Quando o samba perde a elegância de Walter Alfaiate

Walter Alfaite: foto de capa do disco Tributo a Mauro Duarte

O sambista Walter Alfaiate morreu aos 79 anos de idade, no dia 27 de março, partindo quase anônimo e deixando mais de 200 sambas e um rastro de saudadePara um bom conhecedor de samba, não era difícil reconhecer esse grande baluarte pelas rodas e shows no Rio de Janeiro. Ele ficou famoso por sua elegância e pelos sambas imortalizados em sua voz e nas gravações de outros compositores como Paulinho da Viola.

Nascido e criado em Botafogo, assim como Paulinho da Viola e diversos sambistas, numa época em que eram comuns os shows ao vivo em vários bares da cidade, Walter Alfaiate viveu a simplicidade e a musicalidade do bairro durante muito tempo freqüentando botequins, gafieiras e as rodas de samba.

“Botafogo não é mais o mesmo. Os bares viraram oficinas mecânicas. Eu costumo dizer que se ganhasse um bom dinheiro não moraria na Barra, porque é um local que não tem um boteco pra pessoa ‘bater um papo´, pedir uma cerveja, cantar um samba. E botafogo está ficando assim”, diz. “Na rua Rodrigo de Britto, tinha um bar chamado Fofoca que os sambistas frequentavam no final da noite pra bater papo e cantar. Paulinho da Viola apareceu por lá várias vezes. Também tinha o Leonel Azevedo que fazia valsa. Enfim, o pessoal tocava violão, cantava e quando percebia já tinha amanhecido”, lembrava com saudade.

Alfaiate por vocação, o que lhe rendeu o apelido dado por Sergio Cabral pai e Paulinho da Viola, aprendeu o ofício aos quatorze anos e seguiu nele para criar seus três filhos já que a profissão de músico, para ele, trazia muitas incertezas e se dizendo um apaixonado pelo ofício nunca abandonou a profissão enquanto realizava seus shows noturnos. Costurando roupas para vários artistas famosos, manteve uma alfaiataria em sua casa em Botafogo, depois quando morou na Lapa e por último em Copacabana onde residiu até a morte.

Walter de Abreu Nunes nasce em 1930 e junto com a vocação para a costura trazia toda a magnitude do samba. Autodidata, dono de uma voz lindíssima, desde a infância começou suas composições para blocos de carnaval como Foliões de Botafogo e São Clemente. No final da década de 50 já cantava no então famoso bar Bolero em Copacabana onde ficou conhecido por Walter sacode por interpretar com maestria o samba “Sacode Carola” de Hélio Nascimento e Alfredo Marques. Nos anos seguintes freqüentava assiduamente as rodas de samba do Teatro Opinião fazendo ainda parte dos grupos Reais do Samba e Samba Fofo que se destacavam. Só foi descoberto em 1970 quando Paulinho da Viola gravou três de seus grandes sucessos: “Coração Oprimido”, “A.M.O.R.Amor” e “Cuidado, Teu Orgulho Te Mata”.

“A.m.o.r amor
Aprendi soletrar, amei
Chorei sem aprender com ninguém
Quem aprende a amar, aprende a chorar também”

Teve, além de Paulinho da Viola, gravações por João Nogueira nas músicas “Bate Boca” e “Sorrir de Mim”. Elza Soares e Cristina Buarque gravaram a música “Violão amigo”.

Imprescindível e esquecido pelas gravadoras
Um talento descoberto tardiamente e que nunca foi reconhecido pelas gravadoras e as mídias, Walter Alfaiate, como boa parte dos melhores sambistas, foi um exemplo de profissionalismo, dedicação à cultura e a musicalidade popular chegando a mais de 200 sambas gravados.

Sobre a paixão pelo samba: “O samba me faz bem. Quer me ver satisfeito é numa roda de samba com cavaquinho e violão. Samba tem tudo isso: S de saúde, A de amor, M de mulher, B de bondade e A de amizade”, falava brincando.

Só conseguiu gravar seu primeiro disco quando já tinha 54 anos de samba e 68 de idade de forma independente. Com isso surge uma grande história. Walter Alfaiate demorou 30 anos para cumprir uma promessa feita aos amigos Mical e Miúdo: gravar uma música deles em seu primeiro disco. Quando conseguiu, Miúdo já havia morrido, mas Mical pode ver o CD com o nome da faixa deles. Uma belíssima música chamada “Olha aí”.

Olha aí,
Toda a minha gente reunida!
Parece que está bem decidida
e que atingiu o seu ideal!

Olha aí,
Veja a euforia, como é grande!
Note como o pessoal se expande,
Num gesto tão humilde e leal.

Cante com vontade minha gente!
Porque hoje já é carnaval!

Em cada bloco havia um estandarte
Em cada estandarte um dizer
Simbolizando que, nesses três dias,
Ninguém se lembraria,
Como é o sofrer!

Após a batucada pela rua,
Quarta-feira a vida continua!

Esse primeiro disco só pode ser concretizado graças à ajuda de outro grande artista de nossa música popular. Como frequentava muitas rodas de samba, num almoço na casa de Clara Nunes conheceu Aldir Blank.

“Ele me ouviu cantando e me perguntou porque eu não gravava. Respondi que não tinha oportunidade, então ele afirmou: ‘Você vai gravar´. Eu guardei aquilo e realmente ele cumpriu sua promessa. O Aldir ficou tão inconformado por eu não gravar, que na época do jornal Pasquim publicou uma nota, que eu tenho guardado até hoje como relíquia, dizendo que não sabia porque eu não gravava, já que tinha uma voz formidável. Além do disco, participei com ele do show que comemorou os seus cinqüenta anos, no Canecão, no Rio”, contava emocionado.

O segundo e terceiro CDs de Walter Alfaiate também foram gravados de forma independente em São Paulo. O segundo disco, chamado Tributo a Mauro Duarte é uma homenagem ao amigo e grande parceiro de composições. Foi Mauro Duarte, um dos maiores compositores da Portela, que levou Alfaiate para a escola em 1982. Apaixonado definitivamente por Botafogo, outra grande homenagem ao amigo foi idealizar e realizar uma praça no bairro em seu nome. O local hoje é parte da movimentada agenda das melhores rodas de samba e choro do Rio de Janeiro.

Em 2009, depois de 65 anos dedicado ao samba, ele viu estrear o documentário Walter Alfaiate – A elegância do samba. Uma grande homenagem bem mais que merecida.

Walter Alfaiate sempre presente!
No último dia 27, um sábado de fevereiro, data em que ironicamente se comemorava o Dia Nacional do Idoso, Walter Alfaiate morreu aos 79 anos. Ele estava internado há dois meses e lutava contra um enfisema pulmonar e ineficiência cardíaca. Assim como ele, outros grandes sambistas vão partindo como quase anônimos diante da sociedade.

A falta de apoio dos governos à cultura popular e a total falta de compromisso das grandes empresas fonográficas fazem com que esses artistas tenham de viver com muitas dificuldades até o fim da vida. Foi assim com Alfaite, Luis Carlos da Vila, Camunguelo e tantos outros que encantaram cada roda de samba, que passaram e que deixam para sempre um rastro de saudades. Esses talentos citados estiveram presentes em vários eventos do DCE da UFRJ, da Conlutas e no Congresso Nacional dos Estudantes do qual tivemos a honra de cantar com Walter Alfaiate.