pessoas não têm nenhum plano de saúde. Caso fiquem doentes, precisarão vender seu carro ou hipotecar a casa para pagar as contas do hospital.

As seguradoras privadas detêm um poder gigantesco e financiam as campanhas eleitorais dos políticos do Congresso norte-americano, o que explica porque democratas e republicanos são contrários a qualquer profunda mudança no sistema.

Havia, contudo, muita expectativa de que Obama enfrentasse o poderoso lobbie das companhias privadas e apresentasse uma proposta universalizando o atendimento público de saúde como prometeu em sua campanha. Mas o presidente logo cedeu às pressões no Congresso e apresentou uma proposta muito mais recuada na qual reduz o grau de intervenção estatal no setor. Obama propõe agora criar apenas um convênio estatal que competirá com as privadas, cujo objetivo é reduzir os custos e garantir um seguro mínimo para os norte-americanos. Ou seja, a promessa de Sistema Público de Saúde com cobertura universal foi completamente abandonada.

Críticos da proposta de Obama dizem que ela poderá favorecer potencialmente as seguradoras privadas que economizariam dinheiro mandando pacientes caros para o convênio público. Algo que lembra uma velha deficiência bem conhecida no SUS brasileiro. Além disso, o próprio Obama reconheceu que esse modelo ainda deixará sem convênio pelo menos 15 milhões de pessoas.

O recuo de Obama em abrir mão da chamada opção pública, fez com que até a revista Business Week escrevesse que “qualquer reforma que promova o Congresso neste ano acabará ajudando em lugar de prejudicar às grandes empresas seguradoras”.

Esperanças fraudadas
As decepções acumuladas nestes primeiros meses de mandato enfraqueceram Obama, produzindo um cenário bem diferente de um ano atrás. A vitória do democrata expressou de maneira deformada a vontade do povo norte-americano de se livrar dos horrores das guerras, do fantasma do desemprego, da crise social e da falta de saúde pública. Fica cada vez mais evidente que essa vontade foi fraudada pela armadilha do candidato da “mudança”. Por trás das ilusões, havia uma cruel realidade de um Obama apoiado por Wall Street e defensor de uma guerra genocida no Afeganistão.

A crise econômica e social dos EUA não terminou e sequer tem algum prazo para acabar. Resta saber agora se o proletariado norte-americano – protagonista de extraordinárias lutas desenvolvidas no passado – vai reagir aos novos ataques e se enfrentar com Obama.