O poeta que nos ensinou a não temer a queda


35 anos depois de sua morte, precisamos cada vez mais de Vinicius de Moraes

O ritmo é intenso, ao fundo o pandeiro e a cuíca dão o tom do samba. A voz cadenciada de Vinicius flui naturalmente, exortando: “Abre os teus braços meu irmão, deixa cair/ Pra que somar se a gente pode dividir?“. Arremata então aqueles versos que talvez possam sintetizar as seis décadas e meia de existência do poeta: “Eu francamente já não quero nem saber/ De quem não vai porque tem medo de sofrer“.

Nesse dia 9 de julho, o vazio deixado por Vinicius de Moraes completa longos 35 anos. Mas três décadas e meia depois de sua morte, o poeta da paixão, ou o poetinha, alcunha recebida de forma pejorativa por críticos nostálgicos do estilo parnasiano, vive no imaginário coletivo dos brasileiros. Como disse Ferreira Gullar, seu amigo por anos, “Vinicus de Moraes ajudou o povo brasileiro a ser feliz“. Posto que a vida é invenção, argumenta Gullar, Vinicius escolheu a alegria.

Alguns cresceram ouvindo Vinicius. Seja através de discos como o infantil “Arca de Noé”, gravado com Toquinho, seja na vitrola da família. Eu não. Descobri Vinicius de forma tardia, digamos assim, quando já ultrapassava os vinte anos. Mas penso que foi uma espécie de sorte, pois quando parei para escutar realmente Vinicius, aquilo bateu. Como alguém conseguia expressar de forma tão visceral, profunda, uma alegria doída ou uma tristeza com um fundo de alegria, de “um dia não ser mais triste“?

Eu, que sempre tive uma certa aversão à bossa nova, principalmente pelo minimalismo e o que sinto como frieza de um João Gilberto, me senti arrebatado por aquilo. E daí, você vai lendo, pesquisando no farto material disponível na Internet, em DVD e livros, em busca desse mistério chamado Vinicius.

Em busca do poeta
Descobre que aquela figura tão conhecida de um poeta despojado nem sempre foi daquele jeito. O garoto de classe média nascido em 1913 no Rio e que estudaria num tradicional e rígido colégio jesuíta, se tornaria um jovem poeta marcado pela religião e misticismo, preso aos padrões formais dos versos. E, mais incrível ainda, simpatizante do integralismo, a versão brasileira do fascismo. Mas, como disse o amigo Gullar, aquele não era Vinicius. “Ele vai aos poucos se convertendo em Vinicius de Moraes“.

Parte desse processo, ficamos sabendo, é a aproximação com os modernistas, como Mário de Andrade. A busca pelo cotidiano e os temas simples da vida. O ambiente, desconfiamos, também pode ter marcado essa virada na vida de Vinicius. Ao invés da repressão do colégio ou da sisudez da faculdade de Direito, a vida próxima dos artistas possibilitada pelo trabalho no Itamaraty. E os pequenos shows à noite nas boates, tolhido pelo obrigatório terno exigido pela profissão.

Mas quando ele se torna de fato o Vinicius de Moraes que conhecemos? Embora tivesse sido um processo, um marco importante foi a peça Orfeu da Conceição escrita por Vinicius em 1954. Nada menos que uma adaptação do mito grego de Orfeu e Eurídice para os morros do Rio. Saem os personagens do mundo dos deuses antigos, entram o sambista negro e Eurídice como uma retirante nordestina. Enquanto vamos conhecendo mais Vinicius, notamos como essa junção entre o clássico e o cotidiano, contemporâneo, é talvez sua maior marca.

E essa peça é importante também, porque é nela que o poeta se encontra com aquele que viria a ser seu maior parceiro, Tom Jobim, na época um jovem pianista dos inferninhos da cidade. “Vai rolar um dinheirinho aí?“, teria perguntado o maestro a Vinicius quando convidado a fazer a peça. De Orfeu saiu músicas como “Se todos fossem iguais a você”, que Vinicius faz um comentário interessante, sobre a licença poética na poesia e na música. “Já imaginou que chato você sair na rua e todo mundo ser igual?“. Pois é, na realidade não funciona, mas na arte, que não tem obrigação nenhuma de verossimilhança, mas transcendência, é lindo.

E, bom, quando Vinicius mergulha no que viria a ser a bossa nova, com o disco “Canção do Amor Demais”, já era um poeta reconhecido com algumas músicas de sucesso na bagagem. (Você pode ouvir o disco no Youtube aqui). Embora tenha  músicas como “Chega de Saudade” e “Eu Não Existo Sem Você”, e o violão de João Gilberto, é um disco que causa certo estranhamento pela voz de Elizete Cardoso. Uma voz mais moldada aos padrões das grandes cantoras radiofônicas. Mas o resultado é interessante, vale a pena ouvir.

A partir daí, Vinicius vai se firmando como músico popular, com parcerias com alguns que se tornariam grandes nomes da música brasileira, como Carlos Lyra, Edu Lobo, Francis Hime, o próprio Pixinguinha. Na fase final da vida se une ao então garoto Toquinho, com quem passa uma década gravando e viajando mundo afora, formando a dupla que mais temos material gravado hoje em dia. E, claro, Baden Powell, o talentoso violonista com quem compôs músicas maravilhosas como “Samba Em Prelúdio” e os fantásticos Afro-Sambas, uma busca das raízes africanas da música que desaguaria no samba. Pessoalmente, acho que os Afro-Sambas é uma das razões pelos quais Vinicius não pode ser enquadrado e rotulado tão simplesmente como “bossa nova”. (ouça o disco aqui)

Adentrar o mundo de Vinicius de Moraes é encontrar um país em formação, fervilhando ritmos e sons. É ver um homem em busca de si próprio e, nesse processo, jogar fora o terno e lançar a gravata no mar místico da Bahia. Trocar a cruz pelo candomblé, e a penitência pelo prazer.

Mas não basta conhecer a obra, a vida de Vinicius é tão fascinante quanto as músicas e poemas que compôs. E cheia de histórias deliciosas. Uma delas foi quando o poeta e o amigo de longa data, Antônio Maria, caminhavam pela praia e se depararam com alguns banhistas se exercitando na areia. Ficaram lá, calados, contemplando aquela cena por um momento, quando um virou para o outro e, juntos, firmaram um pacto de nunca fazer qualquer movimento corporal inútil como aqueles.

Não é por menos que Drummond disse que Vinicius foi o único poeta a viver como poeta. Era uma figura que transbordava emoção, às vezes até demais. Sensibilidade à flor da pele, até por isso a necessidade do whisky. Sem ele, chegou a confidenciar a amigos, o mundo ficava por demais pesado. Tinha necessidade de sempre estar rodeado pelos amigos, abria a casa para conhecidos e até desconhecidos e vivia num desprendimento ao dinheiro que chegou a fazê-lo passar por apertos. E, sobretudo, não temia a queda. A paixão era sua mola propulsora e a ela se entregava mesmo sabendo não ser eterna, “posto que é chama”. Sabia que a vida só se dá a quem se deu e que se o sofrimento era o preço a se pagar, que seja.

Vinicius, velho, sarava
No dia 9 de julho de 1980, imerso na banheira na qual passava horas e horas a fio, muitas vezes acompanhado de uma garrafa de whisky, Vinicius de Moraes deu seu suspiro derradeiro.

O que poderíamos mais falar do poeta além das frases compartilhadas no Facebook ou o que encontramos nos livros ou no Wikipedia? Talvez, da necessidade hoje de Vinicius. Num mundo marcado pelo frio calculismo individualista moldado por anos de neoliberalismo, a paixão, a emoção e a entrega absoluta pela vida podem ser inspiradores. Vinicius pode nos ensinar a viver num mundo tão avesso aos riscos e aferrado aos poucos e miseráveis espaços de conforto. Viver ao invés de tão somente sobreviver. É a voz a sussurrar em nossos ouvidos que “ai de quem não rasga o coração/ Esse não vai ter perdão“.

Se, como Ferreira Gullar sempre faz questão de lembrar, o sentido da vida é uma invenção, num mundo com academias de ginástica demais e emoção de menos, esse é o Vinicius que construí pra mim.

CONHEÇA MAIS
Um ótimo documentário sobre o poeta é “Vinicius” de 2005, de Miguel Faria Jr. Assista aqui.

Outro documentário é na verdade um conjunto de filmagens íntimas editada em 83 pela própria filha do poeta, Suzana de Moraes (morta no início deste ano). Veja aqui.