Atual governador do Rio, o vice de Witzel, Cláudio Castro. Foto Luis Alvarenga

Todos nós sabemos que o genocídio levado a cabo pelo governo Bolsonaro segue a todo o vapor. Só que, infelizmente, ele não está sozinho na sua tarefa de levar morte e miséria para o maior número de famílias possível. Para dar conta dessa tarefa, tem ao seu lado governadores e prefeitos, como demonstra o caso do Rio de Janeiro.

Tanto no país como no estado do Rio de Janeiro, têm-se batido recordes quase diários de óbitos e casos, numa curva ascendente, sem termos nenhuma ideia de quando os números irão começar a cair, já que, praticamente, nada tem sido feito para enfrentar a pandemia.

O negacionismo não é só de Bolsonaro, mas também de Paes e Castro

Com mais de um ano de pandemia, contabilizando mais de 380 mil mortos, já está mais do que claro o papel cumprido por Bolsonaro. Ao desdenhar do vírus (e da dor daqueles que perderam seus entes queridos), promover aglomerações e fazer campanhas abertas contra o isolamento social, o uso de máscaras e, até mesmo, a vacinação, é dele a principal culpa pela situação catastrófica em que nos encontramos. Mas esse fato não pode esconder a culpa e a hipocrisia de governadores e prefeitos.

Cláudio Castro (PSC), que assumiu o governo do RJ após afastamento de Wilson Witzel (PSC), nunca escondeu sua adesão ao bolsonarismo. A principal tática adotada por ele, até o momento, tem sido o silêncio. Quem fizer uma busca com seu nome no _Google_ não vai encontrar nada relevante, além do fato de que o mesmo promoveu uma festa de aniversário para ele mesmo, paga com dinheiro público, com aglomeração e pessoas sem máscara, em pleno período em que o próprio havia decretado “quarentena” no Estado. Além disso, o mesmo já deu declarações contra medidas restritivas e, recentemente, criou um “comitê científico” para o combate à COVID-19, em que quase todos os membros indicados são defensores do “tratamento precoce”, com drogas que, comprovadamente, não possuem nenhuma eficácia para a doença ¹.

Já Eduardo Paes (DEM), apesar de não criticar vacinas e máscaras, na prática, não atua de maneira tão diferente. Desde a campanha eleitoral, com o objetivo de abocanhar um pedaço do eleitorado bolsonarista, deixou claro que não iria realizar o lockdown e, até o momento, apesar do caos instalado na rede pública, segue cumprindo sua promessa. A única medida colocada em prática para o combate à COVID foi um pequeno aumento do número de leitos hospitalares, que se demonstrou totalmente insuficiente. Para se ter uma ideia, em 14 de abril deste ano, 344 pessoas no Estado aguardavam uma vaga de UTI (unidade de terapia intensiva), de acordo com dados da Secretaria Estadual de Saúde. Segundo dados analisados pelo jornal _O Globo_, usando o sistema Sivep-Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe) do Ministério da Saúde, apenas em 2021, 35% dos mortos por COVID-19 no Estado não conseguiram vagas em UTI ².

Além disso, a cidade do Rio e o Estado dão plenos sinais de total colapso. Ainda em 14 de abril, profissionais de saúde de diversas unidades municipais e estaduais denunciaram que pacientes estão morrendo por falta de materiais, como equipamentos para bomba infusora e, até mesmo, sedativos ³. A falta deste último elemento é, particularmente, cruel, uma vez que, sem os sedativos, o paciente intubado acorda do coma, sofrendo com dores, com a presença do tubo, tendo que ficar amarrado ao leito, numa verdadeira cena de tortura. Essa medicação deveria estar sendo fornecida pelo governo federal, que não se pronunciou. Além disso, nem o governo Estadual nem os governos municipais avisaram aos profissionais e população sobre a possibilidade de falta dessa medicação, não tomaram nenhuma medida séria para redução do contágio e das internações. Pelo contrário, a vida no Estado e na cidade segue o ritmo normal. Inclusive, Castro e Paes brigam na justiça para manter as escolas abertas no pior momento da pandemia, como mostramos neste artigo.

Uma quarentena fake para dar munição aos bolsonaristas

 Diante de um cenário tão caótico, o esperado seria que os governos tomassem medidas que impedissem a circulação do vírus, como o lockdown, e, ao mesmo tempo, garantissem renda para que as pessoas tivessem condições de cumprir a quarentena. Já está mais do que provado a eficácia desta medida. Recentemente, por exemplo, a cidade de Araraquara (SP) conseguiu zerar as internações em UTI após o lockdown. Mas, ao contrário disso, os governos do RJ preferiram realizar medidas “cosméticas”, que só servem para causar irritação dos moradores da cidade. O fechamento de praias, por exemplo, mantendo todo o restante da cidade funcionando, com transportes públicos mais do que lotados, não tem nenhum efeito real sobre o contágio.

Mas, para dizer que algo está sendo feito, ao final de março deste ano, o Estado decidiu criar um “feriadão” de dez dias. Nas cidades do Rio de Janeiro e Niterói, ainda se proibiu abertura de bares e restaurantes durante esse período, porém, no restante do Estado, nem isso aconteceu. Nenhuma outra atividade foi proibida, apenas o comércio foi fechado parcialmente. Logicamente, a prefeitura se absteve de realizar qualquer fiscalização, o que fez com que, na prática, o isolamento ficasse totalmente aquém das necessidades da saúde pública. Enquanto cientistas concordam com a necessidade de se alcançar um isolamento em torno de 70% para que se tenha o efeito desejado, no RJ, a queda de circulação em locais de trabalho foi de apenas 34% 4.  Dessa maneira, a única coisa que o “feriadão” conseguiu foi dar argumentos aos negacionistas, que insistem em dizer que o isolamento social não funciona para nada.

Profissionais de saúde: aplausos da população, descaso do governo

 Desde que foi declarado que estamos vivendo uma pandemia, seu enfrentamento está sendo comparado a uma guerra. E nessa guerra, a linha de frente da batalha é, sem nenhuma dúvida, formada pelos profissionais de saúde. Dessa maneira, para nós que estamos vendo o dia a dia dos horrores da batalha, contando os feridos e mortos, expondo-nos e nossos familiares aos riscos da Covid-19, é muito mais duro o momento pelo qual estamos passando. Assim, o normal seria receber o reconhecimento de toda a sociedade, como ocorreu nos casos dos aplausos das janelas que aconteceram no ano passado.

Mas, infelizmente, não é assim que pensam os governos. A receita dos governos para os profissionais de saúde é a seguinte: sobrecarga de trabalho, assédio moral e desrespeito aos direitos trabalhistas. Nem o direito mais básico, que é o de receber salário, é respeitado e temos que conviver com constantes atrasos e a permanente incerteza. No âmbito do Estado, o governo teve a cara de pau de contratar médicos para os hospitais de campanha por meio da modalidade de “Pessoa Jurídica”. Dessa forma, o trabalhador é considerado uma empresa e, assim, não tem nenhum direito trabalhista. Até mesmo, caso se contamine pelo coronavírus enquanto exerce a profissão, não tem direito à licença remunerada, ficando com uma doença potencialmente grave e ainda perdendo seu sustento. Já na prefeitura, a situação não é diferente. A RioSaúde, empresa pública que administra unidades do município, não deposita os recursos do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) dos trabalhadores há mais de um ano. Assim, quem precisar se afastar por motivo de doença ficará sem salário! Além disso, os feriados para profissionais de saúde foram suspensos, e todos temos de fazer hora extra sem a garantia de que teremos essas horas compensadas em algum momento.

Para piorar, a prefeitura de Paes decidiu que, num momento tão difícil, sem nenhuma explicação plausível, a prioridade é retirar a maioria das unidades da administração da RioSaúde para entregar nas mãos de suas antigas aliadas, as Organizações Sociais (OSs), entidades privadas, teoricamente sem fins lucrativos, que estão no centro de todos os últimos escândalos de corrupção na área da saúde. Quando isso acontecer, vários trabalhadores perderão seus empregos, pois não há garantia de continuidade, e os que ficarem perderão as férias acumuladas. Muitos já estão, há dois ou três anos, sem tirar férias, por conta das constantes trocas de administração.

Diante de toda esta sobrecarga, aqueles que deveriam cuidar da saúde estão adoecendo cada vez mais. Segundo pesquisa realizada pelo portal de saúde PEBMED, 78% dos profissionais de saúde apresentaram sinais de Síndrome de Burnout – estado de esgotamento físico e mental causado pelo trabalho – durante a pandemia 5.  Já a Fiocruz, realizou uma pesquisa com apoio das secretarias de saúde, que demonstrou que 60% dos profissionais concordam que falta apoio institucional, e 21% se sentem desvalorizados pela própria chefia. Além disso, foram detectadas diversas consequências à saúde mental, como perturbação do sono (15,8%); irritabilidade, choro frequente e distúrbios em geral (13,6%); incapacidade de relaxar e estresse (11,7%); dificuldade de concentração ou pensamento lento (9,2%) 6 .

Nem todos estão tristes com a pandemia

Mas, se a maioria das pessoas está sofrendo com tudo o que estamos vivendo, existe um pequeno punhado que comemora. Enquanto a pandemia agrava a situação de crise econômica aumentando a fome e derrubando a renda dos trabalhadores, os ricos ficaram ainda mais ricos, com o Brasil “ganhando” 11 novos bilionários em apenas um ano.

Para se ter uma noção, o patrimônio líquido dos bilionários da saúde teve um crescimento de 134%! São os donos de redes de hospitais particulares, como a Rede D’Or, planos de saúde como a AMIL, laboratórios farmacêuticos etc. 7. Para essa gente, o mais importante na pandemia é a oportunidade de lucro. É por isso que, enquanto pessoas sofrem uma verdadeira tortura por falta de sedativos, as empresas responsáveis por sua fabricação aumentaram os preços em até 2900%! 8

A solução tem de vir da classe trabalhadora

Já está muito evidente que, para os governos, se tiver de morrer mais 380 mil pessoas, não fará diferença alguma. Cabe a nós nos organizarmos para mudar isso. Se o governo não quer fazer o lockdown, façamos nós uma Greve Geral sanitária, exigindo que o governo forneça auxílio emergencial para todos que precisarem. Se a indústria farmacêutica aumenta os preços dos medicamentos, organizemos manifestações exigindo que entreguem sua produção para que ninguém mais morra. Se as vacinas estão em falta, que se quebrem as patentes e comecem a produzir vacinas em massa, em todo território nacional.

Não aguentamos mais chorar nossos mortos! Não aguentamos mais esses governos que estão ao lado dos ricos, enquanto nós sofremos! Fora Bolsonaro genocida! Fora Mourão! Organizemos desde cada bairro e local de trabalho o nosso governo, pois nós sabemos muito bem como enfrentar a pandemia e salvar centenas de milhares de vidas!

Referências

¹ https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/04/13/claudio-castro-cria-comite-cientifico-para-enfrentamento-da-covid.ghtml

² https://oglobo.globo.com/sociedade/em-2021-38-dos-mortos-por-covid-em-hospitais-nao-chegaram-uti-1-24944189

³ https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/04/14/sem-sedativo-pacientes-intubados-no-rio-ficam-acordados-e-amarrados-ao-leito-diz-enfermeira.ghtml

4 https://oglobo.globo.com/rio/covid-19-mobilidade-no-rio-em-atividades-nao-essenciais-cai-ao-menor-nivel-em-nove-meses-aponta-google-confira-24958780

5 https://portalhospitaisbrasil.com.br/sindrome-de-burnout-afeta-78-dos-profissionais-da-saude/

6 http://informe.ensp.fiocruz.br/noticias/51044

7 https://comoinvestir.thecap.com.br/10-bilionarios-brasileiros-da-saude-que-aumentaram-suas-fortunas/

8 https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2021/03/24/sedativo-tem-aumento-de-quase-3-mil-por-cento-apos-aumento-nas-internacoes-por-coronavirus-diz-farmaceutica-de-hospital-em-goiania.ghtml