O teleférico do Complexo do Alemão e as lições de uma barbárie contemporânea

Ano passado, logo após a reeleição, o governo do estado do Rio de Janeiro implantava no Complexo do Alemão mais uma Unidade de Polícia Pacificadora, a chamada UPP. Com a desculpa de trazer a paz, combater o tráfico de drogas, libertar os moradores e garantir o tal “Estado Democrático de Direito”, Sérgio Cabral ampliava seu projeto de criminalização da pobreza. Esta política foi um dos pilares da sua campanha eleitoral e conta até hoje com o apoio de amplos setores da sociedade. As Forças Armadas que ocupam estas comunidades seguem o treinamento realizado na vergonhosa intervenção militar que o Brasil faz no Haiti.

No mês de novembro, esta ocupação completa um ano. A mídia e o governo apresentam um cenário maravilhoso sobre os benefícios da UPP. Porém, os relatos que ouvimos diariamente de nossos alunos, responsáveis e colegas, moradores do Complexo do Alemão, é bem diferente.

Recentemente, fizemos um “passeio” numa das obras mais divulgadas nas propagandas do governo do estado: O TELEFÉRICO DO COMPLEXO DO ALEMÃO. O que a princípio seria o famoso “matar a curiosidade” se transformou num revelador quadro da política facista da tríplice aliança Dilma/Cabral/Paes. Como somos profissionais de educação, resolvemos escrever este artigo para o “Opinião Socialista”, pois não poderíamos deixar de compartilhar nossas análises da barbárie contemporânea a qual estão sendo submetidos o conjunto de trabalhadores e a juventude destas comunidades.

Ao entrar na estação Bonsucesso, enfrentamos o primeiro problema: o elevador não funcionava e tivemos que subir uma imensa escadaria para chegar até a bilheteria. Moradores tem direito a uma passagem de ida e volta diária, após cadastramento. Visitantes pagam R$1,00 para subir e, R$1,00 para descer.

Após a compra do bilhete, uma escada rolante nos leva até o embarque. Fomos atendidos por jovens trabalhadores, cena que se repete em todas as estações. Simpaticamente nos ajudam a entrar no teleférico já que ele se movimenta bastante. Sua estrutura é extremamente frágil para um meio de transporte. Para detectar isso não é preciso grandes estudos. Os bancos são desconfortáveis e ficamos com a sensação que um carro de montanha russa de parque de diversões causava uma impressão de segurança maior. O teleférico tem capacidade para transportar 10 pessoas. Estávamos em um grupo de quatro, por isso, não compreendemos como seria possível tal lotação, nem como garantir o transporte de cadeirantes e de carrinhos de bebê, já que o espaço é pequeno.

Passamos por todas as estações: Adeus, Baiana, Alemão, Fazendinha e Palmeiras. Durante este trajeto, percebemos que o teleférico não é simplesmente um meio de transporte. Ele é funcional ao mundo do capital, pois serve para controlar e vigiar toda a massa da classe trabalhadora pauperizada que ali vive. Do alto podíamos observar não só a geografia do Rio de Janeiro, mas toda a movimentação ocorrida na comunidade. Era possível ver, detalhadamente, as cenas cotidianas do interior das casas: pessoas lavando roupas, assistindo televisão, dormindo ou voltando do mercado. Parecíamos espectadores de um “Big Brother da vida real”.

Reconhecemos algumas escolas e creches da região. Afinal, como profissionais de educação este era um dos principais focos do nosso “olhar”, já que diariamente convivemos com as péssimas condições de trabalho e o drama da falta de vagas para estudantes. O número de casas, e obviamente de moradores e alunos, era superior ao que imaginávamos. Muito maior do que comportaria a quantidade de unidades escolares que existem na rede pública. Mas a ausência de políticas governamentais para esta população não acontecia só nesta parte.

Havia uma grande quantidade de lixo espalhado. Não identificamos postos de saúde ou hospitais. Era perceptível que várias casas estavam em situação de risco. Muitos moradores cobriam caixas d´água e tentavam resolver os problemas ocasionados pela chuva do dia anterior, possivelmente para evitar riscos de doenças. Contraditoriamente, os governos que anunciaram uma epidemia de dengue para o verão, culpam a população. Os mesmos que deram a saúde pública para as OS´s e desviam verbas da saúde e educação, estavam ausentes neste momento. A única presença do Estado visível estava na concentração de militares fortemente armados, prontos a reprimir a população.

Chegando a última estação, descemos do teleférico e pudemos observar algumas paredes de construções que restaram das demolições, onde se lia a frase pintada em vermelho: “Esta propriedade pertence ao governo do Estado”. Havia também algumas barracas com a venda de comidas e bebidas. Os banheiros estavam fechados.

Na volta, após o impacto inicial da ida, tivemos a certeza do significado do teleférico e do resultado da UPP naquelas comunidades.

A ocupação militar não garantiu uma vida melhor aos moradores. Apesar de uma sala de Cinema, de citação e personagens em novelas, da propaganda da mídia, do aumento de ONG´s e do teleférico, os trabalhadores continuam sem emprego, saúde, educação, moradia, transporte, cultura, lazer e saneamento básico. Violência, tráfico de drogas, pobreza e criminalização continuam latentes.

Para disfarçar a ausência de política para estes problemas os governos concedem bolsa família, bolsa carioca e uma série de outras políticas compensatórias. Tais programas permitem que os trabalhadores dessas comunidades não vivam em pobreza absoluta, garantem a manutenção do “exército industrial de reserva” e, também controlam a organização e mobilização por melhores condições de vida e trabalho.

As Unidades de Polícia Pacificadora, defendida por Dilma, Cabral e Paes, impõe uma nova política de segurança, criando a ilusão da humanização do capitalismo. Com esse discurso ajudam seus aliados, banqueiros e empresários, a continuar explorando a juventude e os trabalhadores. Desta forma, mantêm o lucro dos verdadeiros barões das drogas, que não vivem nestas comunidades e, escondem a principal questão: como o tráfico ocorre se não existem indústrias bélicas, nem plantação e laboratório para o refino de drogas?

A criminalização da pobreza desloca o domínio do confronto direto, com os verdadeiros culpados, para a ocupação territorial nas áreas onde vivem populações trabalhadoras de baixa e baixíssima renda. Desta forma é possível o governo justificar a intervenção militar, controlar e garantir a manutenção da exploração da burguesia nacional e internacional.

O teleférico nos fez perceber que os problemas dos trabalhadores não serão solucionados apenas com a luta pela educação. Uma mudança só será possível com o fim do capitalismo e a construção de uma nova sociedade, através da luta dos trabalhadores.

Nota: Após o envio deste artigo, o governo estadual implantava mais uma UPP na maior favela da América Latina: a Rocinha. O discurso é o mesmo de um ano atrás, assim como as prisões de traficantes. Coincidentemente, ocorre após denúncias do fracasso da política das UPP´s e, às vésperas do ano eleitoral.