O imperialismo, a execução de Osama Bin Laden e o movimento operário

A execução do líder da rede terrorista Al Qaeda, Osama Bin Laden, pelos Estados Unidos, no dia 2 de maio, pela gravidade e abrangência da temática, deve ser pautada nas organizações operárias e socialistas do mundo inteiro. A operação militar executada de forma clandestina no território de outro país, comandada e transmitida ao vivo e online, diretamente pelo presidente Barack Obama e pelo seu staff de ministros, revela a velha e real, e cada vez mais, natureza intervencionista do Estado imperialista norte-americano.

Aos analistas, jornalistas, cientistas políticos, líderes políticos e acadêmicos em geral que criaram referenciais de análises pautados numa suposta superação do conceito de imperialismo, substituindo-o por referenciais de prevalência da multilateralidade das relações internacionais após a queda do Muro de Berlim; da valorização da ONU como instância democrática; do tão propalado Direito Internacional dos tratados internacionais, ou ainda, que a globalização teria criado uma “aldeia global” e outras globobagens, tão presentes no modismo nas centenas de publicações das Ciências Sociais, agora não resta dúvida.

Não se trata de mais uma ação intervencionista dos Estados Unidos em outro país. O Estado imperialista norte-americano, ao intervir e executar um indivíduo, líder de massas (concordemos ou não com sua ideologia), no território do Paquistão, busca dar um recado a todo o Oriente Médio e ao Mundo Árabe em particular: ponham-se de joelhos! Aos vossos regimes, sejam democracias ou ditaduras, monarquias ou repúblicas: não ousem ser soberanos!

A ação do imperialismo norte-americano procura responder a dois fatores essenciais. O primeiro, é apelar para um artifício nacional-imperialista, presente majoritariamente na consciência da população norte-americana, principalmente em função dos atentados às Torres Gêmeas, buscando a superação da baixa popularidade de Obama, já expressa na derrota das eleições parlamentares, e com isso catapultar sua reeleição presidencial. O segundo, é responder, em outro terreno ideológico, o da “guerra contra o terrorismo”, ou o do “ocidente contra o islamismo”, à expansão das mobilizações revolucionárias de caráter democrático e internacionalista, abertas com a revolução da Tunísia e que se espalhou como um rastilho de pólvora, ainda sem terminar, por todo o Oriente Médio e o Norte da África, atingindo tanto os governos aliados de Mubarak, no Egito, e Arábia Saudita, como os supostos inimigos da Síria e do Irã.

O presidente Barack Obama foi eleito com o apoio das grandes massas populares dos Estados Unidos: os negros, desempregados, latinos, operários, movimentos operários e sociais, expressando uma resposta no campo eleitoral da insatisfação popular relacionada à crise econômica aberta em 2008, ao desgaste do republicanismo militarista da família Bush e às históricas opressões raciais internas.

No entanto, o fato de ser eleito num sistema eleitoral bipartidário, numa campanha igualmente milionária e chegar ao principal posto político do Estado imperialista mais poderoso e rico do mundo, já serviria para analisar que a burguesia norte-americana, diante da insatisfação popular, também tem seu plano B: um rosto e um sorriso mais humanos de origem negra. No entanto, as ações concretas são mais reveladoras do que os sorrisos dados nas favelas do Rio do Janeiro.

O governo de Obama e do Partido Democrata (aos quais muitos setores da esquerda internacional depositaram certas ilusões devido as suas origens raciais), que autorizou o ataque militar à Líbia por um simples telefonema durante uma audiência pública quando esteve no Brasil, ao lado da presidente Dilma, revela sua verdadeira natureza: o governo de um país imperialista que lidera um sistema mundial de Estados, dinamizado pelos interesses do grande capital, organizado e hierarquizado pelos negócios e lucros das empresas multinacionais. Esta ainda é a velha ordem gerada pela internacionalização do capital: a ordem do imperialismo iniciada no final do Século XIX e início do Século XX, uma “era de guerras, crises e revoluções”. Uma era que só pode trazer destruição das forças produtivas: da natureza e da humanidade.

A relevância que possui os objetivos do domínio dos Estados Unidos e de seus aliados europeus na região árabe, além das estratégias da geopolítica, obviamente se relaciona com as maiores concentrações de petróleo e gás do planeta, já que aquelas economias que mais consomem são as que menos produzem. Basta lembrar que somente os EUA consomem 25% do petróleo produzido do mundo, mas é apenas o 11º país em reservas de barris de petróleo (30 bilhões de barris), o que representa pouco mais de 10% das reservas da Arábia Saudita, que é o maior detentor das reservas mundiais (ao redor de 264 bilhões de barris de petróleo) seguida pelo Irã (com 137 bilhões de barris), Iraque (115 bilhões), Kuait com (101 bilhões), Emirados Árabes (97 bilhões) e Venezuela (80 bilhões de barris).

O movimento operário e socialista necessita repudiar a ação militar imperialista e exigir julgamentos independentes e soberanos dos crimes terroristas

As ações do terrorismo individual, patrocinados por organizações ao estilo da Al Qaeda, além de não combater o imperialismo, favorecem as ações ideologicamente justificadas da parte do governo dos Estados Unidos e aliados. O atentado às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, em que mais de três mil pessoas de várias nacionalidades morreram, e outros atentados no mundo, somente forneceram a munição ideológica ao governo norte-americano para desencadear a invasão do Iraque e do Afeganistão, fazendo recrudescer o nacional-imperialismo racista dentro dos Estados Unidos, além de restringir as liberdades democráticas internas e garantir mais orçamento para as forças armadas e a espionagem internacional daquele país.

As ações terroristas unicamente reforçam a catarse da cruzada imperialista contra os povos e a cultura árabe cujo verdadeiro objetivo é garantir o controle do petróleo e do território árabe nas mãos das multinacionais. Por outro lado, as demonstrações de solidariedade de setores da população árabe com Bin Laden e com organizações fundamentalistas, revelam que o justo sentimento anti-imperialista das nações oprimidas foi depositado de forma distorcida nas mãos destas organizações, pois a única bandeira que pode derrotar o imperialismo é aquela que unificará os povos árabes com a classe trabalhadora europeia e norte-americana: a bandeira da solidariedade internacional dos oprimidos e dos direitos da classe explorada no mundo inteiro, a classe trabalhadora.

Um consequente movimento operário e socialista necessita lutar pela direção das aspirações anti-imperialistas dos povos árabes. A luta pela libertação nacional, pela democracia, pela liberdade de imprensa e de organização, pelos direitos civis, tão evidentes nas ruas da Tunísia, do Egito, da Líbia, da Síria e de todos os países árabes, só terá credibilidade se partir do repúdio de qualquer intervenção militar, econômica e da espionagem da CIA nos países imperialistas na região.

Ao passo que diante da luta pela soberania dos povos árabes não poderá haver nenhuma complacência com as ações terroristas individuais, isoladas das decisões das organizações representativas, sob pena da luta anti-imperialista se desmoralizar perante os trabalhadores do Ocidente. Partindo do repúdio político das ações terroristas isoladas das organizações do movimento de massas, faz-se necessário também a exigência de julgamento dos terroristas presos e suspeitos de ataques, por tribunais árabes soberanos e independentes, compostos por organizações e personalidades da sociedade civil daqueles países.

David Cavalcante é membro do Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos (Ilaese)