“Oldboy”: uma história de amor poética e angustiante

“Oldboy” é um filme impossível de se definir em uma única frase. O filme consegue unir em 119 minutos, questões como vingança, amor, ultra-violência, o tempo, a crise da vida moderna, a hipnose e obstinação, tudo isso envolto a tabus sexuais.

Uma história intrigante, baseada nos quadrinhos japoneses

Baseado em um “mangᔠ(tradicional história em quadrinhos japonesa), publicado em nove volumes, em 1997, e vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes, “Oldboy” é o segundo capítulo da “Trilogia da Vingança”, do diretor Chan Wook Park (o primeiro é “Simpatia pelo Sr.Vingança”).

A história começa quando o personagem Oh Dae-su é seqüestrado e confinado numa prisão particular, sem que lhe seja dada justificativa alguma sobre o ato.

A clausura se estende por nada menos do que 15 anos, durante os quais, o personagem fica sozinho, num quarto com banheiro, tendo apenas uma TV para lhe manter em contato com as mudanças no mundo exterior. O quarto é impregnado regularmente por um gás sonífero, que precede a entrada dos seqüestradores, que assim limpam o local, cortam-lhe o cabelo ou costuram seus constantes ferimentos, sem que o prisioneiro troque quaisquer palavras com outros humanos. Sua única companhia é a TV.

Depois da libertação, Dae-su concentra-se exclusivamente na vingança. Quer descobrir quem o prendeu e o porquê. Mas a tarefa não é fácil; tem de se adaptar a 15 anos de “solitária” e ainda por cima é suspeito de um homicídio cometido durante o cativeiro. Mi-do, uma cozinheira de sushi de mãos frias vai ajudá-lo a procurar uma resposta para a pergunta que não lhe sai da mente: por que?

Ultra-violência transformada em poesia

Atualmente, muitos filmes seguem a linha de mostrar extrema violência, seguindo a estética de filmes como “Laranja Mecânica” (Kubric) ou “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction” (de Quentin Tarantino, que era um dos jurados em Cannes e é grande admirador do cinema asiático).

Chan Wook Park, entra para a lista dos diretores que conseguem transformar ultra-violência em beleza (utilizando um recurso que Kubric já havia utilizado: o sangue sempre explode ao ritmo da mais encantadora música clássica). A original e genial cena de luta de Oh Dae-su contra dezenas de capangas com pedaços de pau e faca, nos dá a sensação de estarmos diante de um jogo de vídeo game em duas dimensões.

Tudo no filme possui agressividade. A face dos personagens, as cenas de sexo e até mesmo a cena do restaurante, que Oh Dae-su come um polvo vivo (que, segundo dizem, é prática comum na Coréia do Sul) sugerem ou explicitam a violência, que também aparece em constantes cenas com todos os tipos possíveis de mutilação, física e mental.

“Sorria e o mundo sorrirá junto”

Com um sorriso doentio, Oh Dae-su lembra dessa frase enquanto um homem acaba de cometer suicídio. E é assim que é a nossa atual sociedade. E é exatamente assim, de uma maneira brutal, que ela é mostrada no filme: uma sociedade que inventa regras, inclusive, para o amor, para o sexo e as impõe violentamente sobre os indivíduos.

É sob essa ótica que o filme aborda um dos mais polêmicos tabus sexuais: o incesto. No filme, a relação surge de uma maneira muito simples e poética: o tesão e o amor sincero entre irmãos, por um lado, e a mortal condenação da sociedade, por outro.

“Chore e você irá chorar sozinho”

Oh Dae-su vive e representa o confinamento do homem contemporâneo. O homem que vive com medo, aprisionado e controlado. O homem, isolado em seu cubículo, vendo a história e mundo apenas pela TV. Tatuando o tempo no corpo, tendo paranóias, alucinações e tédio. O indivíduo condicionado como um cachorro, que reage como esperam que ele reaja em cada situação e a cada estímulo.

O filme é a apaixonante e desesperada busca por respostas. A vida de Oh Dae-su é determinada pelo tempo (o relógio é um elemento usado constantemente). Durante todo o filme, ele luta contra os 15 anos de confinamento ou contra os cinco dias para descobrir o motivo de sua prisão (que o obrigam a lembrar do passado) e no final, tenta voltar no tempo para poder esquecer os motivos de sua prisão.

Oh Dae-su é o homem em busca de redenção, de paz. Que faz qualquer sacrifício para reparar seus erros e ficar com quem ama.

Passagem discreta pelos cinemas brasileiros

Lançado no Brasil na mesma época de “Guerra nas Estrelas”, “Quarteto Fantástico” e “Batman Begins” e outros “blockbusters” que sempre monopolizam mais de 90% das salas de cinema nacional, o filme teve uma apresentação “tímida”.

Contudo, buscar conhecê-lo, mesmo que seja em vídeo, é um dever de todos aqueles que gostam de cinema. Faz algum tempo que não surge um filme assim, que reúne maravilhosas imagens e música com uma trama instigante, no estilo “quebra-cabeça” e, ainda, tenha um final-surpresa (coisas semelhantes ao que vimos em “Clube da Luta” e “Kill Bill”).

Distante do maniqueísmo e moralismo hollywoodianos, “Oldboy”, ainda, tem uma narrativa inconstante, sendo ora um filme lento, ora algo próximo a um videoclip, onde sempre as verdades e os heróis não são nem tão verdadeiros nem tão heróicos, compondo um filme que é, ao mesmo tempo, um retrato lindo e triste do nosso tempo, e de todos os tempos.