O que há de novo no atual massacre de Gaza?


A primeira novidade é que foi rompido o monopólio da mídia tradicional.[1] As redes sociais da Internet obrigaram a cobertura da grande imprensa a considerar a realidade. Ao mesmo tempo, com a difusão das imagens do horrível massacre de civis, a opinião pública começou a mudar, o que forçou ainda mais que a cobertura tradicional mostrasse, mesmo que parcialmente, o lado palestino. Desencadearam-se durante o ataque as maiores manifestações pacifistas no mundo desde, talvez, as multidões que encheram as principais capitais na preparação da invasão do Iraque.

Essa visibilidade do conflito parece ter contribuído também para uma sensível e importante mudança de opinião entre os próprios judeus sobre a questão palestina. Apesar de a maioria das comunidades judaicas do mundo ainda manter sua solidariedade com as políticas do Estado de Israel, uma pequena, mas crescente e ruidosa minoria entre os judeus do mundo tem se pronunciado contra a barbárie, a partir de variadas posições políticas.

Nos Estados Unidos, há importantes sinais de mudança: duas pesquisas apontaram uma redução, entre a população geral, no apoio às ações de Israel. Segundo uma delas, do Gallup, 42% aprovam a ação sionista e 39% não, ao passo que, entre as mulheres, não-brancos, pessoas com menor escolaridade e os jovens, a maioria condena o acionar de Israel. No caso dos jovens de 18 a 29 anos, a proporção contrária é de 51% a 29%![2].

A chamada Autoridade Nacional Palestina (AP) cada vez mais co-participa da ocupação, canalizando investimentos internacionais, inclusive israelenses, para explorar a mão de obra palestina. É notória a corrupção e o favorecimento do círculo ligado a Abbas. Além disso, suas forças repressivas, treinadas pelos americanos, exercem o papel de polícia para impedir o confronto com Israel. Essa combinação de investimentos e forte repressão ocasionou uma certa calmaria. Logo após os primeiros ataques israelenses na Cisjordânia, para prender centenas de ativistas políticos ligados ao Hamas, então parte integrante do governo de unidade nacional palestina, desfez-se qualquer “calma”.

Na noite de 23 de julho de 2014, dezenas de milhares de palestinos marcharam em direção ao check-point de Qalândia, na frente do Muro de Separação, tentando ir a Jerusalém. Embora a ação tenha sido brutalmente reprimida [3], demonstrou que pode estar em curso uma reunificação, um ressurgimento pela base do movimento palestino. A política da “Autoridade” Palestina, cúmplice no isolamento da Faixa de Gaza em relação à Cisjordânia, parece estar começando a naufragar. Esta é outra grande e alvissareira novidade.

As esperanças nutridas entre os palestinos desde os acordos de Oslo em 1993-4 de que pudesse surgir seu Estado ao lado de Israel foram sepultadas pela implacável e constante política de limpeza étnica dos sionistas. Recente pesquisa mostra que a quantidade de palestinos que são favoráveis à solução de um Estado com direitos iguais para todos os seus habitantes com a restituição dos direitos dos refugiados aumentou para dois terços[4].

Resistência
A outra surpresa foi a capacidade de resistência dos palestinos contra o quarto exército mais poderoso do mundo, que é equipado com o melhor da tecnologia bélica, fornecida pelos Estados Unidos. O segredo é muito simples: em Gaza todos sabem, desde pequenos, que a resistência é a única opção deixada pelo ocupante, pois o território é, dentro das fronteiras do que foi a Palestina histórica, o setor mais brutalmente oprimido desde 1947-1948. Sua população sofre, desde os anos 1950, periódicas incursões sionistas e vários massacres, amplamente conhecidos pelas gerações criadas na região. Essa situação insustentável dá à população a certeza de que sem resistência não poderá acabar com o cerco e produz o elevado moral de seus jovens para que resistam bravamente ao invasor [5].

Na época da primeira intifada (1988-1993), as tropas de ocupação tinham a ordem de seu comandante, Itzhak Rabin, de “quebrar os ossos” dos jovens que atiravam pedras. O mesmo personagem dizia que a solução para Gaza era “que afundasse no mar”. Ou seja, o permanente objetivo sionista é o de fazer uma limpeza étnica ou um genocídio total na área. Como isso não é possível, seguem a argumentação de Arnon Sofer, um dos principais demógrafos do país, assessor de Sharon na política de “separação”, ao prever o equilíbrio demográfico entre palestinos e judeus no território da Palestina histórica e definir que “se quisermos continuar vivos, é preciso matar, matar e matar, todos os dias, cada dia” [6]. Como isso não é possível, pois provocaria uma comoção mundial, periodicamente, realizam expedições punitivas, atacando, indiscriminadamente, homens, mulheres e crianças, no mais puro estilo das tropas coloniais ou dos nazistas no Gueto de Varsóvia.

Gaza começou a ser isolada da Cisjordânia e do mundo nos anos 1990. A partir de 2005, Tel Aviv realizou a farsa do “desengajamento”, ao retirar seus colonos da Faixa e bloquear totalmente o território, controlando tudo o que entra e sai de lá. A ocupação impede a pesca, destruiu a infraestrutura, tornando a água quase que impossível de beber, 70% da população vive da ajuda internacional e com menos de um dólar ao dia.

Ultra-Direita
Outro aspecto já antigo em Israel, o racismo contra os palestinos, tomou dimensões inéditas, incluindo também os judeus israelenses que se atrevem a protestar contra a barbárie. Altos dignitários do Estado e do governo têm incitado atos fascistas, como o que foi feito contra Mohamed Kader, sequestrado e queimado vivo. Rabinos [7], deputados[8] e intelectuais[9] têm propugnado o assassinato, estupro e outras formas de racismo extremo contra os palestinos nos principais órgãos de imprensa. Segundo recente artigo de Ilan Pappe condenando o massacre [10], um historiador importante como Benny Morris chegou a dizer em público ao jornal Haaretz em hebraico que as ações do exército de Israel até agora demonstram “fraqueza do espírito e da mente (sic)” e pediu muito mais destruição no futuro…. Coisa que, no momento de concluir essa nota parece que o governo estar fazendo, com poucos corajosos protestando em voz alta.

A direita fascista não é um pequeno setor no país. Ela tem representantes no governo e possui uma ampla base social entre os 500 mil colonos da Cisjordânia, além daqueles que habitam Israel.

Os pacifistas em Israel sempre foram uma minoria e se reduziram muito nos últimos 30 anos com o crescimento dos assentamentos, da imigração russa e da aceitação das políticas abertamente assassinas implantadas por todos os governos, laboristas e de direita, a partir da segunda intifada em 2001. Entre eles, figuram os que se denominam sionistas de esquerda, que se diferenciam do mainstream por estarem dispostos a oferecer “mais concessões” aos palestinos. Mas a restituição dos direitos nacionais usurpados do povo palestino não pode ser tema de nenhuma “concessão”, e sim de solidariedade incondicional, pois não lhes pertence, a começar pelo fim da ocupação da Cisjordânia e de Jerusalém e do bloqueio a Gaza, chegando aos mais fundamentais, como o direito de retorno dos refugiados.

Esquerda sionista
Só com essa atitude, que significa o reconhecimento do principal sujeito na luta contra o militarismo, a opressão e a exploração poderão os pacifistas e a esquerda israelense forjar uma aliança sólida contra a crescente direitização em seu próprio meio. Ao não romper este cordão umbilical com o sionismo, permanecerão como uma minúscula minoria sem laços com as necessidades da maioria palestina explorada e oprimida. Tampouco poderão ser uma alternativa aos trabalhadores judeus mais explorados e os provenientes dos países árabes, quando e se esses mudaram suas posições amplamente favoráveis a favor das políticas mais duras contra os palestinos.

Uma mostra dessa atitude foi a proposta de “paz” em Genebra patrocinada por setores da esquerda sionista, em 2005, que apenas “oferecia” concessões quase que simbólicas no tema dos refugiados e dos territórios, obtendo o “reconhecimento” do caráter judaico de Israel, a permanência da maioria dos colonos na Cisjordânia e a garantia de que o hipotético estado palestino seria desmilitarizado [11]), Ou seja, estabeleceria um estado palestino tampão inviável e manteria a discriminação institucional e de fato aos palestinos nas fronteiras de 48 e fora de qualquer solução os 5 milhões de refugiados.

Outro exemplo: na convocação para a manifestação em Tel-Aviv no dia 26 de julho, à qual certamente iria se lá estivesse e à qual compareceram milhares de pessoas, lia-se: “comecem a negociar com a liderança palestina reconhecida da Cisjordânia e de Gaza, para acabar com a ocupação e o bloqueio e para atingir a independência e justiça para ambos os povos em Israel e na Palestina”[12]. Ora, mesmo entendendo as difíceis condições a que estão submetidos, tanto a pressão do Estado como da maioria esmagadora da população judaica local influenciada pelo ambiente militarista, colocar o fim da ocupação e do bloqueio como algo a ser negociado é equivocado. Provavelmente o movimento esteve sob pressão para fazer um acordo para viabilizar um ato mais amplo, que acomodasse o máximo de posições em um setor já bem pequeno da população. Aliás, tampouco impediu que fossem atacados pelos grupos fascistas.

Essas diferenças podem parecer sutis, mas a mudança de foco faz muita diferença. Não haverá paz sem justiça. Se os chamados sionistas de esquerda pretendem realmente a paz, devem romper com o sionismo e se aliar aos palestinos, dentro e fora das fronteiras de 1948 para lutar por um único estado na Palestina histórica.  Agora, após muitos anos, esta realidade é mais premente que nunca, e pode abrir o diálogo com alguns deles, que se disponham a fazer um balanço sincero desses 65 anos de existência do “Estado judeu e democrático”. Em uma frase, trata-se de recriar a unidade entre a luta pela auto-determinação da nação oprimida com as lutas sociais contra a exploração.

Certamente, a situação está mudando. Não estão claros os contornos do que irá surgir com estas mudanças. Nossos corações se enchem de amargura com os incontáveis mortos e feridos, com as centenas de vidas destruídas. Não obstante, temos esperança de que mais um capítulo dessa tragédia histórica produza novos atores sociais e políticos a partir da resistência à barbárie sionista em toda a Palestina e que possam mudar definitivamente essa história que já dura mais de 65 anos.

[1] Para uma análise da situação em Gaza depois da ofensiva “Chumbo Fundido”, ver(https://www.academia.edu/1930285/As_perspectivas_da_luta_palestina_apos_o_massacre_em_Gaza)

[2] http://www.theamericanconservative.com/larison/gaza-and-u-s-public-opinion/

[3] http://www.democracynow.org/2014/7/25/turning_point_largest_west_bank_protest

[4] http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/.premium-1.601938

[5] http://www.maannews.net/eng/ViewDetails.aspx?ID=715567

[6] http://therealnews.com/t2/index.php?option=com_content&task=view&id=31&Itemid=74&jumival=10942

[7] http://davidduke.com/45336/

[8] http://dissidentvoice.org/2014/07/israeli-mp-mothers-of-all-palestinians-must-be-killed/

[9] http://www.haaretz.com/news/national/.premium-1.606542

[10] http://electronicintifada.net/content/family-one-thousandth-victim-israels-genocidal-slaughter-gaza/13648

[11] http://www.lrb.co.uk/v26/n01/ilan-pappe/the-geneva-bubble

[12] http://maki.org.il/en/?p=2710

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