Retorno do Ministério das Comunicações pode indicar mais do que parece

Recriação do ministério não estava no radar do governo e afeta diretamente a ala militar

Na última semana, Bolsonaro anunciou a recriação do Ministério das Comunicações e a nomeação de Fábio Faria (PSD-RN) para comandar a pasta. O deputado é genro de Silvio Santos e não demorou para que a internet logo apelidasse o SBT de “Sistema Bolsonarista de Televisão”.

Com a recriação, Bolsonaro contradiz uma de suas promessas de campanha de manter em seu governo apenas quinze ministérios. Numa transmissão ao vivo um dia depois do anúncio, Bolsonaro se justificou dizendo que havia exagerado na época e que seria impossível, num país continental como Brasil, governar com poucos ministérios.

Aproximação com o centrão

A motivação mais evidente para a recriação do ministério é a criação de cargos e controle de verbas para distribuir entre aliados políticos. Como se diz, é o velho toma-lá-dá-cá. Num momento em que cresce a desaprovação do governo, a economia míngua sob pandemia, os escândalos de corrupção, as investigações e os pedidos de impedimento aumentam, o presidente tenta se agarrar ao que pode para se safar.

Porém, para Bolsonaro, que sempre disse que jamais faria esse jogo, uma decisão como essa não soaria muito bem. Por isso a escolha de Fábio Faria passou ao largo de Gilberto Kassab, dono da legenda e que já foi ministro das Comunicações no governo Temer. Dissimulado, Bolsonaro disse sequer lembrar de qual partido Fábio era ao indicá-lo.

Fábio Faria, novo ministro das Comunicações

A indicação por fora do cacique do PSD garante a Bolsonaro a tranquilidade para dizer que “não negociou com o centrão” ao mesmo tempo em que tenta amarrar o PSD ao governo. Kassab, que é um oportunista de longa data, lava as mãos e, de forma muito conveniente, finge que não é com ele.

Fábio Faria inclusive é visto pelos seus pares como uma pessoa moderada. Por comodidade ou por simples interesse eleitoral, é fato que Faria votou em Lula e Dilma embora tenha votado a favor do impedimento em 2016. O gesto de Bolsonaro ao nomeá-lo é um sinal para Rodrigo Maia (que atualmente é quem protege Bolsonaro dos pedidos de impeachment) e também para a grande imprensa, com a qual Bolsonaro não tem a melhor das relações.

 

DESGASTE
Recriação de ministério pode indicar incomodo com militares

Sob Bolsonaro, o Ministério das Comunicações volta a existir, mas como novas atribuições. Historicamente, sempre coube à pasta a regulação sobre as empresas de telefonia, de internet e de assuntos relacionados às concessões de rádio e TV. A novidade aqui é o fato de que a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), responsável pela propaganda do governo, vai passar para o ministério.

A passagem da Secom, comandada por Fábio Wajgarten, para o ministério a desloca da Secretaria de Governo, que tem o general Luiz Eduardo Ramos à frente. A Secom também está no centro de uma disputa entre a ala militar e o chamado Gabinete do Ódio, de Carlos Bolsonaro. Por um lado, há tempos que Carlos pressiona para que a comunicação do governo assuma a linha das fake news e do discurso de ódio contra qualquer um que não apoie o governo. Vale lembrar que Carlos foi o protagonista da saída do general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que antecedeu o general Ramos na Secretaria de Governo.

Por outro lado, o general Braga Netto, da Casa-Civil, vinha desenvolvendo ações de comunicação paralelas às da Secom, numa tentativa de contornar a interlocução caótica do presidente com a imprensa durante a pandemia. Para o núcleo duro do bolsonarismo, foi uma tentativa de esvaziar a Secom. A passagem da Secom para o Ministério das Comunicações afeta ainda outros dois generais que podem perder o cargo: Rêgo Barros, porta-voz do governo, e Luiz Carlos Pereira Gomes, presidente da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). A movimentação de Bolsonaro, portanto, pode ser vista também como um recado à ala militar que tenta tutelar Bolsonaro em seu governo.

 

MUDA O FOCO
Bolsonaro quer sair da mira de investigações

Bolsonaro não quer apenas fazer um gesto para Rodrigo Maia e mandar um recado para os militares. Com a recriação do Ministério das Comunicações, ele quer também se esquivar de investigações como as da CPI das Fake News. Embora a mudança não afete em nada o Gabinete do Ódio de Carlos Bolsonaro, a CPI vinha apontando irregularidades na propaganda do governo, que chegou a pagar por publicidade até em sites pornográficos segundo o relatório da comissão. Em maio, o Tribunal de Contas da União (TCU) também havia apontado irregularidades nas propagandas do governo. Não à toa, Bolsonaro decide abrir mão da Secom uma semana depois de divulgado o relatório.