Política, homossexualidade e racismo invadem o Oscar

Apesar de não ser uma referência obrigatória para o que deve ser visto no cinema, o Oscar 2006 traz uma série de filmes que merecem atenção não só pelos temas mas também pela qualidade.

Confirmando a tendência apontada pelas principais premiações dadas à produção cinematográfica de 2005, principalmente o “Globo de Ouro”, a lista de indicados pela Academia de Hollywood, o Oscar, traz uma série de filmes com temas geralmente “evitados” pela indústria cinematográfica norte-americana. O filme com maior número de indicações (oito) foi “O segredo de Brokeback Mountain”, uma comovente história de amor que acompanha 20 anos de dois “típicos” caubóis do meio-oeste norte-americano.

Dentre os outros concorrentes a melhor filme e, também, melhor diretor, estão filmes que, igualmente, tocam em temas não muito comuns nas listas da Academia.

Boa Noite e Boa Sorte, o primeiro filme dirigido por George Clooney toca num dos mais espinhosos temas da história norte-americana e, também, de Hollywood: a perseguição do Senador McCarthy a todo e qualquer um que questionasse o “modo de vida americana” (comunistas, homossexuais, liberais etc). Rodado num ousado preto-e-branco, o filme acompanha a história real de um âncora de TV que enfrentou o macartismo e pagou um altíssimo preço por isso.

Munique, de Steven Spielberg (5 indicações), toma como ponto de partida o atentado contra atletas olímpicos israelenses, em 1972, para fazer um polêmico mergulho no mundo da polícia secreta israelense, o Mossad, e seus métodos, que incluem seqüestros e assassinatos indiscriminados. (Nota:Aguardem uma crítica sobre o filme na próxima semana.

Capote, de Benett Miller (3 indicações), acompanha os métodos pouco ortodoxos – e eticamente questionáveis – utilizados por Truman Capote, um jornalista polêmico e assumidamente homossexual, utilizou para fazer a reportagem que garantiu seu lugar na história (“A sangue frio”). No filme, o jornalista é magistralmente vivido por Philip Seymour Hoffman, indicado a melhor ator.

Crash – No limite, de Paul Higgis, com seis indicações, bate de frente com o racismo que permeia todas as relações na sociedade norte-americana e faz com que a tensão racial possa explodir em violência a todo e qualquer momento.

Além disso, O jardineiro fiel, dirigido pelo brasileiro Fernando Meireles, que trata da criminosa utilização, pela indústria farmacêutica, de cobaias humanas na África, teve quatro indicações: atriz coadjuvante para Rachael Weisz, roteiro adaptado, trilha sonora original e edição.

E, entre os concorrentes a melhor filme estrangeiro consta o excepcional filme palestino Paradise Now que acompanha um dia na vida de dois jovens que se voluntariam para atuar como “homens-bomba” em Israel. Filme que, aguardem, será tema da página de cultura da edição 247 do Opinião Socialista.

O que há de excepcional neste Oscar?
A listagem de indicações chama a atenção pelo fato de que ela é feita por um corpo de votantes de 6 mil pessoas, composto por membros indústria do cinema e ex-premiados que, na sua maioria, tem um perfil bastante conservador. O que, de imediato, significa que muitos dos indicados mais “radicais” podem constar da lista, mas poderão sair da cerimônia, no dia 5 de março, sem nenhum prêmio ou com premiações secundárias.

De qualquer forma, mundo afora a crítica especializada que o simples fato destes filmes terem sido indicados evidencia que algo se passa no “Reino de Hollywood”. Um “algo” que só pode estar vinculado a uma coisa: o governo Bush.

O raciocínio é simples, e pertinente: Bush, com sua “cruzada” imperialista, conservadora e repressora, tem instigado a oposição inclusive dentre dos setores mais “amenos” da intelectualidade norte-americana (inclusive, dentro da indústria cinematográfica).

O fato é que, depois de alguns anos seguidos de premiações concentradas em “blockbusters” que consumiram milhões de dólares, a Academia decidiu concentrar suas premiações que além de temas “espinhosos” também tem em comum uma outra excepcionalidade no mundo de Hollywood: os baixos orçamentos. Entre os principais indicados a quase totalidade custou menos que US$ 30 milhões, o que é uma fabulosa quantia, mas uma verdadeira bagatela se comparados aos US$ 190 milhões gastos com “O senhor dos anéis”.

Também não é de se desprezar o fato de que “campões de bilheteria”, cheios de efeitos especiais e ocos em conteúdo, como “A guerra dos mundos” e as seqüências de Henry Potter e Star Wars tenham recebido apenas uma indicação, em prêmios ultra-secundários.

Para os que apreciam cinema e também acreditam que a “sétima arte” é muito mais do que diversão e pode ser um vigoroso instrumento de reflexão e crítica, o fato dos filmes mencionados terem sido indicados, sejam eles premiados ou não (o que é totalmente irrelevante) traz pelo menos uma boa notícia: é provável que isso eleve a curiosidade em geral sobre eles, fazendo com que eles atinjam um público mais amplo, o que por si só já é uma boa notícia.

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