O Exército e os `falcões`

Uma das bandeiras tradicionais da direita é a necessidade de aumentar a repressão para acabar com a criminalidade crescente. Os partidos burgueses (assim como o PT nos últimos anos) tradicionalmente defendem em suas campanhas eleitorais a ampliação do número de policiais nas ruas como a grande solução para o problema.

Isso é uma forma de esconder que a criminalidade é uma das manifestações da miséria, produto da exploração capitalista. Quanto mais miséria, mais criminalidade, haja ou não mais policiais nas ruas. Para acabar com a criminalidade, é preciso acabar primeiro com o desemprego e o arrocho salarial.
A exibição do documentário “Falcão – Meninos do Tráfico” pela rede Globo mostrou com dureza como a miséria joga crianças e adolescentes – os “falcões”- nos bandos do narcotráfico.

A direita aplaudiu de pé quando o Exército resolveu ocupar os morros do Rio de Janeiro para recuperar dez fuzis roubados de uma de suas guarnições. A classe média carioca, pressionada todos os dias pelos assaltos, também apoiou. Lula, sempre pensando em termos eleitorais, aplaudiu a ação. Agora está na hora de tirar as conclusões.

Em primeiro lugar, o cerco aos morros revelou a postura racista e burguesa do comando do Exército, assim como dos governos estadual e federal. Os soldados cercaram os morros, espancaram moradores, e mataram um adolescente negro de 16 anos absolutamente inocente.

Todos sabem que o comando do narcotráfico não está nos morros. Ali se escondem os “soldados rasos”, as tropas dos bandos. Os verdadeiros comandantes multimilionários vivem, como diz a população dos morros, no “asfalto”, em lugares bem mais chiques e confortáveis, como os bairros brancos e ricos da Zona Sul carioca. Mas seria muito difícil ver o Exército ocupando o Leblon ou a Lagoa, atrás de banqueiros. Apesar de todas as espalhafatosas ações, o Exército não encontrou nada nos morros.

Em segundo lugar, o resultado foi tragicômico. Para encontrar dez fuzis, o Exército gastou na operação o suficiente para comprar mil ou dois mil fuzis iguais. Como, apesar de tudo, não conseguiu encontrar as armas, fez um acordo com o Comando Vermelho (CV) para sua devolução. Pelas informações da imprensa, o acordo inclui a transferência de um dos líderes do CV, que está preso, para uma outra penitenciária, mais branda.

Isso prova que a utilização do Exército não resolve o problema da criminalidade, por não encarar a questão social da miséria. Prova também que, ao se colocar o Exército ocupando as funções de polícia, se incorporam nele a mesma corrupção e as negociatas que apodrecem hoje as polícias militares e civis, como neste acordo com o CV. Como dizia um“falcão” sobre a corrupção policial: “Se o tráfico acabar, eles só vão ter o salário deles…Então não vai acabar tão cedo”.

Post author Cyro Garcia, do Rio de Janeiro
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