O debate sobre as pré-candidaturas do PSOL

Fracassada a coligação com o Partido Verde e Marina Silva, o PSOL decide sobre uma candidatura própriaDepois do fracasso das negociações com Marina Silva, o PSOL definiu lançar uma candidatura própria. Os pré-candidatos são Martiniano Cavalcante (apoiado pelo MES-MTL e por Heloísa Helena), Babá (CST) e Plínio de Arruda Sampaio (apoiado pela maioria das correntes de esquerda do PSOL, além da APS, Enlace e o grupo dos parlamentares do Rio).

A candidatura de Babá tem apresentado posições políticas corretas, mas todos dizem que sua corrente não levará sua candidatura até o final pela pouca representatividade. O debate se concentra ao redor das candidaturas de Plínio (o favorito para ser indicado na conferência) e Martiniano.

A candidatura de Martiniano Cavalcante
Martiniano é um dos fundadores do PSOL, um quadro político com grande capacidade de iniciativa e boa oratória. É o candidato da ala direita do partido, expressando a aliança entre MES e MTL, que defenderam o apoio do PSOL à candidatura de Marina Silva.

Tal política é defendida no manifesto de apresentação da candidatura de Martiniano: “Foram estas concepções que orientaram a correta procura de dialogo com a senadora Marina Silva” – diz o documento – “Esta atuação do PSOL demonstrou a todo o país, com fatos e não com discursos professorais, que ela e o seu PV preferiram se aproximar dos Tucanos e dos Demos”.

Segundo estas correntes, foi correto propor uma aliança com o PV, um partido burguês completamente corrompido, e com Marina Silva, que apoia o plano econômico de FHC e de Lula. Essa aliança só não saiu porque Marina preferiu se aliar com o PSDB e o DEM no Rio. Ou seja, a aliança do PSOL com Marina só não saiu porque o PV não quis, e Martiniano opina que isso foi corretíssimo, uma espécie de aula de tática política a ser aprendida e copiada.

O MES defende também o financiamento de grandes empresas ao PSOL, como o caso da Gerdau no Rio Grande do Sul. Sobre isso, Martiniano não fala, porque tem acordo que deva ser repetido.

Um programa nos marcos do capitalismo
Na formulação do programa para a campanha, Martiniano afirma que “a síntese desta compreensão política é o programa de campanha. Ele não pode ser uma plataforma de caráter diretamente socialista por pura impossibilidade das condições concretas”.

Obviamente, não vivemos um ascenso revolucionário no Brasil. Isso é aproveitado por correntes reformistas como o MES e MTL para defenderem programas de desenvolvimento no marco do capitalismo. Uma orientação socialista não precisa se limitar a um campo ideológico, pode partir das questões mais sentidas pelos trabalhadores, como, por exemplo, a defesa de um salário digno para mostrar como a dominação do grande capital (e o governo Lula) impedem que isso se dê, para apontar a necessidade de uma ruptura com o capitalismo e o imperialismo. A grande crise econômica que explodiu em 2008 – ainda que estejamos vivendo uma recuperação parcial e conjuntural – possibilitou a retomada da discussão ampla sobre o socialismo.

Depois, Martiniano acrescenta: “a correlação de forças não nos permite apresentar propostas gerais de estatização de setores econômicos, sejam da indústria ou dos serviços como educação e saúde”. Ou seja, não se pode defender a estatização nem dos bancos. Não se pode sequer propor uma educação e saúde estatais por causa da correlação de forças.

Martiniano defende a continuidade da política desastrosa do PSOL
O manifesto de Martiniano coerentemente afirma que “é preciso avançar muito, mas avançar na direção de aperfeiçoar os acertos políticos gerais que marcaram a fisionomia do PSOL desde a sua fundação até aqui”. Em outras palavras, é a reivindicação aberta dos rumos atuais do PSOL, do financiamento da Gerdau, da tentativa de acordo com Marina. É a defesa dos passos já seguidos pelo PT, que deu no que deu.

Qual o programa defendido por Plínio?
Plínio de Arruda Sampaio impõe um respeito natural pelos anos de militância e coerência. Em tempos em que a política se tornou para muitos uma forma de se arrumar na vida, a coerência militante de Plínio merece respeito.

Vamos nos dedicar à discussão de suas posições por ser o favorito e por ser o candidato da esquerda do PSOL. Como todos sabem, desde o ano passado o PSTU propõe uma frente socialista e classista. Um dos critérios fundamentais para viabilizá-la é a adoção de um programa socialista.

No entanto, Plínio está sendo chamado para um acordo com a APS, importante corrente do PSOL que também esteve envolvida nas negociações com Marina. A declaração de apoio da APS diz explicitamente: “Sendo assim (…) a CNAPS define o nome do companheiro Plínio como nosso pré-candidato para a Conferência Eleitoral Nacional do PSOL e propõe a necessidade de um acordo na medida em que ele não é pessoal, mas vinculado a um projeto político. Este acordo está relacionado ao programa de governo; à estratégia de campanha; a outras questões importantes do discurso a ser feito no decorrer desta pré-campanha; assim como aos seus desdobramentos políticos e organizativos”.

Existe claramente o risco de que, para ser candidato do PSOL, Plínio assuma o programa de suas correntes majoritárias. Isso, na verdade, já começa a ocorrer. O que pode ser notado na sua recente entrevista à revista Carta Capital (nº 581).

Qual balanço do governo Lula?
Ao ser questionado se achava que o governo Lula era melhor que FHC, Plínio responde: “Ah, de longe, muito melhor. É que o talento de Lula é maior que o de Fernando, Lula é um homem talentosíssimo. Ele é de certo modo, pegue a palavra com cuidado, ele é de certo modo um impostor, mas um impostor que acredita na própria impostura. É um demagogo, quando Lula chora, chora mesmo. Não é Jânio Quadros, que chorava lágrimas de crocodilo. Ele não, aquela explosão de choro quando o Brasil foi escolhido para a Copa… Imagine se o Fernando Henrique seria capaz de chorar. Aquilo tem um efeito popular enorme, porque é autêntico, porque é verdadeiro. E o Lula é um homem mais humano, sofreu mais, conhece mais”.

Partimos de uma avaliação marxista, de classe, dos governos. Para qual classe social Lula governa? A mesma de FHC, ou seja, a grande burguesia. A avaliação de Plínio desconsidera as classes sociais e se enreda em uma avaliação subjetiva e simpática, completamente equivocada.

Em outra entrevista à Rede Vida, Plínio disse sobre o governo Lula que “o que é positivo tem que ser reconhecido e apoiado, mas o que está por baixo tem de vir à luz”. Na entrevista à Carta Capital, ele seguiu o mesmo raciocínio: “O quadro brasileiro é o seguinte: há quem está melhor do que estava, 20 milhões de pessoas que estão consumindo. A minha empregada está comprando um carro zero. Objetivamente, a inflação está segura, ainda é alta para alguns padrões, mas para nós aqui é uma maravilha. Todo mundo gosta de ver o Lula ao lado do Obama”.

Essa postura de apoiar o que existe de positivo e questionar o negativo do governo é completamente equivocada. Não vemos, por exemplo, nada de positivo na relação de Lula com Obama. Defendemos uma oposição global e clara sobre o governo, e isso impediria que tivéssemos um discurso comum nas eleições em um tema tão importante como o balanço do governo.

Plínio apresenta um recuo em relação á postura do PSOL em 2006. Naquele ano, tivemos várias polêmicas com Heloísa Helena, que deixou de lado o programa que tínhamos definido em comum na Frente de Esquerda, para defender essencialmente a queda na taxa de juros. Isso nos levou a várias polêmicas públicas com ela. Mas, justiça seja feita, em nenhum momento Heloísa teve essa posição de Plínio perante o governo Lula. Em todos os momentos da campanha, manteve-se na oposição intransigente a Lula e Alckmin.

Como se não bastasse, Plínio faz a seguinte avaliação de Serra: “O Serra é melhor que o Fernando Henrique. Mas é o Fernando Henrique. Ele é mais nacionalista que o Fernando Henrique. Eu conheço bem o Serra, nós estudamos juntos em Cornell, fomos companheiros, trabalhamos juntos. Eu o conheço desde menino. Serra é mais decidido que Fernando, que só pensa nele mesmo. Há horas em que Serra não pensa só nele”

Programa será ou não socialista?
Na entrevista, Plínio também nega que sua campanha será em defesa do socialismo. “Não em campanha programática, ideológica, propagandista, não falaria em socialismo, em produção de mercadoria, mas colocaria soluções mais fortes”.

Quais seriam as soluções fortes? Plínio responde: “As soluções concretas dos problemas concretos e em um discurso que aponte para a dinâmica dessa solução concreta. Vou dar um exemplo: reforma agrária, o que pode ser feito agora? O que pode ser feito agora é crédito. Em todo caso, o encaminhamento de uma solução que aponte para um desequilíbrio, uma desestabilização, uma dinâmica de transformação. O MST e a CNBB estão propondo o seguinte: as propriedades com mais de 1.000 hectares serão desapropriáveis, não quer dizer desapropriadas, o que permitirá muito maior flexibilidade. Qual é a solução para o programa educacional? Pagar melhor o professor, mais verba etc.”.

Plínio aponta para um programa com uma reforma agrária limitada, de acordo com a CNBB, e uma melhora na educação. Trata-se de uma reforma limitada no capitalismo, apresentada como uma solução concreta, alternativa a uma campanha ideológica pelo socialismo. Ou seja, é também um progama nos marcos do capitalimo.

Como já dissemos, uma campanha socialista não precisa se limitar a um patamar ideológico. Pode, a partir das reivindicações mais sentidas dos trabalhadores, como salário e emprego, mostrar a necessidade de estatizar os bancos e as multinacionais que controlam o país. No governo Lula os lucros dessas empresas se quadruplicaram. Só tocando na grande propriedade é que se poderá quadruplicar o salário mínimo atual para chegar ao proposto pelo Dieese.

Quais as diferenças programáticas entre Plínio e Martiniano?
Todos sabem que Plínio é o candidato da esquerda do PSOL e Martiniano Cavalcante o da direita. Mas isso não fica claro quando se lê os dois manifestos de apresentação das candidaturas. Em termos programáticos, ambos os documentos são muito semelhantes.

Além das denúncias do capital e do governo, param em um programa que se limita na auditoria da dívida externa. Não existe uma perspectiva de ruptura com o imperialismo, nem com o capitalismo. Ao contrario, aponta-se para uma reforma do capital.

Assim como o manifesto de Martiniano, o de Plínio não fala da necessária independência política e financeira da campanha eleitoral em relação aos distintos setores da burguesia. Não se fala do financiamento da Gerdau às candidaturas do PSOL em Porto Alegre, nem das alianças regionais com o PV gaúcho e o PSB no Amapá.

O que é isso, companheiro Plínio?
Um giro à direita de Plínio para garantir o apoio das correntes majoritárias do PSOL à sua candidatura seria um erro político. A resultante seria outro Plínio, um candidato da esquerda com o programa da direita do PSOL. Essa postura inviabilizaria uma frente socialista, além de anunciar mais uma frustração para a base do PSOL, com a continuidade de seu rumo atual.