Os protestos na Argentina e a ilusão da ‘inserção soberana´

Nesta semana, simultaneamente à Cúpula das Américas, será realizada na Argentina a III Cúpula dos Povos sob a palavra-de-ordem “Outra América é Possível”. A comissão organizadora da III Cúpula é conformada por distintos setores tais como a direção da CTA, o líder da Federação Terra e Moradia (FTV, em espanhol) Luis D´Elía, Jorge Ceballos, da Plataforma Piqueteira “Barrios de Pie”, o jornalista Miguel Bonasso e Hebe de Bonafini, dirigente das Mães da Praça de Maio. O núcleo duro da III Cúpula, portanto, é formado por setores que predicam algo como uma “inserção soberana” na ALCA, apóiam criticamente a governos como os de Kirchner, Lula e Tabaré – eleitos sob estas mesmas bandeiras – e, por fim, opõem-se à caracterização do evento como uma “anti-cúpula” – nos moldes das manifestações antiglobalização de Seattle, Gênova ou Quebec -, reivindicando um viés “mais propositivo”, “no mesmo espírito do Fórum de Porto Alegre”.

Hugo Godoy, secretário-adjunto da CTA da província de Buenos Aires, declarou – no marco de um seminário preparatório do Fórum Mundial das Alternativas – que a central sindical não propõe “a atual situação em termos de oficialismo ou oposição”. Da mesma forma, o representante da Attac-Argentina, Adrián Ruiz – parte da convocatória da III Cúpula – afirmou: “a Cúpula não deve incluir o discurso oficial nem posar na foto de repúdio a Bush, mas sim avançar na discussão das alternativas sociais” (Clarín, 22/out./2005). O evento ocorrerá com a autorização do governo Kirchner, cessão de espaços públicos e, inclusive, a liberação de muitos ônibus com destino a Mar del Plata pelo Ministério de Ação Social, de Alicia Kirchner. O presidente venezuelano Hugo Chávez – coerentemente com a distância estabelecida entre seu discurso antiimperialista e suas práticas entreguistas – participará tanto da Cúpula das Américas quanto da Cúpula dos Povos e, da mesma forma, setores da CTA, da velha central sindical CGT e da Plataforma Piqueteira “Barrios de Pie” irão participar da cúpula oficial da OEA em uma sessão de “diálogo com a sociedade civil”. O evento será encerrado com um showmício que contará com a presença de Maradona, o prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, o compositor cubano Silvio Rodriguez e o músico Manu Chao.

Bons amigos
A denúncia e o combate contra a Alca, a dívida externa e a militarização promovida pelos EUA – seja na América Latina ou no Oriente Médio – não podem ser dissociados da oposição de esquerda aos governos cúmplices de Kirchner, Lula ou Tabaré, verdadeiros sócios-menores do imperialismo na região. São estes os governos que submetem os países da América Latina aos ditames do FMI, cumprem religiosamente com o pagamento dos serviços da dívida e, ainda por cima, lideram ofensivas militares como as do Haiti, a serviço de Bush & Cia.

A paralisação argentina e as marchas em diferentes lugares da América Latina devem ecoar em uníssono o “Fora Bush!”, o não-pagamento da dívida externa, o rompimento com o FMI, o “Fora ianques do Iraque e da América Latina!” e o “Fora tropas latino-americanas do Haiti!”. A verdadeira integração e libertação dos povos do sub-continente só será possível sob a bandeira de uma Federação de Repúblicas Socialistas da América Latina.