O Brasil da miséria: a realidade mora ao lado

Números do IBGE mostram que 8,5 da população brasileira e 15% da população sergipana vivem abaixo da linha da pobreza“Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo”. A ira que move o personagem do conto O Cobrador – Rubem Fonseca [1979] – deve também corroer vários dos 4,8 milhões de brasileiros que tem renda nominal mensal igual a zero, bem como vários dos 11,43 milhões que possuem renda de R$1 a R$70 mensais.

Na terça-feira, 3, a ministra de Desenvolvimento e Combate à Fome, Tereza Campello, apresentou os dados da pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), onde revelam que 16,27 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza, ou seja, 15% da população. O presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Márcio Pochmann, frisou que a taxa de extrema pobreza atinge quase um brasileiro a cada dez.

O IBGE informou que os critérios adotados para estabelecer a linha de pobreza foram: residência sem banheiro ou com uso exclusivo; sem ligação de rede geral de esgoto ou pluvial e sem fossa séptica; em área urbana sem ligação à rede geral de distribuição de água; em área rural sem ligação à rede geral de distribuição de água e sem poço ou nascente na propriedade; sem energia elétrica; com pelo menos um morador de 15 anos ou mais de idade analfabeto; com pelo menos três moradores de até 14 anos de idade; com pelo menos um morador de 65 anos ou mais de idade. A linha per capita estabelecida foi R$70 considerando o rendimento nominal mensal domiciliar.

A pobreza em Sergipe
O número de pessoas que vivem em situação de extrema pobreza no ‘País do Forró´ ultrapassa mais de 311 mil, isto é, 15% da população sergipana dança forró de barriga vazia. De acordo com a pesquisa, 158.223 mil pessoas que sobrevivem com renda per capita de até R$70 estão na zona rural sergipana (50,8%). Outras 152.939 mil nessa situação estão localizadas na zona urbana (49,2%).

Ana Leão, 33 anos – moradora da ocupação Arrozal, no bairro Santa Maria, em Aracaju – reside em um barraco com três filhos e uma sobrinha. Desempregada, sobrevive com R$134 mensais do programa governamental Bolsa Família. Seu barraco não tem banheiro, não possui ligação da rede geral de esgoto, sem fossa séptica e sem a rede geral água. Pelo critério utilizado na pesquisa, Ana Leão não entra na linha extrema de pobreza, pois sua renda mensal é de R$134. Em uma visita à residência de Ana Leão podemos ver o que é extrema pobreza, pois os critérios maquiados não podem esconder a realidade.

Visitamos a casa de Ana Leão e de outras dezenas de famílias logo após uma das fortes chuvas que caiu em Aracaju nos últimos dias. Na ‘Capital da Qualidade de Vida´, seres humanos moram em barracos de madeira, convivendo com enchentes no período chuvoso. “À noite, quando chove, não conseguimos dormir. Precisamos levantar as nossas coisas. A água entra e bate no joelho”, disse Ana Leão, ao lado de sua geladeira branca suspensa por dois latões de tinta. Na parede, pode-se notar a marca deixada pela enchente na noite anterior.

“Aqui já estamos acostumados com cobra, sapo, rato, sanguessuga e mau cheiro”, desabafou Regiane dos Santos, 26 anos, desempregada, mãe de um filho, sobrevive com R$96 mensais do programa Bolsa Família.

Ana Leão e Regiane dos Santos são negras, confirmando os dados apontados pela pesquisa divulgada na última terça-feira. A maioria dos brasileiros em situação de miséria é negra ou parda. O presidente do IBGE destacou que tanto na zona rural como na urbana, quanto maior é a renda da população maior é o contingente da população branca. Quanto menor a renda maior a população parda e negra.

Os dados da desigualdade social seguem. Em 72,3% dos domicílios sergipanos as famílias vivem com até um salário mínimo mensal, a época – R$510. No nordeste esse percentual é de 74,62%.

A pirâmide da renda mensal das famílias sergipana
– Renda per capita de +5 salários mínimos: 18.009 famílias;
– Renda per capita entre 3 e 5 salários mínimos: 19.530 famílias;
– Renda per capita entre 2 e 3 salários mínimos: 23.051 famílias;
– Renda per capita entre 1 e 2 salários mínimos: 73.206 famílias;
– Renda per capita de até 1 salário mínimo: 427.520 famílias.

Entre as famílias que tem renda per capita de até um (1) salário mínimo temos as seguintes situações:
– 110.456 vivem com até 1/4 do salário mínimo;
– 156.460 vivem com 1/4 a 1/2 do salário mínimo;
– 160.996 vivem com 1/2 do salário mínimo.

A pobreza extrema pelas regiões do ‘Brasil de Todos´
59,1% das pessoas que vivem em extrema pobreza no Brasil estão na região Nordeste. Esse percentual representa 9,61 milhões de miseráveis.

A região Sudeste é a segunda com o maior número de pessoas abaixo da linha da pobreza – 2,72 milhões.

Em terceiro lugar, está o norte com 2,65 milhões. Logo em seguida, o Sul com 715.096 mil pessoas, e o Centro-oeste com 557.044 mil.

Erradicar a pobreza?
A presidenta Dilma Rousseff (PT) em sua campanha eleitoral fez muitos discursos sobre a erradicação da pobreza no Brasil. A ministra Tereza Campello, ao apresentar os dados da pesquisa do IBGE, disse que o governo federal vai lançar um programa para erradicar por completo a pobreza extrema em quatros anos.

Esse programa milagroso foi elaborando no mesmo laboratório que descobriu a fórmula do Bolsa Família e do Minha Casa, Minha Vida. A situação não muda porque a politica econômica aplicada por Lula durante oito anos, seguida por Dilma, não prioriza os setores sócias. O governo já anunciou oficialmente o corte de R$ 50 bilhões dosgastos públicos. Esses cortesvirão da redução dosinvestimentos em saúde e educação públicas, do arrocho salarial e das aposentadorias.

Infelizmente, um lado sempre leva a melhor. Os dados da pobreza acima citados comprovam isso. Os banqueiros – por meio do pagamento da dívida pública – somente de outubro de 2010 até o início de 2011, receberam R$ 134 milhões. Com o corte no orçamento de R$ 50 bilhões, serão reduzidos R$8 bilhões da moradia; R$3 bilhões da educação; R$2,5 bilhões do transporte; R$1,5 bilhão da justiça e R$1,5 bilhão da agricultura. O governo fez a previsão de R$300 bilhões para pagamento da dívida pública. Essa previsão continua. Cortes somente nas áreas sociais.

No dia 7 de março, durante seu programa de rádio “Café com a presidenta”, Dilma disse “é difícil uma mãe ouvir um filho pedir comida e não ter”. Mas Dilma e seus parceiros estão longe de sentir essa dor. Enquanto ela quebra ovos preparando suas omeletes em programas televisivos, milhões em nosso país não tem dinheiro para comprar um ovo.

É bom lembrar que o Brasil é um país de todos. Imaginem se não fosse.

“Os ricos gostam de dormir tarde/ apenas porque sabem que a corja/ tem que dormir cedo para trabalhar de manhã/Essa é mais uma chance que eles/ têm de ser diferentes:/parasitar,/ desprezar os que suam para ganhar a comida,/ dormir até tarde”.
[O Cobrador – Rubem Fonseca, 1979]