Papa Francisco e os LGBTs: nada de novo

Protesto durante visita do Papa ao Brasil

Em entrevista coletiva concedida no avião, em sua volta do Rio de Janeiro, o Papa Francisco declarou não ter autoridade para julgar os gays, que “os gays não devem ser discriminados” e que “devem ser integrados à sociedade”.

Algumas organizações do movimento LGBT receberam com empolgação essas declarações. Carlos Magno, presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), afirmou que “quando a gente vê um líder religioso dizendo que a nossa comunidade tem que ser incluída na sociedade, a gente tem até esperança de que a Igreja possa rever suas posturas”. Fernando Quaresma, presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, acredita que “a declaração representa um grande avanço. Todos os outros Papas só fizeram críticas destrutivas”.

Com mais ressalvas, Luiz Mott, do Grupo Gay da Bahia (GGB), afirma que “se a Igreja Católica não for aliada, que, pelo menos, deixe de ser inimiga”. Embora afirme também que as declarações do Papa são “palavras de acolhimento relativo” e que essas declarações devem ser “a partir de agora nosso escudo, nosso amparo, nosso passaporte para confrontar qualquer insulto, comentário ou prática homofóbica”.

Já a organização feminista Católicas pelo Direito de Decidir reconhece a diferença no discurso do Papa, “se compararmos aos que condenavam veementemente a homossexualidade”, mas afirma que “é superficial, já que fica no discurso, não provoca mudança estrutural na doutrina”.

Para nós, do PSTU, o discurso, na aparência, apresenta-se como progressivo, mas  na realidade não muda a prática da Igreja Católica, que sempre condenou a homossexualidade, pregou a homofobia e, sob um sob um discurso de “acolhimento”,  reforça o ódio e a violência. Vale lembrar que estamos falando da Igreja Católica enquanto Instituição, e não enquanto fé praticada por milhões, a qual respeitamos.

A posição oficial da Igreja Católica sobre a homossexualidade: nenhuma mudança
Em primeiro lugar, é preciso deixar claro: essa posição do Papa Francisco não é nova. Muito pelo contrário, é a posição oficial da Igreja há anos.

O então cardeal-arcebispo de Salvador, dom Avelar Brandão Vilela, afirmou em 1983: “Não podemos louvar nem incentivar este tipo de minorias, mas dado que elas existem, não se pode nem se deve fazer violência contra os homossexuais: devemos ajudá-los e nunca violentá-los”.

Os parágrafos 2357, 2358 e 2359 do Catecismo da Igreja Católica, publicado pelo Papa João Paulo II em 1997, tratam exclusivamente da questão da homossexualidade. O primeiro diz que a homossexualidade é contrária à lei natural. O segundo diz que os homossexuais devem ser acolhidos pela igreja, evitando “qualquer sinal de discriminação injusta”, e que os homossexuais cristãos devem “unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição”. O terceiro chama os homossexuais à castidade.

Além disso, é preciso ter claro que, por mais que essa seja a posição oficial da Igreja, a prática é bem diferente, como ressaltaram as companheiras feministas do grupo Católicas pelo Direito de Decidir: a Igreja defende e pratica em muitos países, oficialmente, a cura de homossexuais. Há uma orientação específica para isso, denominada Homosexualitatis problema ou “carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral de pessoas homossexuais”, publicada em 1986 por Joseph Ratzinger (posteriormente Papa Bento XVI), para combater setores da Igreja que começavam a defender os homossexuais.

Esta orientação segue a mesma linha do Catecismo, publicado 11 anos depois: a homossexualidade é vista como abominação, e a prática da fé católica por homossexuais só pode se dar com o abandono das práticas homossexuais. Além disso, a Igreja segue sendo contra qualquer medida que faça avançar os direitos LGBTs, como a criminalização da homofobia em nosso país e o casamento homoafetivo igualitário; segue apoiando medidas que fazem avançar a homofobia, como o projeto de “cura gay” e outras legislações homofóbicas em vários países.

Ou seja, a Igreja diz acolher os homossexuais, mas não tolera a homossexualidade. As pessoas podem ser homossexuais, desde que não pratiquem a homossexualidade, desde que vivam dentro do inferno do armário. O homossexual é (teoricamente) acolhido, mas a igreja sempre estará lá para condenar o que considera pecado. Essa é a posição da Igreja Católica há muitos anos e é compartilhada por muitas denominações protestantes, como algumas vertentes das igrejas presbiteriana, luterana, batista, metodista e anglicana (há outras vertentes dessas denominações que defendem a posição contrária, inclusive celebrando casamentos homossexuais em seus templos), bem como muitas denominações neopentecostais que possuem exatamente essa interpretação.

O Papa Francisco, quando arcebispo de Buenos Aires, foi um dos mais ferrenhos opositores ao casamento homoafetivo na Argentina. Sua postura em relação à homossexualidade sempre foi, e continua sendo, conservadora, como demonstra bem a conversa com o rabino argentino Abraham Skorka, publicada pela revista Veja em abril de 2013. Na conversa, o então arcebispo Bergoglio diz que os casais homossexuais são um “retrocesso antropológico”.

Ou seja, apesar de parecer abrir diálogo, ou abrir as portas da igreja aos homossexuais, essas declarações são ambíguas e ficam somente no plano do discurso. Tanto é que, na mesma entrevista, o Papa afirmou que não haverá nova opinião do Vaticano sobre aborto ou casamento homoafetivo.

Não nos enganemos: só a luta organizada pode garantir nossos direitos
É essencial que nós, do movimento LGBT, tenhamos claro quem são nossos inimigos. O Papa Francisco, com um discurso ambíguo, não mostra uma maior abertura aos homossexuais, mas  reforça a posição da Igreja, que estimula seus fiéis a viverem suas vidas em castidade dentro do armário, não expressando e nem praticando sua sexualidade. A declaração do Papa, infelizmente, se perde nas palavras e não indica, de maneira alguma, uma mudança na postura da Igreja Católica, muito menos na postura do Vaticano de combater os homossexuais.

Vale lembrar que a escolha de Jorge Bergoglio ao pontificado veio em um momento de grave crise na Igreja Católica, com uma clara diminuição de sua base social, com o crescimento das igrejas evangélicas nas Américas e do Islã em diversas partes do mundo e dos escândalos de pedofilia e de corrupção que levaram à renúncia do impopular Papa Bento XVI.
O Papa Francisco veio para reverter essa crise: é latino-americano, carismático, e veio para mudar a relação da igreja com seus fiéis. É o Papa dos discursos doces para os pobres, do diálogo com diferentes setores da sociedade, da Igreja nos tempos modernos – em contraste com a arrogância e os discursos retrógrados de Bento XVI. Por isso, não parece estranho que ele tenha feito um discurso para dialogar com os homossexuais. Mas a Igreja, enquanto Instituição, na prática, permanece a mesma, e o “acolhimento” aos homossexuais também permanece o mesmo.

Devemos, sim, nos utilizar do discurso do Papa como “arma”, “escudo” e “amparo” para apontar as contradições da Igreja e do próprio pontífice a cada ataque que sofremos. Mas a Igreja não deve ser depositária de nossa confiança: lembremos que foi a Instituição que mais perseguiu a comunidade LGBT na história da humanidade, e que segue perseguindo. A Instituição que fala todos os dias que vivemos em pecado e que somos uma abominação não se coloca como nossa  aliada. E o Papa, que diz nos respeitar e que trabalhou para impedir que conquistássemos nossos direitos na Argentina e seguirá trabalhando para impedir qualquer conquista de direitos, também não se coloca do nosso lado.

Se a Igreja diz que podemos ser homossexuais, mas não podemos viver nossa homossexualidade, então ela está dizendo que não devemos existir. Assumir-se homossexual e combater a homofobia é uma posição política. Somente os LGBTs organizados no movimento, junto às mulheres, negros e negras, e junto ao movimento dos trabalhadores, podem derrotar a homofobia em toda a sociedade. E a Igreja Católica, enquanto Instituição e não enquanto a fé praticada por milhões de católicos, nessa luta, está do outro lado da trincheira.

Não há nada diferente entre o discurso do Papa e a postura da Igreja Católica em relação aos fundamentalistas religiosos, como os pastores Marco Feliciano e Silas Malafaia (o segundo chegou a dizer, inclusive, que ama os homossexuais), e que tanto combatemos cotidianamente no movimento. A Igreja Católica não é “mais moderada”: nossos inimigos históricos continuam os mesmos!