Página 17: Veja a página que não entrou no Opinião Socialista Nº 493

Na edição Nº 493 do jornal Opinião Socialista, uma pauta de última hora obrigou a redação a escolhe uma página para ficar de fora. Optamos pela seção “Curtas”. Aqui está a página que você não viu! (Baixe em PDF)

Adeus, Spock
VIDA LONGA E PRÓSPERA
 
Ator norte-americano Leonard Nimoy, conhecido pelo papel de Spock, em Jornada nas Estrelas, morreu aos 83 anos no último dia 27. As homenagens a Nimoy vieram de todos os cantos do mundo, especialmente de cientistas que muitas vezes se inspiravam na série.
 
Metade humano e metade Vulcano, Spock foi o personagem mais rico da série. Sua personalidade expressava o velho dilema que marca a condição humana: o conflito entre o comportamento lógico racional, herdado do seu pai Vulcano, com a irracionalidade das paixões humanas, herança de sua mãe terráquea.
 
Jornada nas Estrelas, assim como outras grandes obras de ficção cientifica de Júlio Verne, H. G. Wells, Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, se inspiravam nas grandes descobertas científicas da sua época. Mas também influenciaram o futuro desenvolvimento da ciência. Por exemplo, o primeiro celular foi motivado, segundo seu criador, por comunicadores utilizados pelos personagens da série; a nave Enterprise, utilizada pelos humanos em sua expedição pelo universo, influenciou na construção dos ônibus espaciais pela Nasa – o primeiro deles se chamou Enterprise.
 
Atualmente, cientistas tentam desenvolver um scanner capaz de detectar doenças graves em poucos minutos. Em Jornada nas Estrelas, esse aparelho é chamado “tricorder médico”. 
 
Exibido entre 1966 e 1969, Jornada nas Estrelas tratava de questões inquietantes para a sociedade da época. Apesar de tratar da humanidade no imaginário século 23, os episódios refletem os grandes acontecimentos dos anos 1960, como a luta pelos direitos civis nos EUA, a guerra do Vietnã e a Guerra Fria, os movimentos de contra cultura. Também afirmava uma perspectiva de um futuro otimista para a humanidade: uma sociedade sem dinheiro, sem pobreza, sem classes sociais, racismo ou qualquer tipo de opressão, com um único governo mundial, onde o ser humano é livre para desenvolver toda sua potencialidade. Qualquer semelhança com o mundo comunista pensado por Marx não é mera coincidência.
 
No entanto, para os criadores da série, a humanidade havia atingindo esse estágio por meio da evolução tecnológica. O que, na verdade, é reprodução de um velho mito utópico, uma vez que o pré-requisito para o avanço da humanidade (e da própria ciência) é a destruição da atual ordem social opressora capitalista e a reorganização em bases racionais, ou seja, socialistas, da economia mundial. Só assim se pode dar sequência à incrível história do desenvolvimento humano. Que a humanidade saiba honrar os votos de vida longa e próspera deixados por Spock.
 
 
Chora, viola
INEZITA, MADRINHA DOS VIOLEIROS
 
Morreu Inezita Barroso, uma das maiores figuras da música caipira no Brasil. Aos 90 anos, ela faleceu, simbolicamente, na noite de 8 de março, Dia Internacional de Luta da Mulher. Inezita, nascida em berço de ouro, enfrentou a família e a sociedade machista e moralista da época para ser artista e estudar a cultura popular do nosso país. Ainda criança, ocultou sua paixão pela música, visitando às escondidas as rodas de viola na fazenda da família. Foi a primeira mulher a gravar uma moda de viola.
 
Durante mais de 30 anos, apresentou o programa “Viola, Minha Viola”, na TV Cultura. Ficou mais conhecida como cantora e apresentadora do programa, mas também foi atriz, compositora, instrumentista, bibliotecária, professora (inclusive ainda lecionava até hoje), apresentadora de rádio, produtora de teatro, entre outras atividades, focada no folclore brasileiro.
 
Seu trabalho recebeu prêmios importantes. Correu o mundo, ficou famosa em vários países e chegou a ser indicada ao Grammy sulafricano. Porém o que poucos sabem é que ela também interpretou grandes nomes do jazz e do blues, como Ella Fitzgerald. Inezita já foi chamada de “enciclopédia viva” da cultura e do folclore nacional.
 
Foram mais de 50 anos de carreira, e 80 discos gravados. Em seu primeiro disco, gravou a música que até hoje é a sua mais conhecida e cantada em todos os meios sociais: “Moda da Pinga” (ou “Marvada Pinga”): “(…) Venho da cidade e já venho cantando / Trago um garrafão que venho chupando / Venho pros caminho, venho trupicando, xifrando os barranco, venho cambetiando / E no lugar que eu caio já fico roncando / Oi lá / O marido me disse, ele me falo: ‘largue de bebê, peço por favô’ / Prosa de homem nunca dei valo / Bebo com o sor quente pra esfriar o calo / E bebo de noite é prá fazê suado / Oi lá (…)”.
 
Como disse sua filha, Marta Barroso, “até pra morrer ela escolheu uma data marcante”.
 
 
A HISTÓRIA DE UM ABORTO PROVOCADO PELO PATRÃO
Uma metalúrgica de Gravataí, no Rio Grande do Sul, teve seu filho abortado por conta de uma infecção urinária. E o que poderia ser apenas uma notícia trágica, é, na verdade, um crime. Isso porque as complicações da operária foram provocadas pelo fato de a empresa impedir que suas funcionárias fossem ao banheiro ou bebessem água durante o expediente.
 
Se não bastasse o ocorrido, cinicamente o RH “permitiu” que a funcionária faltasse dois dias sem que houvesse desconto da folha de pagamento. Outra postura criminosa, já que a legislação prevê, nesse caso, duas semanas de descanso remunerado.
 
Essa é mais uma vítima da ganância capitalista. Na empresa onde trabalha, o ritmo de produção é dado pela velocidade das esteiras. Para que alguma operária ou operário saia para ir ao banheiro ou tomar água, é preciso que outra dobre o trabalho para não ser alcançado pela esteira.
 
Isso significa, na prática, uma brutal pressão para que o operário não realize as mais básicas. Ou seja, impedir que os funcionários vão ao banheiro é economizar na contratação e com isso garantir lucros mais altos.
 
Todos nós sabemos que nem sempre os patrões cumprem a lei. Além do mais, passamos por um momento em que tanto o governo federal quanto os estaduais tentam impor aos trabalhadores as contas da crise.
 
Neste 8 de março, os movimentos feministas já mostraram o caminho exigindo a não retirada de direitos e a revogação das MPs 664 e 665. É preciso, todos os dias, unir homens e mulheres trabalhadoras contra toda forma de opressão e exploração!