Operários da construção civil de Fortaleza encerram greve histórica

Assembléia nesta terça-feira encerra greve vitoriosa
Diego Cruz

Foram duas semanas de uma das maiores greves de Fortaleza (CE) nos últimos anos. No dia 6 de maio, terça-feira, mais de quinhentos operários da construção civil, reunidos em assembléia, encerraram a paralisação que balançou a cidade e se tornou um exemplo de luta para o restante do país.

Os trabalhadores se abraçavam e cumprimentavam em meio a muita emoção. Após dias de piquetes, repressão, passeatas realizadas sob um forte sol ou sob a chuva, enfim, muita luta, o clima ao final da assembléia era de vitória e sentimento de dever cumprido.

Negociações
Nesta terça-feira, 6, ocorreu a última rodada de negociações. A patronal já havia mostrado na última mesa, dia 2, que havia sentido a greve. Nesta terça, as propostas avançaram. Enquanto ocorriam as negociações, os operários saiam em mais um dia de piquetes e passeatas.

Os trabalhadores caminharam pelas principais ruas e avenidas do bairro de Aldeota, demonstrando que, depois de 14 dias de greve e mobilizações, ainda havia muita disposição de luta. “Com pão e rapadura, a greve se assegura”, cantavam. Por vezes, a passeata passava bem próximo à praia, o que garantia um belo fundo à grande passeata de operários que agitava as ruas da capital cearense.

Os trabalhadores se concentraram na Praça Portugal, onde ônibus alugados pelo sindicato transportavam os operários à sede da entidade, local da assembléia. No local, os operários esperavam ansiosos a comissão negociadora, que chegou por volta do meio-dia e meia. Após uma rápida reunião de diretoria, a assembléia começou.

Só a luta arranca conquistas
Pacientemente, os diretores explicam à categoria as propostas colocadas na mesa. O reajuste aos serventes, menor piso da categoria, ficava em 9,18%, o que deixa o salário em R$ 428. O meio profissional (assistente) teria pela proposta reajuste de 9,3%, fazendo o salário passar para R$ 507,85. Já o salário do profissional (ferreiro, carpinteiro, pedreiro) subiria 8,39%, o que garantiria R$ 672 de vencimento. O mestre de obras teria 12,10% e o encarregado de setor 7,94%.

Além dos reajustes, foi regulamentada a jornada de trabalho, de segunda a sexta-feira, sendo que as empresas pressionavam para o trabalho aos sábados. Outra conquista foi a valorização do betoneiro que passou a ser considerado profissional, antes era semi-profissional.

“Todo reajuste é pouco, companheiros, mas esse é o resultado de muita luta e muito suor”, afirmou José Batista, diretor do sindicato, sendo muito aplaudido. O acordo foi aprovado por ampla maioria. Após a votação, os operários comemoraram a luta.

Vitória de todos
Essa vitória não foi apenas dos trabalhadores da construção civil. Ela vai ter reflexos em outras categorias. Enquanto a assembléia dos operários ocorria, os rodoviários paralisaram dois grandes terminais de Fortaleza. Os motoristas estão se mobilizando contra o acordo assinado pela direção do sindicato da categoria com a patronal, que garantiu apenas 5% de reajuste, em meio a anos de arrocho. O acordo foi assinado numa assembléia fantasma e revoltou a categoria. Os 9% de reajuste conquistado pelos serventes da construção civil mostram o quão rebaixado foi a manobra da direção do sindicato dos rodoviários.

A campanha salarial das trabalhadoras da confecção feminina também está começando agora e deve sentir o impacto da greve do peão. Os trabalhadores da construção civil e a Conlutas se tornam, assim, uma referência ainda maior de luta e mobilização para a região e para o país.