O fim da blindagem e a queda de Palocci

Denúncias detonam ministro da fazenda. Governo sai desgastadoA crise política está de volta. Depois da queda de Zé Dirceu e Genoino no ano passado, caiu o ministro mais importante do governo do PT, Antonio Palocci (Fazenda). Espertalhão, o ex-todo poderoso ministro evitou renunciar e optou pelo afastamento para responder os eventuais processos em foro privilegiado, no Supremo Tribunal Federal (STF).

A situação do ex-ministro começou a se complicar depois que o caseiro Francenildo Costa, o Nildo, depôs no dia 16 de março na CPI dos Bingos. Nildo reafirmou em seu depoimento declarações dadas em entrevistas, que Palocci era um assíduo freqüentador de uma mansão usada para a realização de lobbies entre empresários e um grupo de ex-assessores dos tempos em que o ex-ministro era prefeito em Ribeirão Preto (SP). Na mansão, uma espécie de “Casa da Dinda do PT”, se tramavam as maracutaias, e havia animadas festas com garotas de programa.

O caseiro é a segunda testemunha a dizer que viu Palocci na mansão do lobby. A primeira foi o motorista Francisco das Chagas Costa.

Abuso de poder
A situação piorou muito para Palocci depois da quebra ilegal de sigilo de uma conta bancária do caseiro na Caixa Econômica Federal (CEF), um enorme abuso de poder do governo petista. Já tinham feito algo semelhante no depoimento do caseiro na CPI dos Bingos. Depois de falar por 40 minutos à Comissão, Nildo foi calado por uma liminar do Supremo Tribunal Federal. O “cala-boca” foi solicitado pelo PT.

A violação do sigilo de Nildo foi uma manobra para desqualificar sua denúncia. O tiro, entretanto, saiu pela culatra. Uma onda de indignação percorreu o País na medida em que ficava claro que a ordem para a violação teria partido da cúpula do governo e da CEF. Em depoimento do dia 27 de março, o então presidente da Caixa Econômica, Jorge Mattoso, afirmou em depoimento à Polícia Federal que entregou ao ministro o extrato da conta do caseiro. Mattoso também pediu demissão.

Jovem, filho de lavadeira e assalariado, Nildo passou a ser visto pela população como um brasileiro simples e humilde perseguido pelos donos do poder. A difusão dessa imagem foi extremamente prejudicial às intenções eleitorais de Lula e pesou no afastamento de Palocci.

A blindagem desmorona
Na crise política do ano passado, Palocci já vinha enfrentando inúmeras denúncias de corrupção feitas por seus ex-assessores Rogério Buratti e Vladimir Poletto. Mas seu destino, naquele momento, tomou rumos distintos de seus colegas do “núcleo duro do governo”. José Dirceu deixou a Casa Civil em junho de 2005, após as denúncias de Roberto Jefferson, e foi cassado em seguida.

Palocci se manteve no cargo pelas mãos do mercado financeiro. Nunca em toda história do País banqueiros e empresários lucraram tanto como no período em que o ex-ministro se manteve à frente do plano econômico neoliberal. Além disso, Palocci foi responsável por superávits fiscais recordes que garantiram o pagamento religiosamente em dia da dívida externa com o FMI.

Preocupado em manter a “estabilidade econômica” e os altos lucros de seus financiadores de campanhas, PT e PSDB-PFL negociaram um acordo e blindaram o ministro contra as denúncias. Mas a conjuntura do País mudou, a armadura enferrujou e Palocci foi degolado.

A “chapa vai esquentar”
O acordão montado pelo PT e PSDB-PFL para canalizar a crise do ano passado para as eleições preservou o mandato de Lula, manteve Palocci na condução da economia e salvou o mandato da maioria dos deputados envolvidos no mensalão.

No entanto, Lula retomou seus índices eleitorais em princípios do ano, apoiado no crescimento econômico e neste acordão, que tirou a crise política do centro do noticiário. O governo fez algumas concessões populistas, como o reajuste do salário mínimo e a extensão do Bolsa Família, enquanto o PSDB patinava dividido entre Serra e Alckmin. O resultado se viu nas pesquisas que indicavam a possibilidade de Lula ganhar já no primeiro turno. O alerta vermelho chegou para a oposição burguesa.

O PSDB afinal resolveu sua crise interna com a candidatura Alckmin, e resolveu mudar a tática para enfraquecer novamente Lula. Acabou com a blindagem a Palocci, pois os investidores do mercado financeiro perceberam que a saída do ministro não iria prejudicar o plano econômico. A imprensa burguesa centrou seu noticiário nas denúncias do caseiro, depois na violação de seu sigilo bancário, até o desgaste do governo obrigar Lula a sacrificar Palocci.

Esta crise política é distinta do ano passado. Já é parte direta da polarização eleitoral entre PT e PSDB-PFL, uma das muitas crises que virão até as eleições. Mas evidentemente o governo Lula sai desgastado, tanto com a imagem de autoritarismo contra um tipo popular como o caseiro, como com a perda de Palocci.

Existe ainda um farto cardápio de denúncias não apuradas que podem servir como nova munição para a oposição burguesa, como as tenebrosas transações nas contas de Lula feitas por Paulo Okamotto (seu amigo e tesoureiro) e as negociatas entre o filho empresário do presidente, o Lulinha, com uma empresa de telecomunicação.

Por outro lado, as denúncias em relação a Alckmin começam a surgir, revelando um favorecimento ilegal das empresas de publicidade Full Jazz e Colucci entre 2003 e 2005. A ameaça de uma CPI ronda a Assembléia Legislativa de São Paulo.

Nem Lula, nem Alckmin
Palocci fez o trabalho sujo de manter o fabuloso lucro dos empresários e banqueiros. Tanto que até mesmo o senador Arthur Virgilio (PSDB), cachorro louco dos tucanos no parlamento, agradeceu Palocci por sua “gestão histórica” à frente da Fazenda.

Com sua saída, nenhuma vírgula do atual plano econômico neoliberal será alterada. O novo ministro da Fazenda é Guido Mantega, que procurou acalmar os investidores internacionais e a Febraban (Federação dos Bancos) enfatizando na sua posse: “a política econômica não mudará”.

PT e PSDB-PFL são irmãos siameses na corrupção e na política econômica. São bandos que disputam ficará com o controle do Estado no próximo ano. Nem Lula nem Alckmin são opções para os trabalhadores. É preciso avançar na construção de uma alternativa, para as lutas e para as eleições. É preciso construir uma frente classista contra a falsa polarização entre petistas e tucanos.

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