O caso dos boxeadores cubanos

Governo Lula entrega atletas cubanos à ditadura castristaO governo brasileiro amargou certo constrangimento dias depois do fim dos jogos Pan-Americanos. O caso que envolveu os cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara e sua deportação é recheado de suspeitas.

O caso começou com a fuga dos dois da Vila do Pan. Segundo informações publicadas pela imprensa, os lutadores teriam desertado da delegação esportiva de seu país para lutarem profissionalmente na Europa. A deserção foi realizada em acordo com o empresário alemão, Michael Doering, um oportunista ávido em ganhar milhões. Em suma, movidos pela ambição, todos desejavam seguir para a Europa, lutar profissionalmente e ganhar muito dinheiro.

No entanto, dias depois os atletas foram repatriados. A partir desse momento, as informações se tornaram escassas, sugerindo um pacto de silêncio entre Lula e Fidel. Segundo o governo, a repatriação foi uma operação “rotineira” e os atletas tinham manifestado seu desejo de voltar a Cuba. As circunstâncias da deportação, entretanto, fazem com que essa história seja difícil de engolir.

Os boxeadores foram mantidos incomunicáveis, e todos os outros fatos, depoimentos, etc. contradizem a versão oficial, tornando bastante provável que os atletas tenham sofrido ameaças de represálias a parentes que permaneceram em Cuba. As ameaças seriam de prisões, perda de casas e de empregos ou coisas ainda mais graves. A partir daí, os atletas resolveram recuar e retornaram ao país.

Já em Cuba, com sorrisos amarelos, os atletas disseram que retornaram ao país por vontade própria e que foram “embriagados” e “drogados” pelo empresário. Difícil de acreditar.

De que Cuba estamos falando?
Muitas discussões se abriram sobre o caso dos cubanos. Será que eles tinham o direito de se exilar no Brasil? O governo agiu bem ao deportá-los? Isso nos remete a um outro debate. O que se passa em Cuba hoje?

Graças à revolução, Cuba conquistou avanços imensos em áreas como educação e saúde pública, com níveis comparáveis aos países imperialistas, e superou, nessas áreas, nações mais desenvolvidas, como Brasil, México ou Argentina. Também avançou muitíssimo o nível de vida geral da população, e a pobreza foi eliminada. Isso se refletiu também nos esportes. Depois da revolução, Cuba teve desempenhos esportivos bem superiores aos países do continente.

No entanto, tudo isso está retrocedendo. Acreditamos que o problema que enfrenta Cuba é que o capitalismo já foi restaurado na ilha pela própria direção castrista, na segunda metade da década de 1990, associada ao imperialismo europeu e ao Canadá. Como exemplo, citamos o fim do monopólio do comércio exterior por parte do Estado, exercido pelo Ministério de Comércio Exterior. Hoje, tanto as empresas estatais como as mistas podem negociar livremente suas exportações e importações.

Há outros exemplos, como no turismo, em que a empresa espanhola Meliá possui uma rede de Hotéis no país. Ou, ainda, o caso da companhia telefônica de Cuba (Etecsa) que foi privatizada pelo governo, vendida ao Grupo Domos, do México, em parceria com a italiana Stet.

Mas, talvez, uma das provas mais sensíveis da restauração seja o retorno de mazelas típicas do capitalismo. A prostituição, velha chaga capitalista, retornou com força a Ilha e é visível pelas cercanias da avenida Malecon, em Havana.

A desigualdade social e a miséria crescente fazem com que atletas cubanos se sujeitem a aliciadores oportunistas que procuram obter vantagens financeiras. Por outro lado, o regime – uma ditadura que proíbe liberdades democráticas elementares como sindicatos independentes, greves, jornais autônomos, livros e até viagens de seus cidadãos a outros países – sofrem a pressão das ameaças contra seus parentes, caso abandonem seu país, algo tipicamente stalinista.

Se por um lado não é aceitável que empresários oportunistas e corruptores se aproveitem da situação dos atletas, por outro, é inaceitável que Lula entregue-os ao ditador Fidel Castro. Não foi oferecido asilo, não se atuou como quem está perante uma ditadura. A impressão é que o governo fez um favorzinho para um amigo, um compadre. O que Lula deveria ter feito, era dar asilo político aos atletas. Ao contrário, o governo brasileiro cumpriu um lamentável papel, sujeitando-os a um futuro incerto e humilhante. A deportação dos cubanos só pode ser vista como um ato explícito de repressão.