O aniversário do PT: porque não vamos cantar parabéns?


Não há porque não lembrar que a formação em 1979/80 de um PT sem patrões, que evoluiu para a influência de massas, rapidamente, nas grandes cidades do Estado de São Paulo, liderado por um líder grevista metalúrgico, sem relações internacionais sólidas foi um fenômeno político admirável, porém, imprevisto. O PT foi o maior partido da história da classe trabalhadora brasileira no século XX. Nos anos oitenta, Lula e a direção do PT (que organizou a corrente Articulação) foram capazes de empolgar um partido que, em dez anos, evoluiu de uma organização de uns poucos milhares, para centenas de milhares de ativistas. E que saiu dos 10% dos votos em 1982 para governador em São Paulo (e menos de 3% na média nos outros Estados), para uma disputa muito apertada do segundo turno nas eleições presidenciais de 1989, contando apenas com contribuições voluntárias.

O PT de 2014 é, evidentemente, outro partido, embora a fração dirigente seja, essencialmente, a mesma. Em três décadas, o PT elegeu muitos milhares de vereadores, algumas centenas de deputados estaduais e federais, chegou ao governo de mais de mil prefeituras, muitos Estados e está pela terceira vez à frente da presidência. O PT de 2011 é a máquina eleitoral mais profissional do Brasil, portanto, integrada às instituições do regime e associada, estreitamente, a alguns dos mais poderosos grupos empresariais.

O PT e Lula são hoje muito sobreestimados, mas seria injusto não lembrar que foram subestimados quando apareceram na vida política nacional em 1979/80. Tão desdenhado foi o PT até 1982 que uma parcela da imprensa e da mídia da época não se preocuparam muito com a impressionante liderança de Lula entre os operários do ABC e, por isso, lhe permitiram uma visibilidade política que nunca foi cedida, por exemplo, a Prestes.

Não obstante, depois da fundação da CUT em 1983 a política da burguesia e da mídia em relação ao PT mudou. O processo de transição democrática que a ditadura perseguia estava sendo ameaçado pelas aparições de Lula e pelo papel do PT inspirando o proletariado de todo o país a lançar-se à luta sindical e política de forma independente. Ser petista era sinônimo de ser um igualitarista, um radical. Quando o peso de uma vanguarda de centenas de milhares de ativistas começou a ser sentido, sobretudo, durante a campanha pelas Diretas, o PT passou a ser considerado, seriamente, como um inimigo, e Lula como um perigo. Depois da eleição de Erundina para a Prefeitura de São Paulo, em 1988, foi criado o segundo turno nas eleições majoritárias para blindar a ameaça de novas vitórias petistas. A militância petista fazia a diferença nas greves, nas ocupações e, também, nas eleições.

Não parece ser muito polêmico que o PT nunca foi um partido revolucionário, embora muitos lutadores honestos que combatiam pela revolução brasileira tenham militado, com abnegação e despojamento, em suas fileiras. Uma análise sóbria permite concluir que o PT surgiu como um partido operário com um projeto de representação independente da classe trabalhadora, mas com um projeto político dominante na sua direção de reformas para a regulação do capitalismo brasileiro.

Em dez anos, entre 1979 e 1989, em função da decisão política de ser oposição à abertura lenta, gradual e controlada da ditadura militar – a estratégia de transição para democracia perseguida pelos governos Geisel e Figueiredo, sob a inspiração do general Golbery – o Partido dos Trabalhadores logrou ser o pólo de atração do que havia de melhor  na geração de ativistas sociais que estiveram à frente dos maiores movimentos de massas da década, diminuindo a autoridade do MDB de Montoro e Tancredo quando eleitos governadores em São Paulo e Minas Gerais em 1982, e deslocando a influência que poderia ter sido atraída pela liderança de Brizola, eleito governador no Rio de Janeiro no mesmo ano.

Um proletariado jovem e combativo, mas, politicamente, inexperiente
Foi ao longo desses trinta anos que se desenvolveu a experiência de milhares de greves das mais variadas categorias de trabalhadores que revitalizaram os sindicatos. Aconteceu, também, o aprendizado superior das greves gerais dos anos oitenta. Houve os comícios imponentes de Lula em 1989, com centenas de milhares de pessoas nas ruas. A luta dos aposentados depois do plano Zélia/Collor comoveu o país. Sem esquecer a greve histórica dos petroleiros de 1995, a marcha do MST de 1997 sobre Brasília, um ano depois do massacre de Eldorado de Carajás, e tantas outras lutas populares. Mas, nesses combates parciais a classe trabalhadora brasileira sempre foi mais radical em suas ações do que em suas reivindicações. Moveu montanhas, mas para reivindicar muito pouco.

Somente por duas vezes, nesse intervalo histórico de três décadas de crescente confiança na direção de Lula, do PT e da CUT, as massas populares conseguiram irromper na cena política com a força grandiosa de sua mobilização política nas ruas, ameaçando o governo de plantão. Seu programa, mesmo quando agiam com métodos revolucionários – derrubar governos nas ruas é uma ação revolucionária, mesmo quando as mobilizações são pacíficas – era reformista.

A mobilização por objetivos políticos foi, portanto, incomum, inusitada. Para derrubar governos odiados, então, foi excepcional. As massas populares e a juventude descobriram nas Diretas e no Fora Collor que sua ação era poderosa. Mas, ficou claro, também, com a posse de Sarney (1985) e de Itamar (1992), que era mais fácil se juntarem contra Figueiredo e contra Collor, do que se unirem a favor de um projeto anticapitalista. O socialismo, uma referência vaga para milhões, não era senão uma aspiração de maior justiça. Foram às ruas expressando a imponência de sua força, imensas maiorias de pobres, deserdados e remediados em um país enorme, urbanizado em pouquíssimas décadas, muito jovem e com pouca experiência política, frágil organização independente, baixa instrução e, mais importante, por tudo isso, tendência à radicalização.[1]

O PT e as flutuações da relação de forças entre as classes
A CUT, o PT e Lula se legitimaram nesse processo, mas a classe trabalhadora não estava nem social, nem politicamente à frente da maioria popular explorada. Não dirigia, foi acaudilhada. Nem as Diretas, nem o Fora Collor, foram construídos com uma plataforma que destacasse as reivindicações de classe. O programa que levou milhões à luta não era senão democrático. Não surpreende que os grandes combates se dessem nos limites de alianças com dissidências burguesas, como o MDB de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves em 1984, e Orestes Quércia e Brizola em 1992.

Em 1992, quando já possuíam uma influência majoritária na classe trabalhadora, o lugar de Lula e do PT foi regressivo: chegaram atrasados às ruas, e coube a eles o papel de bombeiros assegurando a posse de Itamar que era, fora de Minas, um ilustre desconhecido, embora estivesse, quase acidentalmente, na vice-presidência.

Não obstante a pressão de inércia reacionária de um país culturalmente muito atrasado, onde o medo de represálias sempre foi muito efetivo para neutralizar a ação coletiva do povo e, politicamente, pouco organizado, a maioria da classe trabalhadora organizada nos sindicatos foi evoluindo à esquerda nos anos oitenta. Chegou a protagonizar duas greves gerais, em 1987 e 1989, que, ainda quando parciais, conseguiram dimensão nacional. Das ilusões no PMDB, a classe trabalhadora girou para a oposição ao governo Sarney, e levou Lula ao segundo turno em 1989. Já as classes médias urbanas evoluíram à esquerda nos anos finais da ditadura, mas depois se dividiram: uma maioria deslocou-se para o apoio a Collor em 1989, e depois sustentou com euforia o apoio ao plano Real. Depois da desvalorização da moeda em 1999, os setores médios se afastaram, lentamente, do governo FHC e do PSDB que sangravam com sucessivos escândalos de corrupção, enquanto o PT girava à direita, despudoradamente, e se aproximaram de Lula. Acabaram por se encontrar em 2002.

A maioria do povo desorganizado permaneceu como base eleitoral dos partidos burgueses, herdeiros da Arena e do PMDB, ao longo dos vinte anos que separaram 1982 de e 2002, quando Lula foi eleito. Em resumo: primeiro, nos anos oitenta, os setores organizados do proletariado e a juventude estudantil, mas, depois, com o passar dos anos, na virada do século, uma parcela da classe média e, também, uma parte das massas populares semiproletárias apostaram, também, na mudança de suas vidas pela representação política que o PT e Lula ofereciam. Uma promessa de reformas com poucos riscos de confronto com os poderosos interesses do capital.

Que o papel do PT no governo e, também, fora dele tenha sido, essencialmente, o de garantir a estabilidade do regime eleitoral da dominação burguesa diz quase tudo sobre a sua degeneração política. Porque isso só foi possível com o abandono da defesa dos interesses da classe trabalhadora que ele pretendia representar. Como se diz, não se pode servir a dois senhores. O PT que nasceu no dia 10 de fevereiro já morreu. O que está no governo é outro. Não vamos cantar parabéns, nem assoprar velas.

[1] Entre 1950/80, o Brasil dobrava o PIB a cada década, em média. Precisou somente de trinta anos para dobrar a população. Em termos reais, a renda per capita era, em 1980, 50% maior que em 1950. Demorou, contudo, os últimos trinta anos para duplicar o PIB de 1980. E demorou, também, trinta anos para dobrar a escolaridade média: alcançou em 2010 uma escolaridade de 7 anos (para a população com 15 anos ou mais), metade da escolaridade dos países europeus do Mediterrâneo.

Publicado originalmente no blog Convergência

ACESSE o blog Convergência