Qual a trincheira da CUT?

Sindicato dos Metalúrgicos do ABC repetem o mesmo argumento da GM para justificar demissões

Tem sido notícia em todo o país, o impasse surgido nas últimas semanas entre a GM de São José dos Campos e o Sindicato dos Metalúrgicos local, em face à ameaça da empresa de demitir mais de 1.500 trabalhadores e de fechar o setor da fábrica denominado MVA.
Recentemente as centrais Força Sindical, CTB, UGT, NCST e CGTB, divulgaram nota em que “repudiam a atitude da GM que pretende demitir 1,5 mil trabalhadores” e “se solidarizam com os trabalhadores e o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos”. A CTB e a Força Sindical enviaram representação a São José para prestar solidariedade.

Destaco, entre os apoios recebidos, a manifestação destas centrais por duas razões. Primeiro, porque nós (o Sindicato de São José e a CSP-Conlutas) temos com elas várias diferenças políticas importantes, o que realça ainda mais o simbolismo e a importância da solidariedade prestada. Em segundo lugar porque a manifestação delas destaca ainda mais o absurdo da posição adotada, até aqui, pelos metalúrgicos da CUT de São Paulo.

A CUT ainda não se manifestou oficialmente sobre o conflito estabelecido em São José. No entanto, a direção do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (SMABC ), o mais importante da central, e todo o setor metalúrgico da CUT de São Paulo, sim, se manifestaram. E se manifestaram contra o sindicato de São José. Nenhuma crítica à empresa! Seria do sindicato, segundo este setor, a culpa pelas demissões por não saber negociar com a empresa. É este o conteúdo de todas as manifestações da direção do sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté (SP) (filiado à CUT) e também é este o conteúdo da matéria publicada no “Tribuna Metalúrgica”, jornal do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em sua edição de 25 de julho de 2012.

O mais triste da situação é constatar a semelhança entre os argumentos usados por estes dirigentes sindicais cutistas, com os argumentos usados pela GM para criticar o sindicato de São José e tentar justificar as demissões. Parecem mais porta-vozes da empresa do que sindicalistas que deveriam defender trabalhadores. Sustentam que essa situação é gerada pela “inabilidade” do Sindicato em “negociar com a empresa”.

Subordinação do sindicato ao interesse das empresas
A GM tem em suas unidades instaladas no Brasil as mais lucrativas de toda a companhia no mundo. E a unidade de São José é a que assegura mais lucro para a companhia, respondendo por cerca de 35% do faturamento da GM em nosso país. Mesmo assim a empresa alega que é antieconômico seguir produzindo carros leves em São José dos Campos porque a mão de obra seria “muito cara”, os salários “muito altos”. Prefere produzir os veículos em unidades onde a flexibilização dos direitos negociada pelos sindicatos, tornaram a mão de obra “mais barata”.

Incrível que, num contexto como este, não haja unanimidade no movimento sindical em repudiar a posição da empresa. Sequer é verdade que o Sindicato tenha se negado a negociar como a empresa alega, referindo-se ao conflito que houve em 2008. Houve negociação e houve acordo naquela oportunidade. Apenas não foi o que a empresa queria. Tampouco foi o acordo que o Sindicato queria, mas este tratou de fazê-lo chegar o mais próximo que a relação de forças permitiu do que eram os interesses dos trabalhadores naquele momento. Não aceitou a flexibilização pretendida pela empresa.

Ao criticar a “falta de habilidade” do sindicato de São José em negociar, a direção do SMABC assume para si o critério da empresa, segundo o qual uma negociação bem feita, ou feita com “habilidade”, é aquela que atende as necessidades da empresa.
Trata-se da negação completa daquilo que já foi a CUT um dia, quando havia clareza que na negociação coletiva, o sindicato representa e defende os interesses dos trabalhadores. O interesse das empresas teria de ser representado e defendido pela Federação das Indústrias.

Reflexão
O SMABC foi um dos sindicatos que negociou a flexibilização dos direitos dos seus representados, tornando a mão de obra em sua base “mais barata”. Aliás, foi o sindicato precursor desta prática no país. Antes de criticar o sindicato de São José, os companheiros da CUT deveriam refletir: se os direitos dos trabalhadores não tivessem sido flexibilizados no ABC e em outras regiões, a GM (ou qualquer outra montadora) não poderia contar com esse recurso para atacar e chantagear os trabalhadores em São José (ou em qualquer outra base). Não estaríamos assim, todos os trabalhadores (e seus sindicatos) mais fortes para enfrentar a sanha de lucros destas multinacionais?

Instrumento das empresas para aumentar lucros
Uma matéria publicada no dia 31 de junho, pelo jornal “Valor Econômico”, informa como as empresas, particularmente as montadoras, adotaram como critério para definir o local onde farão seus investimentos, a presença de um sindicato dócil, disposto a aceitar o papel de colaborador da empresa para assegurar custos da mão de obra cada vez mais baixos.

A capacidade de “negociação” (melhor seria dizer, colaboração) dos sindicatos é “enaltecida”, como se isso fosse uma qualidade. Trata-se a eliminação, diminuição ou flexibilização dos direitos dos trabalhadores para “atrair investimentos” como se isso fosse algo desejável para a nossa classe.

Nada disso seria possível sem a cumplicidade e ajuda dos sindicatos, em particular dos sindicatos mais importantes do país. E de centrais sindicais como a CUT (das demais grandes centrais nunca se teve a expectativa de que pudessem ser um contraponto a essas ideologias patronais).

Quando as empresas conseguirem fazer chegar as condições de trabalho no Brasil ao “padrão chinês”, vão tratar de rebaixar o padrão na china ainda mais. Apenas para depois rebaixar novamente as condições aqui em nosso país. Trata-se de um círculo vicioso que não tem fim. A depender da ganância destas empresas, o trabalhador vai voltar a ser tratado como escravo, ganhando em troca do seu trabalho apenas o suficiente para se alimentar e continuar trabalhando.

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