Protesto com 120 mil jovens incendeia a França

Ato nesta quinta, 16 de março, em Paris

Depois dos automóveis queimados em novembro, onda de protestos contra projeto que permite demissões de jovens inaugura o março francêsUma onda de protestos contra o novo contrato de trabalho para jovens, proposto pelo governo, está varrendo a França. A fagulha que está fazendo a juventude francesa explodir em grandes manifestações foi a aprovação pelo parlamento francês de uma lei instituindo o Contrato do Primeiro Emprego (CPE), que facilita a demissão de jovens trabalhadores.

A proposta foi encaminhada pelo governo conservador de Villepin e permite a empresários demitir, depois de um período de dois anos de trabalho, qualquer jovem com idade até 26 anos sem que os patrões sejam obrigados a apresentar justa causa para a demissão. Um grande favor para os empresários, que contrasta com o enorme índice de desemprego entre os jovens do país. A França registrou, na última década, um desemprego de 10%, um dos maiores da União Européia. Entre os jovens recém-formados, abaixo dos 25 anos, a taxa é ainda maior, atingindo um total de 22%.

Março francês
No dia 8, cerca de 600 estudantes ocuparam a Universidade Sorbonne, símbolo das jornadas históricas do Maio de 1968. A manifestação foi violentamente reprimida pela polícia e teve repercussão nacional, detonando uma onda de protestos que se alastrou como um rastilho de pólvora. Dois dias depois, cerca de 100 mil estudantes (quase metade das universidades francesas) realizaram ocupações e protestos pelo país.

Na tarde dessa quinta-feira, dia 16, os estudantes franceses deram mais uma poderosa demonstração de força. Convocada por organizações estudantis e sindicatos, uma manifestação contra o CPE reuniu 120 mil pessoas em Paris, de acordo com os organizadores. A manifestação terminou com violentos enfrentamentos entre os jovens e a polícia. Bombas de gás lacrimogêneo foram atiradas contra as barricadas construídas pelos estudantes. A polícia tentou invadir a Sorbonne, mas os estudantes atiraram cadeiras pelas janelas. Dezenas foram presos pela polícia. Na manifestação, os jovens gritam “nosso destino não é a lata de lixo”.

De acordo com a imprensa francesa, quase a metade da 85 universidades do país continuam paralisadas ou semi-paralisadas, em função dos protestos. Uma nova manifestação está marcada para ocorrer no próximo dia 18. Tais jornadas de lutas podem ser as maiores desde o Maio de 68.

Setor mais oprimido
Junto aos trabalhadores “sem papéis” (imigrantes vindos das ex-colônias francesas), essa parcela da juventude francesa compõe o setor mais explorado do país. Tal situação levou jovens imigrantes e filhos de imigrantes a protagonizarem, em novembro e dezembro de 2005, uma impressionante rebelião nos subúrbios das principais cidades francesas, com centenas de carros incendiados a cada noite. Os protestos paralisaram o governo e indicaram uma profunda crise do imperialismo europeu.

Embora componha um setor distinto da juventude, pois a maioria dos atuais protestos é composta por universitários e secundaristas, as manifestações expressam um importante processo de luta contra o sistemático desmonte do chamado “Estado de Bem Estar Social”.

O governo direitista da França pretende, as custas dos direitos sociais, suprimir o déficit do Estado, implementando planos que destruam os atuais direitos da população, especialmente dessa parcela mais oprimida, para beneficiar um punhado de e especuladores e banqueiros.

O CPE também está nos marcos da consolidação da União Européia e de sua Constituição. O governo se vê obrigado a atacar de maneira contundente a população, depois que essa o derrotou, em um referendo no ano passado, na tentativa de implementar a Constituição Européia.

Nesse cenário, o CPE é mais um passo rumo ao objetivo de liquidar o atual modelo baseado nas relações trabalhistas estáveis asseguradas pelo atual Código Trabalhista francês. Pretende-se adotar um modelo no qual as relações trabalhistas sejam amplamente flexibilizadas. Para isso, Villepin encontra-se respaldado pelo FMI e pelos empresários do país. Mas os estudantes estão longe de desmontar suas heróicas barricadas. Os jovens da França deram mais um exemplo de capacidade de resposta e mobilização. Enquanto o governo direitista se mantiver intransigente, as pedras e coquetéis molotov continuarão nas mãos da juventude. Como em novembro, o março francês vai continuar a arder…