Paris: a arquitetura da revolta

Jovem lança pedras contra policiais, no Maio Francês

Não havia melhor cidade para ser rico, mas não havia cidade onde a miséria podia ser tão intensaNunca houve uma cidade como Paris. Poucas cidades do mundo têm tanta história revolucionária para contar. Através dos séculos XVIII, XIX e XX, Paris foi palco de importantes batalhas que mudaram os rumos dos acontecimentos mundiais. Em 1789, a Revolução Francesa colocou a burguesia pela primeira vez no poder de forma violenta. Em 1871, ocorreu a Comuna de Paris: uma poderosa insurreição popular que controlou a cidade, e, em 1968, o famoso maio francês, que espalhou pelo mundo a revolta juvenil.

Recentemente, foi publicado no Brasil o livro de quadrinhos “O Grito do Povo – Os canhões do 18 de março”. Escrito por Jean Vautrin e desenhado por Jacques Tardi, esta história em quadrinhos narra um momento histórico que marcou a França e é um dos pontos chaves da História Moderna: a guerra civil francesa de 1870 e a Comuna de Paris.

Logo após Napoleão III se render aos alemães, o ministro provisório Adolphe Thiers assina um tratado de submissão, mas operários e suas esposas decidem não entregar a cidade e, por 73 dias, lutam contra os prussianos e, depois, contra o seu próprio exército. Com esse pano de fundo histórico, o famoso escritor e cineasta Jean Vautrin (Membro da Academia Francesa de Letras) cria uma trama policial e romântica inspirada no realismo de Victor Hugo e Émile Zola, focando nas prostitutas, lavadeiras, operários, ladrões, militares insubordinados, misturados a personagens históricos como Thiers, o pintor Gustave Courbet e a revolucionária anarquista (precursora do feminismo) Louise Michel.

Este HQ está longe de ser algo facilmente apreciado. O desenho de Jacques Tardi (desenhista do cartaz de E La Nave Va, filme de Fellini) recria uma Paris realista, mas longe de ser sombria e miserável como pretende. Se o seu traço serviu perfeitamente para o humor dos filmes de Fellini, no Grito do Povo entra em conflito com o que é narrado pelo escritor. Os canhões do dezoito de março e a miséria dos trabalhadores franceses nunca poderiam ser representados por personagens cômicos de traço suave. Além do mais, a tentativa de criar uma “atmosfera sombria” utilizando apenas preto e branco só ajuda a enbaralhar a confusa trama policial de Vatrin. O desenho de Tardi tem um grande mérito: uma extensa pesquisa histórica e arquitetônica de Paris no final do século XIX.

Indo além de simples considerações estéticas, o lançamento de ‘O Grito do Povo´ nos remete a importantes questões. A Comuna de Paris foi um relâmpago que anunciou a era das revoluções proletárias mundiais durante o século XX, do qual a revolução russa, em 1917, é herdeira direta. A Comuna mostrou o heroísmo do proletariado e sua capacidade de união para resolver com as próprias mãos tudo que lhes diz respeito. Ao mesmo tempo, a Comuna mostrou pela primeira vez a necessidade de uma direção revolucionária das massas para seguir adiante na luta e na tomada do poder.

As ruas francesas ontem
O urbanismo de Paris é o urbanismo da revolta. Na década de 1860, Paris sofreu um processo conhecido como Haussmanização: o prefeito Haussmann deveria modernizar a cidade. Transformar Paris em uma capital mundial burguesa, que mostraria ao mundo todo o poder da industrialização. Esta reurbanização expulsou os operários do centro da cidade, empurrando-os para uma miserável periferia. Transformou Paris no cartão postal da burguesia européia com seus Boulevards e Cafés. Porém, os operários que ergueram os primeiros shopping centers da história e construíram as primeiras redes de gás, estavam longe de desfrutar algum desses novos luxos. As prostitutas dos cafés parisienses já não podiam pagar os aluguéis no centro.

Essa nova Paris, porém, foi tomada e cercada em 1871 por militares e operários. Os governantes franceses, que tanto falavam em nacionalismo e em derrotar os alemães, passaram a tramar com os alemães a rendição da França e até a negociar a ajuda germânica para combater a revolta popular em Paris.

Depois de derrotarem a Comuna, a burguesia francesa aprendeu muitas lições. A mais simples dela era que Paris precisava ser reurbanizada novamente: ruas largas e avenidas para dificultar seu bloqueio por barricadas.

Fato parecido aconteceu no Rio de Janeiro, então capital na época. O frefeito Pereira Passos, para atender a descontente elite carioca, tentou transformar a cidade numa espécie de Paris dos Trópicos. Para isso, não faltaram demolições e remoções. Os estrangeiros que chegavam de navio não deveriam encontrar a cidade de escravos e epidemias e sim de Teatros Municipais e Passeios Públicos. Morros inteiros são derrubados, cortiços são demolidos, formando as primeiras favelas na periferia do centro, linhas retas são traçadas. Surgiu então a Avenida Rio Branco. Da mesma maneira autoritária e criminosa que realizaram a reurbanização do Rio de Janeiro, tentaram realizar o saneamento da cidade através de um programa obrigatório de vacinação. Estes fatos resultaram, em 1904, na Revolta da Vacina que, assim como na Paris de 1871, levou barricadas a quase todas as ruas da cidade.

As ruas francesas hoje
Em 1968, a revolta dos estudantes demoliu Paris com os paralelepípedos da calçada. Depois do Maio Francês, boa parte das ruas foram asfaltadas.

O segundo volume de O Grito do Povo é lançado agora no Brasil, num período que todos estão assistindo uma radical revolta nos subúrbios de Paris. Como em 1871, os personagens principais destes protestos, são os setores mais oprimidos e explorados da sociedade; os imigrantes, os negros e desempregados, que ocupam a periferia e trabalham duro para a riqueza da cidade mais visitada do mundo.

A recente revolta não tem as dimensões da Comuna de Paris nem do Maio Francês, mas a cada prédio ou carro incendiado é enviado para o mundo todo o grito do povo. Como em um cartaz famoso feito pelos estudantes da Escola de Belas Artes Francesa, com a imagem de um rapaz atirando uma pedra: A Beleza Está Nas Ruas!

O Grito do Povo – Os Canhões de 18 de março (Vol. 1)
Jean Vautrin e Jacques Tardi
176 páginas
Formato: 29,5 x 23,4 cm
ISBN: 85-7616-088-9
Preço: RS 36 em www.conradeditora.com.br