Onde está a direitização?

Após os resultados do primeiro turno, um setor importante dos ativistas que fizeram a campanha da Frente de Esquerda adotou a tese de que os resultados eleitorais indicavam a “direitização” da sociedade. Essa avaliação estava apoiada na possibilidade de vitória de Alckmin e nos magros resultados da eleição de deputados da Frente de Esquerda.

O PSOL baixou de sete para três deputados federais e o PSTU não elegeu nenhum deputado. Mesmo a esquerda petista sofreu uma derrota eleitoral, não reelegendo diversos de seus tradicionais deputados.
Esses dois elementos deram base para a tese da “direitização”. A avaliação já era equivocada naquele momento. Agora, após os resultados do segundo turno, o que sobra dela? Na nossa opinião, nada.

A conjuntura política brasileira é parte da situação latino-americana, onde governos de frentes popular (com partidos operários e representantes da burguesia, como Brasil, Uruguai, Chile e Bolívia) ou com algum atrito com o imperialismo (como Venezuela e Argentina) seguem crescendo. Isso explica a forte votação em candidatos de “esquerda” no Equador e no Peru.

A situação brasileira, no entanto, tem uma particularidade, pelo fato de o governo do PT conseguir evitar um ascenso das massas, mantendo a conjuntura política sob controle. Isso favoreceu a polarização entre Lula e Alckmin e o peso dos aparatos eleitorais. Fato que explica o magro resultado das candidaturas parlamentares da esquerda.

Mas isto não indica direitização. Em primeiro lugar, Alckmin não só foi derrotado, como perdeu votos do primeiro para o segundo turno (quase 2,5 milhões a menos), em um resultado inédito na história brasileira. Os trabalhadores de categorias como o proletariado industrial, bancários, professores, petroleiros, correios, ou seja, da grande parte dos trabalhadores sindicalmente organizados do país foram os que, aparentemente, decidiram esta evolução. Ao perceberem que havia uma possibilidade real de Alckmin ganhar as eleições, houve uma reação contra o candidato do PSDB-PFL nesses segmentos. Isso se manifestou em todas as pesquisas eleitorais (nas pessoas que recebem entre dois e dez salários mínimos), atingindo inclusive setores que votaram em Alckmin no primeiro turno.

Isso mostrou que a maioria dos trabalhadores seguem com ilusões em Lula, embora sem mesmo entusiasmo a “esperança” de antes.

Outro indicativo de que não há direitização foi dado no primeiro turno, quando Heloísa Helena obteve 6,5 milhões de votos. Essa votação numa alternativa de esquerda, contra o governo de Frente Popular de Lula, não é um indicativo de que os trabalhadores foram à direita.

Por último, a pauta política do segundo turno foi marcada pelo debate das privatizações, onde Alckmin ficou completamente na defensiva. A foto ridícula do candidato do PSDB vestido com símbolos do Banco do Brasil, Correios, Petrobras, para mostrar que não pretendia privatizar as estatais é o símbolo deste momento. Este é o tipo de discussão que indica o estado de ânimo das massas, que fizeram sua experiência com as privatizações. Caso predominasse uma direitização, certamente o tema seria a necessidade da “ordem” contra as greves e invasões ao Congresso etc.

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