Os 50 anos do Golpe de 64 e a Copa do Mundo

O então ditador Médici se exibe com a seleção campeã em 1970

Esse ano fará 50 anos do Golpe Militar, coincidentemente, mesmo ano de Copa do Mundo no Brasil. Assim como na ditadura, governo usa o futebol para legitimar uma ofensiva contra os movimentos sociais

Hoje, o governo brasileiro tenta deslegitimar os protestos contra a Copa do Mundo criando um suposto antagonismo entre nacionalistas e não nacionalistas, como se lutar por saúde e educação pública de qualidade, ou pelo direito de se manifestar, fosse uma atitude contrária ao bem do país.

Assim, o governo usa da nossa “paixão nacional” para tentar desviar a atenção e garantir a “Copa das Copas”. Mas isso não é uma prática de hoje, tempos atrás senhores distintos usaram dessa mesma tática para esconder as mazelas de um regime.

A Copa de 70 e o “milagre econômico”
Em 1970 o Brasil trazia para casa mais um título: nosso tri campeonato mundial. E enquanto a seleção jogava no México, o governo endurecia cada vez mais por aqui, principalmente depois de 1968, quando foi decretado o AI-5.

“Contra a pátria não há direitos”, assim informavam as placas penduradas nos elevadores da polícia paulista resumindo bem a ideia nacionalista que os militares queriam passar.  

Sob o governo Médici, o slogan “Você constrói o Brasil” tentava amenizar as consequências do “milagre econômico” que, segundo Delfim Netto, devia “fazer o bolo crescer para depois dividir”. Mas construir o Brasil para quem?

Em 1969, por exemplo, o salário mínimo atingiu seu menor valor. A concentração de renda na década de 1970 subiu vertiginosamente, chegando ao cúmulo de 1% da população mais rica deter o mesmo que os 50% mais pobres. Ainda na mesma década podíamos observar que 21%  dos jovens abaixo dos 17 anos estavam em estado de desnutrição; a mortalidade infantil era de duas a três vezes maior que em países de renda similar; das quatro milhões de crianças nascidas em média no Brasil, 360 mil morriam antes de completarem um ano; no Nordeste a expectativa de vida era de 40 anos, enquanto no Centro-Sul chegava a 65.

Então tínhamos um endurecimento da repressão e uma economia cada vez mais excludente enquanto a maior parte da população carregava o fardo do milagre. E como fazer pra juntar os cacos? Mais uma vez a propaganda entra em cena, mas agora com um reforço importante: a paixão nacional, o futebol.

A copa do Mundo de 1970 e nosso tri campeonato não podiam ter chegado em melhor hora. O nacionalismo dos “90 milhões em ação” tentava criar uma unidade nacional que não existia. Os militares tentavam se apropriar da paixão nacional para tentar unir a população em prol de um regime cada vez mais excludente. Era a farsa criada pelos militares para esconder nos porões da ditadura, junto com a falta de liberdade, torturas e mortes, a desigualdade crescente, numa espécie de compensação imaginária para as mazelas que a maioria da população enfrentava.

E hoje, como está a “Copa das Copas”?
Hoje vivemos um regime democrático sob o governo de um partido que nasceu das lutas contra a ditadura militar, mas infelizmente não temos tanto a comemorar…

Claro que o momento é outro, ainda mais se comparado aos anos de ditadura, mas alguns pontos merecem atenção principalmente quando o assunto é a Copa do Mundo da Fifa e os meios criados para assegurar a “Copa das Copas”.

O governo Dilma, como fizeram os militares, tenta criar essa falsa “unidade nacional” usando da nossa paixão ao futebol para empregar políticas cada vez mais elitistas e privatistas. Milhares de famílias expulsas de suas casas para a construção de obras da Copa ou os milhões empregados nos estádios, sob condições precárias e baixos salários, são bons exemplos.

Junto a isso, o governo federal, em parcerias com os estaduais e municipais, está se empenhando numa onda de repressão e criminalização dos movimentos sociais. A ideia é amedrontar a população para que nos dias da Copa o Brasil esteja “em ordem” para os turistas e para a elite. Além disso, o governo tenta jogar a opinião pública contra os que se manifestam usando do nacionalismo para deslegitimar os protestos.

Prova dessa tentativa covarde do governo é o Projeto de Lei 499/2013, que institui o crime de terrorismo no país e que pode condenar de 15 a 30 anos quem “provocar ou infundir terror ou pânico generalizado mediante ofensa ou tentativa de ofensa à vida, à integridade física ou à saúde ou à privação da liberdade da pessoa”. A abrangência da lei é assustadora e, se aprovada, consegue classificar todo manifestante como “terrorista”.

Não é exagero o apelido de “AI-5 padrão Fifa” à tentativa de criminalização dos movimentos sociais pelos governos. Desde junho de 2013 mais de 10 pessoas morreram em confrontos com a polícia nas manifestações, 2 mil foram detidas,o jovem Fabrício foi baleado pela PM durante um ato contra a Copa, uma “tropa especial” com policiais “fortes” e treinados em artes marciais foi criada para reprimir os protestos.

A luta por justiça
Que os 50 anos de Golpe Militar abra ainda mais os olhos da população para esse período sangrento da história brasileira. Ainda hoje há resquícios da ditadura enraizados na sociedade brasileira, que precisam ser definitivamente enterrados.

Dezenas de empresas que patrocinaram os governos militares e até mesmo as “casas de torturas” ainda financiam os governos de hoje. Praças, ruas e avenidas ainda homenageiam os torturadores e assassinos brasileiros. E ninguém foi punido pelas torturas, mortes e sequestros que cometeu.

A Comissão da Verdade cumpre importante papel no resgate desse período e levantamento da memória, mas deve avançar ainda mais e, além de apontar os culpados, julgar e puni-los pelos crimes que cometeram.

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