Oscar 2015 e a luta por igualdade no cinema


Discursos por igualdade para negros, mulheres, homossexuais e latinos marcaram a premiação mais importante do cinema estadunidense. Pedidos de mais atenção para doenças como Alzheimer, igualdade salarial para as mulheres e direitos civis para negros e latinos emocionaram o público e repercutiram na mídia mundial.

Já no começo da festa, no desfile das estrelas no tapete vermelho, era claro sentimento que daria à tônica ao resto da noite. A atriz Cate Blanchett se irritou com um cinegrafista que filmava seu corpo enquanto ela dava uma entrevista e disparou, ao vivo, “você também faz isso com os homens?”. A reação da atriz, vencedora do Oscar em 2014, foi um eco do movimento por igualdade na indústria do cinema, lançado pela comediante Amy Poehler, que pediu para as pessoas publicarem em suas redes sociais a hashtag #AskHerMore (“pergunte mais a ela”), o movimento questiona as perguntas fúteis direcionadas as atrizes, enquanto os atores recebem perguntas sérias.

As escolhas da academia para os indicados ao Oscar desse ano também geraram um mal estar, com a falta de mulheres e negros nas principais premiações – 77% dos votantes são homens, a maioria brancos, o que contribui para escolhas conservadoras. Categorias como melhor roteiro original, melhor roteiro adaptado e melhor diretor não contavam com nenhuma mulher concorrendo. Para melhor ator e melhor atriz, apenas brancos concorriam. Além disso, nenhum dos concorrentes a melhor filme era protagonizado por uma mulher. Grandes filmes como Livre, protagonizado por mulheres, e Selma, sobre a luta por direitos civis, foram esnobados recebendo pouquíssimo espaço (duas indicações cada).

Mas parece que uma parte dos participantes da festa estava disposta a reparar isso. Um dos momentos mais emocionantes da noite foi quando John Legend subiu ao palco ao lado do rapper Commom para cantar Glory – música do filme Selma. Os dois arrancaram lágrimas do público, e logo depois, ao subirem novamente ao palco para receber o premio de melhor música, fizeram um discurso áspero contra o racismo e conclamaram todos a continuar a luta pelos direitos civis de negros, mulheres e homossexuais.

Em outro momento de destaque, Patricia Arquete discursou pela igualdade entre homens e mulheres. “É hora de termos igualdade salarial de uma vez por todas e direitos iguais para as mulheres nos Estados Unidos da América“, afirmou a vencedora de melhor atriz coadjuvante por Boyhood.

Grande favorito da noite, Birdman ganhou 4 estatuetas, incluindo melhor filme e melhor diretor. O filme é uma ácida crítica a Hollywood. Realizador do filme, o mexicano Alejandro Gonzalez Iñárrito não perdeu também a oportunidade de pedir mais respeito à comunidade latina dos Estados Unidos: “Talvez o governo imponha alguma regra de imigração na Academia no ano que vem. Dois mexicanos seguidos é suspeito”, afirmou sarcasticamente o diretor em referência ao também mexicano Alejandro Cuarón, ganhador de melhor diretor em 2014.

A indústria do cinema se tornou mais conservadora?
A forma como se desenrolou a cerimônia do Oscar foi uma reação de parte dos artistas à atual política dos grandes estúdios de Hollywood, que depois da crise econômica ficou cada vez mais conservadora e deixou de investir em projetos que podem ser considerados ousados. A chuva de Blockbusters e os remakes de clássicos são parte dessa política, mas também os estúdios estão mais criteriosos em investir em projetos, mesmo que tenham baixo orçamento, mas que possam não agradar o grande público.

O próprio fenômeno do filme Birdman é um reflexo dessa situação, um filme de baixo orçamento (para os padrões americanos), centrado em uma crítica à falta de criatividade e de qualidade artística do mainstream hollywoodiano atual. Alguns estúdios fazem estudos exaustivos utilizando aplicativos de computador para mostrar nos filmes apenas aquilo que o público quer ver, qualquer coisa que fuja disso é descartado.

Um dos aplicativos mais utilizados hoje é o Affectiva, que surgiu no MIT (uma das principais universidades tecnológicas dos EUA), que filma os espectadores no cinema e mede o grau de aceitação dos filmes, cena por cena. A diretora da empresa que desenvolve o Affectiva, Rosalind Picard, afirma que o aplicativo só é utilizado em sessões prévias ao lançamento dos filmes e com consentimento dos presentes às sessões, mas em entrevista à BBC afirmou que já recusou oferta para utilizar o aplicativo secretamente em cinemas comerciais.

Todo esse controle sobre as produções visa impedir fracassos como o de O Cavaleiro Solitário (2013), que se estima ter rendido mais de 200 milhões de dólares em prejuízo para os estúdios Disney. Mas começa a gerar descontentamento entre os artistas.

Aumento da desigualdade no mundo
Por outro lado, os inflamados discursos pedindo igualdade são um reflexo dos processos de resistência ao aumento dos níveis de desigualdade em nível mundial, que atingem especialmente os grupos sociais mais oprimidos.

O estudo Even It Up: Time to end extreme inequality (Equilibre o jogo: hora de acabar com a desigualdade) afirma que concentração de renda aumentou em todo o mundo e que desde 2009, ápice da crise econômica, o número de bilionários duplicou : eram 793 no começo do furacão e agora somam 1.645. Os 85 mais ricos entre eles, no mesmo período, incrementaram seus capitais em 668 milhões de dólares a cada dia e sua renda equivale àquela de metade da população mundial, 3,5 bilhões de outros seres humanos. Ao mesmo tempo, essa concentração se sustenta na política de austeridade nos Estados Unidos e principalmente na Europa que está levando a classe trabalhadora a uma verdadeira catástrofe social e também na superexploração dos países da periferia.

É nesse cenário que artistas e algumas celebridades começam a apoiar movimentos de resistência dos setores oprimidos, como as passeatas contra os assassinatos de jovens negros por policiais que tomou conta das ruas dos Estados Unidos no ano passado. Naquele momento os protestos foram amplamente apoiados por jogares de basquete, como Lebron James, Rappers e também atores negros.

Acabar com o monopólio das grandes corporações e democratizar o cinema!
Os discursos dos atores e cineastas no Oscar são uma demonstração importante do acirramento da polarização mundial e sem dúvida com seu prestígio ajudam a dar visibilidade à luta dos oprimidos, mas também é necessário entender suas limitações.

Melissa Silverstein comentarista de cinema e uma das entusiastas do movimento #AskHerMore afirma: “Nosso dinheiro é tão verde quanto (o dos homens) e nós compramos metade dos ingressos (para os filmes).”

Esse argumento não chega a fundo na origem do problema, a própria indústria do cinema, as grandes produtoras e distribuidoras monopolizam as salas de cinema, os recursos financeiros e técnicos, além de controlar o conteúdo dos filmes, limitam a criatividade dos cineastas e contribuem para alienação da massa de espectadores. Com produções cada vez mais caras e sem nenhum valor artístico, as produtoras investem quase sempre em fórmulas batidas e repetidas à exaustão.

No Brasil, a concentração do número de salas de cinema para os mesmos filmes virou polêmica no ano passado quando “Jogos Vorazes: A Esperança parte 1” chegou a ocupar 1,3 mil das 2,8 mil salas de cinema no Brasil. Essa realidade limita muito o acesso do público a produções que não sejam das grandes corporações.

É necessário socializar os meios de produção da indústria cinematográfica, acabar com o monopólio das grandes corporações e dar total liberdade criativa para os realizadores. Só então será inaugurada uma nova era das produções cinematográficas, em que os mais diversos grupos sociais possam ser retratados igualmente e que os filmes possam servir para desalienar e humanizar, acabando com supremacia do mercado sobre o conteúdo dos filmes.