Permanecer na UNE ou avançar na construção de uma nova entidade?

Uma polêmica com a esquerda da entidadeDesde o início do governo Lula, a União Nacional dos Estudantes se tornou uma agência do Ministério da Educação no movimento estudantil. De lá para cá, não foram poucas as oportunidades para a UNE demonstrar sua fidelidade canina para com o atual presidente, sempre se colocando em defesa do projeto neoliberal.

As cenas mais recentes dessa lamentável novela ocorreram no 51° Congresso da UNE, em Brasília. O ato de abertura no encontro nacional de estudantes do Prouni foi transformado num palanque eleitoral. Lula e Dilma Rousseff, ao vivo e a cores, puderam iniciar a campanha petista para a Presidência em 2010, demonstrando de forma ainda mais evidente a triste decadência política dessa histórica entidade. Coerente com o seu compromisso de defesa intransigente do governo Lula, a UNE se posicionou contra o “Fora Sarney” ou, em outras palavras, pelo “Fica Sarney”. O congresso também não aprovou nenhuma resolução capaz de armar a luta do movimento estudantil contra os principais ataques à educação e os efeitos da crise econômica.

Assim, o congresso da UNE em nada contribuiu para o avanço do movimento estudantil combativo e independente do governo. Na realidade, o evento serviu apenas para aprovar a política neoliberal do governo Lula aos olhos da população, cobrindo-a com um verniz de esquerda. Esse tem sido o triste papel da UNE.

Como todos sabem, nós, da juventude do PSTU, há alguns anos deixamos de participar dos fóruns da UNE e de dedicar nossos esforços à construção dessa entidade. Partimos de uma avaliação de que os caminhos que o movimento estudantil precisa trilhar não passam mais pela construção da UNE. Isso porque essa entidade perdeu completamente sua independência diante do governo Lula, se tornou cada vez mais burocrática e antidemocrática e é na prática um obstáculo à organização das lutas estudantis no país.

Por isso, estivemos com centenas de ativistas independentes e entidades estudantis no Congresso Nacional dos Estudantes (CNE) e estamos dedicando nossos esforços à construção da Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (ANEL), uma nova entidade nacional para o movimento estudantil brasileiro.

Sabemos, porém, que nossa posição não é consenso entre todos os lutadores. Ainda há aqueles que acreditam que a melhor maneira de organizar a luta contra o projeto neoliberal de Lula é através da atuação pela UNE.

Esse é um tema bastante polêmico no movimento estudantil. Por isso, queremos realizar um debate sincero com os companheiros da esquerda da UNE. Queremos debater e tirar conclusões práticas dos últimos anos em que estivemos atuando juntos na luta. A quem favoreceu a permanência dos companheiros na UNE? A quem favoreceu a postura dos companheiros de se negar a construir uma nova entidade nacional dos estudantes?

Como fortalecer a luta contra o projeto neoliberal?
Mesmo convencidos, pela dura realidade de fraudes e falta de democracia nos fóruns da UNE, de que não irão mudar seus rumos, os companheiros da esquerda dessa entidade seguem opinando que é necessário participar de seus fóruns. Por isso, a maior parte desses companheiros se negou a construir o CNE e não estão conosco na ANEL.

Já passa da hora de os companheiros tirarem conclusões sobre sua permanência na UNE. No que essa forma de atuação contribuiu para o enfrentamento com o projeto neoliberal do governo? O que somou mais para a construção e o fortalecimento das lutas do movimento estudantil? A participação no congresso da UNE ou a construção do CNE?
Essas perguntas possuem respostas. A verdade é que a permanência dos companheiros da esquerda da UNE na construção dos fóruns dessa entidade em nada contribuiu para o avanço das lutas contra o projeto neoliberal na educação. Nenhuma iniciativa de luta surgiu como consequência da atuação dos companheiros ali. Pelo contrário, sua presença nessa entidade a auxilia em sua vã tentativa de manter uma imagem de uma entidade ampla, quando na realidade é uma agência do governo Lula.

Por outro lado, se os companheiros se somassem na construção da ANEL aos mais de 1.800 estudantes presentes ao CNE e aos outros milhares que não puderam comparecer, o movimento estudantil brasileiro iria, sem dúvida, avançar muito nacionalmente.

A existência de uma entidade nacional para organizar as lutas não é um capricho, e sim uma necessidade comprovada tantas vezes ao longo da história. Sem dúvida, o movimento estudantil brasileiro estaria ainda mais forte para lutar contra os ataques neoliberais se os companheiros da esquerda da UNE estivessem construindo a ANEL.

Lembramos a eles que, conforme decisão do CNE, não é necessário sequer que os companheiros e as entidades que eles constroem rompam com a UNE para se somar à construção da ANEL. Nesse sentido, reafirmamos sinceramente o chamado para que os companheiros se juntem a todos os estudantes já estão engajados nessa tarefa.

É preciso tirar lições das lutas dos últimos anos. Seguir nos fóruns da UNE não serviu de nada para a luta dos estudantes. A não existência de uma entidade nacional combativa prejudicou muito a nossa luta. É preciso romper com a UNE e construir a ANEL!

Desde já, reafirmamos nossa disposição de atuar em todas as lutas lado a lado com os companheiros da esquerda da UNE, independente de sua posição nesse debate. Mas não podemos deixar de fazer um debate tão importante para os rumos do movimento estudantil. O projeto neoliberal está sendo implementado e o tempo passa. Até quando os companheiros seguirão cometendo o erro de permanecer nos marcos da UNE e não se somar à construção de uma nova entidade estudantil? Com a palavra, os companheiros da esquerda da UNE.

Post author Leandro Soto, da Secretaria Nacional de Juventude do PSTU
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