O que é independência de classe?

O manifesto comunista, escrito por Marx e Engels, é um marco da independência de classe do proletariadoSegundo Marx, a burguesia e o proletariado são as classes fundamentais, antagônicas e inconciliáveis no capitalismo. Em sua busca por lucros, a classe dos capitalistas empreende a luta contra toda a classe trabalhadora.

Como dizia Lenin: “Todos os patrões se unem em um mesmo interesse: manter os trabalhadores submissos e pagar-lhes o salário mais baixo possível”. Nessa luta, a principal arma da burguesia é o Estado capitalista.
Da mesma forma, os trabalhadores se unem para a luta contra os patrões para não permitir que o capital lhes esmague, e para defender seu direito a uma existência humana.

O princípio da independência de classe do proletariado significa que os trabalhadores têm de elaborar um programa político independente da burguesia e construir suas próprias organizações sindicais e políticas para a luta contra a exploração capitalista em direção à revolução socialista. O Manifesto Comunista, escrito por Marx e Engels para uma organização de operários, é um marco da independência de classe do proletariado, a tomada de consciência da necessidade de se constituir em partido proletário independente.

Desde então, diversos teóricos reformistas têm se esforçado para convencer os trabalhadores a abandonarem a concepção marxista da independência de classe, divulgando suas idéias de conciliação no movimento operário.

Sindicalismo a serviço da organização da produção capitalista

Para Lenin, os sindicatos devem ser ferramentas dos trabalhadores para as suas lutas contra os patrões. Porém, para as correntes oportunistas os sindicatos devem “defender” os interesses dos trabalhadores em parceria com a burguesia.

Os reformistas dizem que é preciso, a partir da “racionalidade”, juntar os “bons cidadãos”, independentemente de sua classe social, para construírem juntos melhores relações sociais. Transformam assim o sindicalismo numa ferramenta a serviço da melhor organização da produção capitalista.

No Brasil, a CUT foi um marco da resistência e da luta independente dos trabalhadores, enfrentando os pelegos dos sindicatos atrelados aos governos militares. Mas, durante as décadas de 1980 e 1990, a direção da CUT iniciou um avanço em direção à conciliação, afastando-se da luta dos trabalhadores, adaptando-se às câmaras setoriais e restringindo a democracia interna.

Com o governo Lula, a CUT dá um salto de qualidade em sua integração ao Estado, passando a ter acesso às verbas deste e integrando diversos sindicalistas em postos-chaves do governo. Com isso, o governo de Lula, apoiado na CUT, através das reformas Sindical e Trabalhista, pretende destruir todos os sindicatos independentes que fazem oposição ao governo, preparando a destruição de direitos históricos dos trabalhadores.

A construção de uma nova alternativa de organização e direção das lutas dos trabalhadores se coloca como uma necessidade urgente para o resgate da independência de classe.

PT: da independência à conciliação de classes

No Brasil, a fundação do PT, em 1980, foi um grande avanço em direção à independência de classe, levando a maioria dos setores organizados do proletariado a romper com a política de conciliação com a burguesia levada pelos partidos stalinistas, o PCB e o PCdoB. Mas, ao longo da década de 90, o PT foi modificando essa política, até abandoná-la completamente, sendo hoje um fiel defensor da burguesia nacional do imperialismo.

Expressão teórica e prática desse abandono da independência de classe são as posições do ex-guerrilheiro e atual presidente do PT, José Genoino: “(…) é preciso notar a relativa autonomia do social, do econômico e do político (…) Nesse ponto, posso dizer a todos, claramente, que fazem parte da disputa política realidades e problemas que não se explicam pela luta de classes”.

Para Genoino, classe, luta de classes, política e socialismo são esferas autônomas. Tal posição serve somente para dizer que é possível ser socialista, sem defender a necessidade da revolução. Serve para enganar os trabalhadores, afirmando que é possível defender seu nível de vida sem ter de enfrentar a burguesia, votando no PT, pois como diz Genoíno “a política é independente da luta de classes”. E, principalmente, serve para eles defenderem que não é preciso destruir o Estado capitalista, pois este também não seria reflexo da estrutura de classes da sociedade, e a tarefa principal dos trabalhadores seria assumir o Estado e reformá-lo para atender aos interesses de “todos”.

Governo Lula: exemplo da impossibilidade da conciliação de classes

Com o governo Lula, a direção do PT e os intelectuais reformistas puderam colocar em prática suas concepções teóricas acerca da conciliação de classes e da reforma pacífica do Estado. Militantes de esquerda e representantes do Capital passaram a administrar juntos o Estado burguês, dizendo que iriam “governar para todos”. Passados quase 600 dias de governo, o aprofundamento das reformas neoliberais, a subordinação ao FMI e o conseqüente agravamento da crise social são a maior prova da impossibilidade de se conciliar os interesses de classe: Lula governa com e para a burguesia nacional e imperialista, e contra os trabalhadores.

O velho reformismo do “novo” P-SOL

De outra maneira, mas igualmente conciliatória, Carlos Nelson Coutinho, um dos principais ideólogos do P-SOL, defende a necessidade de revisar a teoria marxista.

Em seu texto “Grandezas e limites do Manifesto”, Coutinho afirma que diferentemente das previsões de Marx, o capitalismo não necessariamente levaria a um aumento da miséria dos trabalhadores, e, por conseguinte, não acarretaria uma guerra violenta entre as classes.

Para Coutinho, uma vez que “a conquista do sufrágio universal e a criação de sindicatos e partidos operários de massa obrigou o Estado capitalista a se abrir para outros interesses que não os da classe dominante”, a reforma do Estado passa a ser a estratégia para os trabalhadores abdicando da revolução, que para ele pode (…) “agora ser imaginada não mais sob a forma de uma ‘explosão violenta’ concentrada num curto lapso de tempo, como ainda o faz o Manifesto, mas sim de um movimento processual, de longa duração, que opera nos espaços progressivamente abertos pelas instituições liberal-democráticas”.

O essencial para Coutinho é a luta pelas reformas do capitalismo. Mas, então, como explicar o aumento progressivo da miséria e da fome dos trabalhadores?

Ao não poder responder essa questão sem ir contra “sua própria” teoria, a defesa do comunismo por parte de Coutinho se dá então de forma escolástica, sem refletir a realidade social do capitalismo.

É verdade que Coutinho sempre defendeu uma política “aliancista” desde seus tempos no PCB, e depois no PT. Mas, ao que tudo indica, Coutinho não está sozinho dentro do P-SOL. A política de apoio a várias candidaturas burguesas e governistas no atual processo eleitoral mostra que a direção do P-SOL não defende a independência de classe, e repete a política de conciliação de classes dos velhos PCs e do PT em sua fase decadente.

Post author Roberto Martin, de Belo Horizonte (MG)
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