Osasco: A Ocupação “Nova Esperança” e a luta pela Reforma Urbana no país


Cerca de 100 famílias sem-teto ocuparam, na madrugada desse 24 de agosto, sábado, uma área na Estrada do Portugal, no bairro Santa Fé, em Osasco (próximo à Rodovia Anhangüera). A ocupação é produto do déficit habitacional da cidade, que conta com 43 mil famílias inscritas no programa “Minha Casa, Minha Vida”. Desde 2009, a prefeitura entregou apenas 420 casas.

Nos últimos dois meses, essa é a terceira ocupação realizada pelo grupo, que tem o apoio do Movimento Luta Popular. Nas duas últimas, as famílias ergueram seus barracos em uma área de propriedade do governo municipal abandonada há décadas, na rua Francisco Morato (Parque Bandeirantes). Ao serem ameaçadas de despejo no dia 12 de julho, optaram por sair pacificamente mediante promessa de reunião com a prefeitura.

A reunião aconteceu na manhã de 16 de julho, a qual as famílias compareceram em passeata, com faixas, cartazes e apitos. Os representantes da prefeitura se comprometeram a avaliar a situação e tomar providências. Pediram que fosse entregue um cadastro com os dados e as demandas de cada família. O cadastro foi entregue, mas nenhuma medida, nem ao menos resposta, veio por parte da prefeitura. 

Por isso, ocorreu uma nova ocupação, numa área que tem sido alvo de debates na imprensa por conta do projeto de instalação de um heliporto. Tanto a comunidade – que vive no entorno da região – quanto as empresas aí instaladas há anos, como o SBT, tem dado uma batalha contra o projeto. As famílias estenderam na entrada da área uma faixa com os dizeres: “Jorge Lapas, Osasco quer mais moradia e menos heliponto”.

A ocupação resiste e foi batizada de “Ocupação Esperança”. Nesta segunda-feira, 26, o número de famílias acampadas já chegava a 300. É preciso que todo movimento sindical, estudantil e popular apóie as famílias acampadas. Uma liminar de reintegração de posse está sendo movida. 

Para Helena Silvestre, da coordenação nacional do Movimento Luta Popular, a Ocupação Esperança “é mais uma demonstração da necessidade do movimento popular articular urgentemente uma jornada nacional de lutas que coloque no centro da agenda do país a luta pela reforma urbana  e a cidade que queremos“. Leia abaixo artigo de Helena

 

A Reforma Urbana e a Cidade que Queremos não cabem no “Minha Casa, Minha Vida”

Helena Silvestre, do Movimento Luta Popular 

 

Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso” (Bertold Brecht)

 

Não é de hoje que os trabalhadores brasileiros – por conta de seus baixos salários – resolvem sua necessidade habitacional arranjando a vida entre a precariedade e a sobrevivência.

As ocupações, a autoconstrução, a ida para cada vez mais longe dos centros urbanos providos de infra-estrutura e serviços, o endividamento para conseguir o mínimo, enfim, mazelas mil que permeiam há tempos o cotidiano dos mais pobres deste país.

Muitas lutas foram realizadas, muitos movimentos sociais foram constituídos a partir delas, e, durante décadas, muitos foram os acúmulos políticos e teóricos produzidos em base ao enfrentamento na luta direta, na proposição de soluções, na construção de propostas e consignas que representassem os anseios que estas lutas buscavam responder.

O grande problema é que, três décadas depois do período em tivemos nosso mais importante momento de organização popular e sindical combativas, as organizações que provocaram a imaginação dos que desejavam sonhar com um modelo diferente de vida urbana capitularam ao projeto que termina numa pífia e teatral “participação popular”.

É impressionante como muitos governos elevaram ao centro das discussões sobre a cidade os conselhos municipais de habitação, a elaboração de planos diretores, os orçamentos participativos. Estes espaços ou instrumentos, ainda que tenham em sua origem lutas e buscas por um modelo mais democrático de gestão e mesmo de cidade, são hoje praticamente nulos.

 Foram esvaziados do conteúdo radical que os pariu e tornaram-se apenas instâncias de legitimação popular para os planos que acontecem – estes sim – em espaços que realmente definem a vida urbana. Os reais espaços de decisão não possuem nome nem formato, são encontros entre governantes e empresários, são negociatas entre construtoras, incorporadoras, bancos e políticos. 

Os que propagam as mentiras de que estes são espaços por onde circula o novo mentem. Sabem das articulações de Cepac´s, operações urbanas, especulação imobiliária, corrupção, coronelismos na implementação municipal das políticas habitacionais e propagandismo vazio e cínico na construção da eleitoreira política nacional de habitação.

Sim, nós ocupamos!

Há quem diga da radicalidade deste ato e das tantas outras vias possíveis de diálogo. A estes respondemos: A radicalidade com que nossas vidas seguem sendo privatizadas, com que nossas comunidades tornam-se mercadoria para especuladores, com que nossos sonhos tornam-se propaganda eleitoreira, nos lançaram a uma situação em que a barganha mínima para nós é tudo.

A cidade que vivemos é injusta, desigual, com o medo desenhado em seus muros e grades, com o genocídio estampado nos quepes e fardas, com lindas famílias estampadas em jornais de venda de imóveis que se aconchegam debaixo de mendigos friorentos nas calçadas. A cidade que vivemos tem mais casas vazias que pessoas a procurar abrigo – e fecha os olhos. A cidade que vivemos fez da terra -símbolo da geração da vida – a mercadoria que simboliza a escravidão dos pobres. A cidade que vivemos transformou a palavra “participativo” em piada, a palavra violência em cotidiano, a palavra humano em carnes enlatadas no transporte público que engorda milionários.

Sim, nós ocupamos!

E dizemos em ações, que não queremos cercas, que não queremos medo, que não queremos grades, que não aceitaremos genocídios, que nos levantamos contra a venda de nossas vidas e sonhos.

Sim, nós ocupamos!

E dizemos aos nossos, da nossa classe, os que ainda não estão conosco; que venham, que somem, que fortaleçam, que redescubram seus direitos, sua força, seu poder. Que relembrem o que é sonhar, que se armem para lutar pelo sonhos então.

Sim, nós ocupamos!

E aos que nos governam – muitos dos quais já estiveram um dia também passando a noite sob lonas pretas – dizemos que a cidade que queremos, que a Reforma Urbana que necessitamos não se gera em gabinetes, reuniões e conferências; não! Produz-se na luta, no embate, no confronto, na democracia direta e construção coletiva, no sonho da revolução, se produz na esperança – que nos move à luta mesmo em meio ao caos de fumaça de óleo diesel.

Sim, nós ocupamos!

E por querermos a lua, nossa ocupação é esperança!

Por uma cidade onde caibam todas as cidades!

Nas Lutas e Nas Ruas, eis de onde sai a Reforma Urbana que o povo precisa!

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