Por uma segunda independência do Haiti

Nesta terça-feira, 18, foi feriado no Haiti. Dia da Bandeira, lembrando a independência diante dos franceses, em 1804, após uma grande insurreição dos negros escravos do país. O presidente René Préval levou seu comício para a cidade costeira de Arcahaie, símbolo da independência, que ficou totalmente isolada. Ali discursou pela “reconstrução do país” e pediu “paciência” aos 1,3 milhão de atingidos pelo terremoto.

Até agora, os haitianos têm sido bastante pacientes. Seguiam nas ruas, aguardando uma ajuda que nunca chegou, apesar de toda a solidariedade dos povos do mundo. Visitei o país em abril e uma das coisas que mais me chamou a atenção foi isso. Como que em uma situação tão dramática, sem água, comida, sem absolutamente nada, com milhares de feridos e doentes, os haitianos ainda não tinham se levantado, protestado, se revoltado contra esse estado de coisas?

O presidente, a ONU e as multinacionais também devem se fazer a mesma pergunta. E é por isso que mantém as tropas de ocupação no país. As tropas estão lá porque o governo do Haiti sabe que o povo haitiano não vai suportar tanta miséria, tanto abuso e desrespeito por muito tempo. Não vão aguentar a hipocrisia disfarçada de solidariedade, como a de Bush, que foi capaz de limpar a mão após cumprimentar um haitiano.

As tropas estão lá para isso, para proteger os interesses dos capitalistas no Haiti. E o governo Lula cumpre um papel vergonhoso, ao liderar esta ocupação militar, ao fazer o papel sujo para os Estados Unidos. O governo usa a imagem positiva do Brasil e de seu povo para manter os haitianos sem poder decidir sobre seu destino. Isso em nome não só das empresas estrangeiras, mas também para garantir os interesses de empresários brasileiros, de olho na mão de obra e nas isenções fiscais para exportar aos EUA. Esse é o papel das tropas de Lula. Nós brasileiros devemos exigir o fim da ocupação, pois não é livre um povo que oprime outro povo. O Haiti precisa de ajuda humanitária, não de soldados.

Mas eles sabem que o povo vai se revoltar em algum momento e vai tentar inverter o estado de coisas em que se encontra o país. E que essa revolta vai se chocar diretamente com os interesses das empresas que estão lá instaladas, contra as maquiladoras da Zona Franca. Vai se enfrentar com os interesses dos EUA.

Isso está começando a acontecer. Nas últimas semanas, vimos os primeiros protestos após os terremotos. Neste Dia da Bandeira, na capital, protestos foram convocados, contra a demora na ajuda e a tentativa do presidente Préval de esticar seu mandato. Os haitianos foram impedidos de protestar. E, mais uma vez, as notícias não chegaram ao resto do mundo.

O Haiti está diante de uma encruzilhada histórica, de duas saídas. De um lado, a dos países ricos e suas empresas, que enxergam na “reconstrução” do país uma oportunidade para explorar a mão de obra dos negros haitianos, com salários de alguns dólares diários, só comparáveis aos da China. Os capitalistas imaginam o Haiti do futuro como um exportador de roupas e calças jeans, paraíso de empresas como a Levis, GAP ou mesmo as do vice-presidente José Alencar, empresário do setor téxtil.

Nesse cenário, o Haiti continuaria sendo um país completamente dependente, mais próximo de quando era uma colônia francesa. Os graves problemas sociais e a extrema miséria, que fizeram com que o terremoto provocasse tantas mortes, permaneceriam.

Mas há outro caminho, o de uma segunda e verdadeira independência para o país. Uma saída que não coloque o país governado pelas grandes empresas, mas pelos trabalhadores, com mudanças profundas, que resgatem o sentido da revolução negra, feita por seus ancestrais.

O debate sobre o destino do Haiti será parte das eleições deste ano. Dilma e Serra apóiam a presença das tropas e certamente estarão ao lado dos interesses das grandes empresas. Nós, do PSTU, defendemos a imediata retirada das tropas da ONU, e apoiamos a luta dos haitianos, como os recentes protestos. Defendemos uma segunda independência do país. Esse é o caminho para garantir que as futuras gerações haitianas vivam com dignidade e possam ser verdadeiramente livres.

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