O Líbano numa encruzilhada

Novamente, o Líbano viveu fortes enfrentamentos internos. O conflito iniciou com a decisão do governo pró-imperialista do primeiro-ministro Fuad Siniora (aprovada por parte de seu gabinete de ministros) de eliminar a rede de comunicações da organização xiita Hizbollah.

Foi, seguramente, uma medida exigida pelo imperialismo, apoiada pelos setores burgueses que respaldam o governo de Siniora – o milionário sunita Saad Hariri, a organização Mufti e o líder da minoria drusa Walid Jumblatt. O objetivo era fazer avançar a “tarefa pendente” de debilitar o Hizbollah, que controla um verdadeiro “estado dentro do estado”, sem a qual nenhum projeto do Líbano pró-imperialista “estável” é possível.

Antes de adotar essa medida, havia se acendido um novo e perigoso sinal de alerta para o governo. A CGTL (principal central sindical do país de caráter pluri-religioso, mas cuja direção é influenciada pelo Hizbollah) havia lançado uma greve geral muito vitoriosa na capital, Beirute, e no sul do país por aumento de salários, contra a carestia de vida e contra o plano de privatizações proposto por Siniora.

Intenção do governo é derrotada
O bloco Siniora-Hariri-Jumblatt fez uma péssima leitura da relação de forças existente no país. Em primeiro lugar, o exército libanês se negou a atacar o Hizbollah. Em segundo lugar, as informações indicam uma melhora do armamento militar do Hizbollah, que se soma ao grande prestígio e à influência popular ganha por sua resistência à invasão israelense, em 2006, que culminou com um triunfo sobre o exército sionista.

Nesse marco, os enfrentamentos se produziram entre as milícias do Hizbollah, por um lado, e as milícias de Hariri e Jumblatt, pelo outro. Entretanto, apoiaram o Hizbollah a frente patriótica do cristão maronita Michel Aoun, o Partido Comunista Libanês e o movimento AMAL.

O imperialismo não interveio diretamente no conflito, ainda que o tenha feito de modo indireto como uma advertência ao Hizbollah: a quarta frota naval dos EUA estacionou em águas internacionais em frente a Beirute e as tropas francesas de “paz” da ONU realizaram um “exercício de simulação de combate” no sul do país.

A tentativa de Siniora-Hariri-Jumblatt terminou totalmente derrotada: o Hizbollah não só mantém sua rede de comunicações e o controle do aeroporto, mas conseguiu dominar a metade da capital. Desde esse ponto de vista, devemos caracterizar esse resultado como um triunfo das massas libanesas contra o plano imperialista.

A classe operária entra em cena
Queremos destacar especialmente a entrada em cena da classe operária libanesa porque se trata de um fato novo de peso central na complexa situação libanesa. Em primeiro lugar, a greve geral lançada pela CGTL teve como centro as reivindicações próprias dos trabalhadores, em segundo lugar, o êxito da greve só foi possível porque os trabalhadores se uniram como classe, por cima das diferenças confessionais com que a burguesia mantém dividido o país. Participaram da greve todos os sindicatos: condutores, padeiros, eletricistas, trabalhadores autônomos etc. No dia em que realizaram uma manifestação, se enfrentaram com os militantes do partido de Hariri. A greve teve grande apoio popular já que também reivindicava direitos de todo o povo e hoje a pobreza afeta 30% dos habitantes do Líbano.

Esse fato ajuda a esclarecer a aparência “confessional” [religiosa] do conflito libanês para clarificar o caráter de enfrentamento de classes e interesses econômicos do mesmo: de um lado, a classe operária, a pequena burguesia empobrecida (xiita, cristã e sunita) e setores burgueses prejudicados pelo plano econômico pró-imperialista; do outro, a burguesia pró-imperialista se beneficia da ajuda internacional para a “reconstrução” do país e os setores médios aliados a ela (principalmente setores sunitas e cristãos). Não é casual que Saad Hariri seja um riquíssimo empresário da construção cujos negócios florescem ainda mais com essa “ajuda”.

As limitações do Hizbollah
No entanto, apesar de seu novo triunfo, como fez depois de sua vitória sobre o exército sionista, em 2006, o Hizbollah pára nas “portas do poder”, chama um governo de “unidade nacional” com Siniora e só reclama uma “distribuição eqüitativa” dos cargos do governo (metade para cada coalizão enfrentada).

Quer dizer, novamente permite a recomposição das forças pró-imperialistas e a manutenção do atual Estado libanês, dividido por setores confessionais na composição do parlamento e na formação do governo.

Em termos estratégicos, a política do Hizbollah de não aproveitar a fundo seus triunfos e avançar sobre as forças pró-imperialistas é suicida. Uma combinação futura de uma mudança na relação de forças dentro do Líbano (por exemplo, uma modificação da posição atual do exército libanês e uma intervenção direta das forças da ONU) e uma recuperação de Israel de sua derrota de 2006 poderiam deixá-lo totalmente preso entre dois fogos inimigos, com o risco da organização e ser destruída.

Nesse sentido, nossa crítica ao Hizbollah se baseia na não realização de tarefas essenciais no Líbano. A primeira delas é a liquidação da atual estrutura confessional do Estado libanês e a construção de um Líbano laico e democrático, sobre a base de “um homem – um voto”. Nas atuais condições, esse sistema seguramente daria uma clara maioria ao Hizbollah e seus aliados. A segunda é a exigência da saída das forças da ONU, cuja presença significa uma afronta à soberania do país e uma ofensiva militar do imperialismo. Também está colocada a necessidade de uma reforma agrária, especialmente no norte do país, para tirar a base latifundiária de Hariri.

É evidente que nenhum estado libanês poderá ser estável e realmente autônomo enquanto continue a permanente ameaça militar de Israel em suas fronteiras. Por isso, o Líbano, se quer sobreviver, não pode reivindicar a “coexistência pacífica” com o sionismo, mas a necessidade de destruir o Estado de Israel. Isso coloca a urgente necessidade da unidade dos libaneses com os palestinos, começando por dar plenos direitos políticos aos palestinos refugiados no Líbano, sem que por isso devam renunciar a sua nacionalidade palestina ou ao direito de retorno a sua terra histórica. É preciso apoiá-los na sua luta contra Israel.

Sabemos que a batalha contra Israel não é fácil porque se trata de um inimigo armado até os dentes que tem respaldado do imperialismo norte-americano. Mas a vitória contra a invasão de 2006 mostrou que é possível. E o será muito mais no marco de uma grande mobilização de todas as massas árabes e muçulmanas com esse sentido. Para nós, essa grande mobilização deve se dar na perspectiva da construção de uma Federação Socialista de Repúblicas Árabes.

A entrada da classe operária em cena, quebrando a armadilha da divisão religiosa, mostra o caminho para levar adiante essas tarefas.